Ricardo Nascimento: perdas de água nas redes dos municípios podem afectar a nossa própria sobrevivência

Fotos: Rui Marote

O Funchal Notícias entrevistou Ricardo Nascimento, o novo presidente da Associação de Municípios da RAM, nesta sua qualidade e também na de edil ribeirabravense. Entre comentários ao processo da sua eleição, que indispôs o homólogo de Câmara de Lobos, Pedro Coelho, a desdramatização da situação e múltiplos outros assuntos, o autarca falou das aspirações e preocupações da AMRAM, que passam também pela resolução da circunstância muito preocupante das grandes perdas de água das redes dos diversos municípios, nem todos inseridos na Águas e Resíduos da Madeira. Na sua perspectiva, estas perdas são sérias e podem mesmo vir a afectar a sobrevivência da população, face às alterações climáticas. Por outro lado, e no caso da melhoria da economia da Ribeira Brava, incentiva os comerciantes a melhorarem decisivamente o serviço, que “nem sempre é o melhor”.

FN – É o 11º presidente da Associação de Municípios da RAM. Qual lhe parece ser a importância desta organização para concertar as aspirações dos diferentes municípios?

– A AMRAM é uma instituição que permite representar os onze municípios. Fui seleccionado entre os colegas para liderar o executivo, num trabalho de continuidade, principalmente em matéria de parcerias entre diferentes municípios. Há projectos que são mais valias para os municípios da Região Autónoma da Madeira.

FN- Quais são as preocupações comuns aos municípios que encontram expressão na AMRAM?

– Têm sido levantadas duas preocupações. Uma delas prende-se com a saída da lei 50/2008 sobre a descentralização de competências dos governos da República e Regional para as autarquias. Precisaremos de discutir isto com o Governo Regional, porque muitas dessas competências estão regionalizadas, no âmbito do Estatuto Político-Administrativo da RAM. Nesse aspecto, queríamos arranjar um tronco comum de possíveis competências, embora depois caiba a cada município fazer essa negociação.

FN – Há competências que os municípios desejam e outras que, se calhar, ao fim e ao cabo…

– …não se justifica. Os municípios, devido à proximidade das instituições do seu concelho, muitas vezes resolvem situações. As pessoas, quando estão aflitas, muitas vezes batem à porta das câmaras e resolvem as situações sem que estas tenham sequer competências. Os municípios resolvem, ajudam… E há certas competências que seria uma mais valia já ficarem escritas no papel, preto no branco. Obviamente que teremos que nos sentar com o Governo Regional e pôr esta questão em cima da mesa. Esta é uma das preocupações que tem aparecido nos últimos tempos por parte dos municípios, e que exige regulamentação na Madeira. Saiu a legislação nacional, mas é precisa a adaptação à região autónoma. Uma outra preocupação também expressa, tem a ver com uma verba que a lei define, uma pequena participação – estamos a falar de sete e meio por cento – das receitas cobradas do IVA, na restauração, na electricidade, na água, no turismo… que deve ser atribuída aos municípios. Também carece de legislação regional. É um outro ponto que teremos de colocar em cima da mesa. Não são verbas por aí além. A AMRAM já recebeu informação da parte da Direcção Geral das Autarquias Locais, de qual é a estimativa da verba a receber no próximo ano, de acordo com o regulamento. Penso que se juntarmos todos os municípios, nem sequer chegará a um milhão de euros. No caso da Ribeira Brava, cabem-nos setenta e tal mil euros. O Funchal deverá receber acima de meio milhão, seiscentos mil… É conforme a dimensão dos municípios.

FN – Mas de qualquer maneira, dadas as limitações orçamentais da AMRAM, sempre ajuda…

– Sim, vem ajudar-nos. O dinheiro vai-nos servir para pequenas obras, para resolver pequenos problemas das nossas populações. Além das duas situações já descritas, e sobre as quais teremos de trabalhar com o GR, há uma outra preocupação, na qual a AMRAM já deu passos largos, a causa animal.

