Um vírus para a vida…

O vírus parece que veio mudar tudo na vida das pessoas, na vida do mundo, na vida do País, na vida da Região, na vida do concelho, na vida da freguesia, na vida com os vizinhos, na vida com a família. A forma como a sociedade estava estruturada, a tecnologia a substituir o contacto direto, os tempos ditos de progresso, no fundo, era uma “telescola” permanente, o pouco tempo que as pessoas tinham umas para as outras, o muito tempo que perdiam a falar das outras, das coisas, mais do que as causas, do ter mais do que ser. E num abrir e fechar de olhos, tudo posto em causa, prioridades invertidas e valor ao que antes parecia ser quase nada.

No mundo do trabalho, também o rodopio contabilístico, um homem/mulher igual a um número, no início precários pelas dificuldades da Nação, depois precários por já não haver outra coisa no mercado de emprego. Da Nação, ficou uma ‘’nação’’ de recibos verdes. Havia muito empresário que fazia tudo para pagar menos um cêntimo a cada empregado, que no fim das contas ia dar mais qualquer coisa para o lucro, havendo tempo ainda para dizer que, mesmo pagando o ordenado mínimo, porque a lei não permitia menos, era preciso que o funcionário demonstrasse que merecia, devia defender o emprego sem ser das nove às cinco, ou seja só trabalhando por volta de 14 horas. Era a consequência da oferta e da procura, do nivelamento por baixo, como meio de baixar as estatísticas de emprego, mesmo com o custo da incerteza e do desemprego no horizonte, mais dia menos dia. A mensagem era a de que, hoje, já não há empregos para a vida. Era isso ou nada. E, num ápice, um vírus trocou as voltas e obriga-nos a refletir, temos tempo para fazê-lo e devemos fazê-lo para ver se conseguimos sair disto. Vamos sair diferentes, resta saber como.

Não sei se a Covid-19 vai mudar mentalidades de forma efetiva, acho que no fundo a sociedade é mesmo assim. Agora que está tudo com medo, quem se aproveitou e vê que não pode vender uma cerveja que vendia a euro e meio nem a 10 cêntimos, pensa que se Deus ajudar será diferente, vai vendê-la a 50 cêntimos, respeitará empregados, não explorará clientes e ganhará na mesma o que pode sem especular. Se for assim, não é que o vírus tenha valido a pena, longe disso por ser uma verdadeira tragédia de saúde, mas também económica e social, mas serviu para abalar consciências, colocar em causa quase tudo, fazer descer à terra a nossa forma de encarar a vida. Ou melhor, a forma que muitos têm de se aproveitar da vida como se isso fosse suficiente para aproveitar a vida. Será que conseguiremos sair disto melhores? Não sei, gostava muito mas tenho as minhas dúvidas.

E as dúvidas começam, desde logo, com aquilo que se vê em plena pandemia, que na realidade, sejamos objetivos, veio colocar muitos empresários e muitos trabalhadores em grandes dificuldades, necessitando de ajudas urgentes, é uma verdade indesmentível. Mas mesmo assim, mesmo com o susto dos tempos, que pode atingir o sem abrigo da mesma forma que atinge o presidente da República ou o líder da lista de milionários ou bilionários da revista Forbes, assistimos a situações que nos fazem pensar muito naquilo que andámos a construir. Nem tinha passado uma semana e já existiam empresas que mandavam cartas aos funcionários ou ‘’encomendavam conversas’’ para antecipação de férias, com ameaças veladas a uma futura possibilidade de “layoff” ou até mesmo desemprego puro e duro no futuro. Empresas, pelo menos algumas, que não havia quem dissesse que estavam já aflitas. Claro que não estavam, mas nem a pandemia impede o aproveitamento saloio, como se ninguém estivesse a ver. Depois, paga o justo pelo pecador e as que precisam mesmo ficam a ver a crise passar.

Outros casos, como recentemente foi denunciado pelos sindicatos dos professores, querem retirar o subsídio de refeição a funcionários em teletrabalho, mesmo sendo ilegal, querem que ps docentes passem horas na escola mesmo em teletrabalho e querem que utilizem o apoio aos filhos para que as escolas não paguem e seja o Estado a assumir. Ouviu-se que a situação será investigada, é bom que seja, esta e outras, é importante que o governo não deixe passar esta outra “pandemia”.

Aproximam-se tempos muito difíceis, já estamos a viver tempos difíceis, os outros serão mais. O objetivo é que todos tenham a humildade e assumam as suas responsabilidades, sem subterfúgios, sem aproveitamentos, toca a todos e, por isso, este é um desafio coletivo, é um vírus que atingiu o coletivo e contra o qual é importante fazer um combate coletivo, independentemente de todos reconhecerem a importância de quem mexe com a economia e cria emprego, já sabemos disso. A produção de quem trabalha também conta alguma coisa.

Por isso, deixem-se de artifícios linguísticos. Primeiro, tratar do problema de saúde e apoiar quem precisa, as pequenas e médias empresas, na área do Turismo, hotelaria e similares, que mexe com múltiplas atividades, muitas não vão conseguir recuperar. Mas também muitas outras atividades. As famílias. O desemprego vai aumentar, a pobreza também, a economia na sua globalidade vai sofrer e o Estado deve fazer a sua parte e ser solidário com a Região, que neste caso tem sido assertiva nas medidas.

Agora, sem retirar o foco em quem precisa de ajuda, sejam famílias ou sejam empresas, e há muitas que estão em desespero, é importante haver, a par desse apoio urgente, mão pesada nos “artistas” da crise. E, já agora, nos possíveis especuladores de serviços que ainda estão abertos.

Já chega este vírus, que pela mossa que fez será para a vida…


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