Cenas de pancadaria

No meu tempo não havia nada desta selvajaria.

No meu tempo os jovens não bebiam.

No meu tempo havia respeito porque os pais impunham respeito em casa.

No meu tempo os porcos voavam e as vacas faziam sapateado. Os unicórnios faziam o coro.

Porque sempre houve violência. É condição humana. Caim e Abel.

Porque os jovens sempre se excederam. Testaram limites. Fizeram asneira.

Sempre me enervou o no meu tempo e o cá antigamente. Tacanhez, falta de autoconhecimento. Ignorância histórica.

Uma multidão temível de selvagens ignorantes. Rapazes com provas de hábitos dissolutos e raparigas que bebem, lutam, praguejam e fumam. A moral da juventude atual é dez vezes pior que da anterior.

Poderia ter sido escrito hoje pela equipa do antigamente. Foi proferido por Ashley Cooper num discurso na Casa dos Comuns. Em 1843.

Não é por isso que a cena de pancadaria à porta das Vespas é desculpável. De longe. Absolutamente condenável e de punição indispensável.

O policiamento naquela zona obviamente tem de ser mais e melhor. Também.

Que custa ver, custa. Mas já vi ao vivo. Várias vezes.

Nasci durante o dia. Mas só por engano. Sou notívaga, não há volta a dar.

Saí à noite pela primeira vez aos doze anos. E saí muitas vezes depois dessa. Muitas. Vi muito. Fiz muito.

Mas que agora me custa imaginar que uma daquelas raparigas pode ser uma das minhas daqui a uns anos, custa.

Que custa ver a impassibilidade da assistência e a necessidade suprema de documentar à David Attenborough, custa.

E o que custa horrores, horrores, ver alguém ter a falta de humanidade para pontapear outro que está no chão, desfalecido, indefeso, custa. Horrores.

Agora só não me venham dizer que esta juventude está perdida. Porque toda a juventude já esteve perdida. Tanto como a anterior.


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