FN – Refere-se ao projecto dos canis e gatis intermunicipais? Defendeu um para a zona Oeste e outro para a zona Leste da ilha…

– Exacto. A AMRAM já começou com um projecto a nível da esterilização dos animais errantes. As pessoas às vezes não têm a noção disto, mas a AMRAM, nesta causa da esterilização dos animais, tem atribuída uma verba acima dos 600 mil euros. Tem sido uma mais valia para os vários municípios. No fundo, é uma poupança que o próprio município tem. Obviamente, quando se vai fazer uma contratualização, quando se definem as coisas num “bolo” maior, os preços são sempre mais baixos. Pelo que há aqui uma poupança para os municípios, sendo que cada um deles sabe quantas esterilizações tem direito. Anteriormente, foi pedido a cada autarquia que estabelecesse um nível. Estamos no terreno com essa segunda fase de esterilizações. 300 mil euros já estão executados, e prevemos ir agora mais além, com mais 340 mil. Estamos a falar em cerca de 7700 esterilizações, com a vacinação anti-rábica e a identificação electrónica. A causa animal é algo que preocupa cada município. Uma terra turística como a nossa tem de prestar atenção a este aspecto. Houve um crédito a nível nacional para a construção de canis, e a Madeira não teve direito ao mesmo. Havia condições especiais para a construção de canis ou gatis… Isto para nós é importante, dada a relevância do turismo. Um visitante estrangeiro encontrar animais abandonados dá uma má imagem. Esta situação está atribuída aos municípios, mas devia ser uma verdadeira causa regional.

FN – A questão animal é um assunto muito antigo ao qual só recentemente se começou a dar mais atenção…

– Houve a necessidade de regulamentar [a situação dos animais domésticos] Temos gastado muito dinheiro com isto. Os municípios têm feito campanhas quase gratuitas com os animais. Há muitas pessoas que tinham o animal de companhia, o cãozinho e o gatinho, e agora para ter um animal destes é preciso estar vacinado e identificado, para cumprir a legislação…  Os municípios têm feito estas campanhas, de identificação e vacinação. Mas achámos que devíamos tentar, via AMRAM, criar um canil/gatil ou centro de recolha, um na zona Oeste e outro na zona Leste, complementando o já existente no Funchal.

FN – E quando acha que isso poderá tornar-se uma realidade?

– Nós neste momento estamos a aguardar. A Ordem dos Veterinários está num processo eleitoral. Queremos reunir com o novo presidente da Ordem. Já fizemos um contacto com o actual presidente. O objectivo é saber o que eles aconselham, o que acham que é preferível fazer, ou o canil/gatil ou grandes centros de recolha. Já que estamos a investir, que seja uma situação que as pessoas da área entendam ser mais adequado. O investimento que tem sido feito na Madeira, a nível de esterilizações, fará com que a população de animais errantes comece necessariamente a diminuir, havendo menos reprodução… 7700 esterilizações, é muito cão e muito gato… Esta não é uma daquelas situações que se resolve com o carregar de um botão; obtêm-se lentamente resultados, vai-se resolvendo ao longo do tempo. Outra das causas que nos tem preocupado, e para a qual a AMRAM também avançou com um projecto que está no terreno e envolve dez câmaras da Região, relaciona-se com o regulamento da protecção de dados. Saiu regulamentação, as câmaras tinham que regulamentar os seus municípios… Isto foi uma preocupação das onze câmaras, embora havia um município que tinha um regulamento já lançado e estava em vias de execução. A AMRAM fez, assim, uma contratação pública para os dez municípios. Como eu digo, o custo é sempre mais barato quando é “em bloco”… E assim, os técnicos vão aos vários municípios e criam os regulamentos próprios de acordo com as especificidades próprias de cada município. É uma grande ajuda, um projecto dos vários municípios.

FN – A que nível chega essa regulamentação de dados?

– Por exemplo, será preciso ter um responsável por município que seja um delegado, responsável pela protecção, os documentos que saem têm de passar por esse crivo…

FN – Isso tem sobretudo a ver com a documentação camarária…

– Sim, com a protecção de dados. Mas era preciso regulamentar. Ou cada município resolvia a sua questão, ou tratávamos na AMRAM. Assim sai mais barato, e os municípios não entram com a despesa nesta área. Também há já há muito tempo um projecto, e que temos também posto em relevo, em termos de inter-relação. Tem a ver com a formação. 90 por cento das formações que os funcionários municipais têm são feitas na AMRAM. A AMRAM faz uma candidatura a fundos comunitários e… por exemplo, para o próximo ano, está prevista a aplicação de 40 mil euros em formação, com funcionários, das várias áreas que as autarquias têm, quer a nível de contratação, quer a nível de fiscalização, atendimento, etc. Por exemplo, se eu quiser fazer uma formação de contratação pública na Ribeira Brava, eu tenho três ou quatro funcionários que lidam mais directamente com a área financeira… e não vamos estar a contratar um formador para dar formação a 3 ou 4 funcionários…. Quando se juntam os onze municípios, arranja-se uma sala com uns 20, 25 funcionários, e dá-se uma formação mais ampla. Isto é válido até para os próprios autarcas. Eu mesmo também já fiz formação na AMRAM, e colegas meus também já a fizeram, em temáticas importantes. Não há um curso para ser autarca, mas estamos constantemente a ser bombardeados com legislação nova, com novas exigências… E ver a apreciação que faz alguém que está mesmo dentro das áreas de regulamentação naturalmente ajuda-nos, pois não temos tempo para andar a passar as legislações todas a pente fino.

