Só agora acordaram para a eutanásia?

 

Quase em cima da discussão parlamentar da despenalização da eutanásia, eis que todos só agora despertaram para uma realidade tenebrosa, a da morte assistida. Pergunta-se: até agora, que andaram a fazer?

Há nomes formais que não se dão a certas práticas. Mas quem lê com olhos bem abertos a imprensa e acompanha idosos, com problemáticas sérias ao nível da sua saúde, sabe que, há muito se fazem contas sobre se vale ou não a pena investir em fármacos publicamente dispendiosos para salvar vidas de idosos por apenas um ou três anos. Alguém já se pronunciou contra isso? Alguém já se insurgiu quando alguns gestores hospitalares  afirmam, com o natural despudor que o custo-benefício em saúde também é uma premissa moderna de gestão? Ninguém. Justamente porque, de forma pueril, se pensa que isso só afeta os outros e não nos toca na pele.

Então, de se trata agora? Trata-se de abrir, formalmente, a porta, como quem bate de mansinho, à guia de marcha para o céu de idosos que se tornam um fardo para o sistema de saúde mas também para muitas famílias que os preferem abandonar nos hospitais ou então despachar para os lares cujas paredes gritam diariamente de dor, de solidão, de tanta ingratidão…

Petições? Orações? Audiências? Atrevo-me a responder: são cuidados paliativos para uma doença que se alastra na nossa sociedade: o culto do egoísmo. Primeiro, sou eu que mando na minha vida. Segundo, sou eu que mando na vida dos outros.  Depois, os resultados estão à vista: famílias cada vez mais desestruturadas e ensanguentadas, professores ocupados em ensinar o amor e as boas maneiras aos jovens cujas famílias perderam o sentido do amor e da autoridade e, claro está, um país envelhecido e governado pela tirania do egocentrismo.

Noutros países, por menos, o povo estava na rua para lembrar aos governantes que exigem ser ouvidos, em nome do interesse coletivo. Isto não vai lá só com oração, palavras bonitas e inflamadas nas redes sociais, mas sobretudo com ação no terreno, de alto a baixo.

Ante tamanha alienação coletiva e culto do “eu”, diria que o pior pode sempre acontecer. Por isso, sem meias verdades ou posicionamentos mornos de uma cravo e outra na ferradura, é tempo de varrer da sociedade tudo o que atenta contra a vida, com palavras e sobretudo com atos. Mas não é só quando o diplomazinho está na iminência de ser aprovado. É sempre que algum governante usa a palavra na comunicação social julgando que a população é acéfala ou acrítica, sobretudo com com afirmações que, nas entrelinhas, sim, muito importante ler nas entrelinhas, fazem lembrar  os infelizes e inesquecíveis tempos do nazismo.