Abril em Portugal

Esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Neste abril não há festa! Nem há musas para este fado.

Porque o abril das águas mil verteu-se em mãos ensaboadas.

Porque o abril da liberdade entrou em emergência e fechou-se.

Não há crianças na rua nem avós a ir buscá-los.

O afago do abraço e a alegria do beijo foram substituídos pelo controlo dos costumes e pela desconfiança do próximo.

Porque o reflorir da primavera está nas mãos enluvadas que se esforçam, prestam e ajudam.

Porque estes dias mais longos e claros, esvaem-se na procura da boa noticia, daquela luz que nos indica o fim do túnel e nos tire da sua sombra.

Escorregam-se os dias do mês na incerteza mas também na esperança, na angústia mas também na heroicidade, na carência mas também na ajuda.

As procissões, os compassos e a memória do calvário do Salvador saíram das praças e entranharam-se no coração de um povo que ora suplicante no recato dos seus quartos.

Exibem-se cruzes enramadas nas portas, como os hebreus pintaram as ombreiras nessa primeira Páscoa, pedindo que Deus abençoe os seus lares.

E Deus vai passar.

Há uma ressurreição libertadora à nossa espera.

Este abril confinado anuncia um tempo novo.

O nosso cabo das tormentas perspetiva a boa esperança que adormecia no dia-a-dia em que nos consumíamos.

Há um vírus que se pode transformar no novo sextante desta travessia que abril nos impõe.

Há um susto que se transfigura em sinal.

Ah sim, esta terra ainda vai cumprir o seu ideal.

Agora sim, Pessoa, pode cumprir-se Portugal!

Não um ideal de domínio, ou de encerrar fronteiras.

Esta é a época das novas descobertas, não de terras inóspitas, estranhas, desconhecidas. Agora navegamos à procura do outro, daquele que necessita, que se cruza no nosso caminho.

Há uma cruz que abraça e nos impele ao abraço.