FN – Uma questão: como está neste momento consolidada a situação financeira da AMRAM?

– Nós não estamos para ir a crédito, pelo contrário. A AMRAM tem saldo, tem uma situação financeira estável. Obviamente tem algumas receitas. Uma delas tem a ver com a contribuição dos municípios, ao serem sócios da AMRAM. Outra é o Jogo Instantâneo, uma receita própria da Associação, uma das principais, e verdadeiramente essencial. Por ano, anda à volta de um lucro dos 250 mil euros. Mas, em termos financeiros, a AMRAM está bem de saúde.

FN – E não é possível à Associação ir buscar mais dinheiro a fundos europeus?

– A AMRAM tem sempre concorrido a fundos comunitários, na área da formação. Está agora a aguardar a abertura do quadro para concorrer. Temos também um programa que envolve os municípios das regiões ultraperiféricas, no âmbito do qual vamos buscar uma candidatura ao INTERREG. Tudo o que aparece, quando há projectos que possam ir a fundos comunitários, a AMRAM tem feito sempre isso.

FN – Como estão as relações da AMRAM com o Governo Regional?

– Eu ainda não reuni com o Governo. Houve esta eleição [de Ricardo Nascimento para presidente da AMRAM] que não estava prevista, e que foi consequência da saída do colega de Santana para o Governo [Teófilo Cunha]. Como tem uma ideia, logo que tomei posse, tivemos que tratar do orçamento para o próximo ano. Como os municípios, a AMRAM tem de ter o orçamento aprovado para submeter à Assembleia Intermunicipal até ao fim de Outubro. A reunião que eu tive com o executivo teve precisamente a ver com algumas questões práticas da gestão da AMRAM. Portanto, ainda não reuni. Já tenho algumas ideias em mente, para falar com o Governo Regional. Para já, vou apresentar cumprimentos, e também levar algumas preocupações, que ainda vamos discutir na próxima reunião do executivo. Duas delas, essenciais, já as referi: a descentralização das competências e a questão do IVA, que carece de um esforço, quer do Governo, quer da Assembleia Legislativa Regional.

FN – O seu processo de eleição recente para a Associação de Municípios foi um pouco tumultuado. O seu homólogo Pedro Coelho [edil camaralobense] estava à espera de ganhar… Houve ali uma situação desconfortável para ele e que inclusive o levou a demitir-se dos Autarcas Social-Democratas. Como estão neste momento as suas relações com Pedro Coelho?

– Fiquei de ligar-lhe esta semana. Tenho um assunto para falar com ele.

FN – Ele mantém-se no executivo…

– Sim, ele está no executivo da AMRAM. Veja, o que se passou com o executivo da AMRAM foi muito simples…

FN – Houve uma certa fricção, digamos…

– Se houve fricção, não foi com o executivo da AMRAM… Eu não tenho nada a ver com as questões internas partidárias. Houve a reunião para propor a eleição de um novo presidente, fruto de que Santana não queria continuar com a presidência. Eu disse assim: se quiserem votar em mim, estou disponível. E falei em algumas linhas programáticas. Com o novo Governo Regional, é a altura de falar em algumas situações, que já antes referi. As pessoas optaram por apoiar o presidente da Câmara da Ribeira Brava para liderar a AMRAM. Foi um processo normal. Eu nunca me preocupei com quem votou em A ou em B. A comunicação social andou para aí a especular, que um votou neste lado, outro votou noutro… O voto foi secreto, como a lei indica. Tanto eu como o Pedro, dissemos que independentemente do resultado, vamos trabalhar na mesma pela AMRAM.

FN – Eventualmente, houve pessoas que se reviram mais no seu posicionamento do que no de Pedro Coelho.

– Sim, mas não vou estar a pensar nisso… Já houve a eleição, agora é altura de andar para a frente.

FN – O senhor já disse que, na hipótese de uma recandidatura à Câmara Municipal da Ribeira Brava, não o faria por um partido. Dá-me a ideia que o facto de se ter anteriormente candidato por um movimento de cidadania, o leva a crer que isso lhe dá mais margem de manobra do que se estivesse espartilhado pela disciplina partidária.

– As pessoas sabem perfeitamente que a minha simpatia pelo Partido Social-Democrata foi sempre patente. Independentemente de não terem apostado em mim em 2017, há coisas que fazem parte da pessoa… Agora, é assim: em 2017 eu falei com pessoas que me são muito próximas, e decidimos avançar como um movimento independente. Ganhámos as eleições, estamos a fazer um mandato, estamos com uma dinâmica camarária especial… e que também não conseguimos atingir no mandato passado porque não havia verbas, tínhamos uma situação financeira complicada. Tentámos fazer algumas coisas, ter projectos muito mais simples, porque não havia margem financeira, os fundos comunitários não existiam… Haviam muitas situações que estavam vedadas. Neste momento, estamos a trabalhar bem, estamos aí com projectos engraçados. Esta câmara nunca foi tão social. A nível da educação nunca fizemos tanto investimento nas famílias, para ajudar aqueles que optaram por ter filhos e apostam na formação deles… Isto é o crescimento da Ribeira Brava. Temos também alguns investimentos fixos, de pequenas obras… Ainda há dias fomos pavimentar uma estrada cem por cento camarária, com o custo de 70 ou 80 mil euros, algo que já há muito tempo as pessoas estavam a pedir… E temos feito coisas, abrangido várias áreas. O nosso orçamento é muito simples. 50% é investimento fixo, e os 50% são despesas correntes, incluindo as medidas de apoio às famílias. Acho que o trabalho do movimento está a ser positivo. Se me perguntar se me vou recandidatar, respondo que não sei, ainda tenho dois anos de mandato. Temos muita coisa por cumprir. Agora, se eu me candidatar, vou-me candidatar pelo movimento, porque é por ele que estou cá. Não fazia qualquer sentido estar a avançar por partidos. Se avancei por um partido, as coisas correram mal – correram mal, entre aspas … Faz mais sentido avançar pelo movimento, enquanto as pessoas quiserem que estejamos cá. Isso é ponto assente. Por partidos, está fora de questão.

FN – Mas o senhor também captou, digamos assim, na altura em que se candidatou, e penso que também continua a captar um bocado isso, a ideia de uma nova tendência que se faz sentir na sociedade portuguesa, que é um certo cansaço com os partidos tradicionais e com o seu “modus operandi”, que por vezes decepcionam por processos internos draconianos, que culminam inclusive com expulsões de militantes. As pessoas estão um bocado cansadas dos partidos e vêem com bons olhos movimentos políticos de cidadãos.

– Sim, e na Ribeira Brava está a resultar. Agora, houve aí umas pessoas que pensaram, quando me candidatei pelo movimento, que ia estar de costas voltadas para o Governo Regional. Isso não seria racional. A Ribeira Brava tomou uma decisão. Mas nós sozinhos não somos nada. Temos de estar relacionados com toda a gente. Nestes dois anos de mandato temos tido um grande apoio do Governo Regional com situações que estavam para resolver na Ribeira Brava há muitos anos, e que neste momento estão a ser postas no terreno. Estou também consciente de que, quando fui eleito pelo PSD, havia problemas financeiros que eventualmente não tornaram possível que fôssemos ajudados como temos vindo a ser nestes últimos dois anos. Isto é uma ilha tão pequena. Temos aqui meia dúzia de metros quadrados. Porque é que vamos estar de costas voltadas? Não.

FN – Geram-se por vezes antagonismos dispensáveis.

– Obviamente. Talvez haja pessoas que não gostam disto, mas é a minha forma de trabalhar. Raramente vou para a comunicação social dizer mal de A, B ou C. As coisas, quando é para dizer, é nos devidos sítios e acabou-se. Não vou estar para fora a lavar em A, B ou C. Não trabalho assim. Não era essa a minha forma de trabalhar já quando fui eleito pelo PSD, nem foi quando eleito agora pelo movimento. Temos situações com o Governo Regional, que queremos ver resolvidas, outras estão a sê-lo, e vamos para a frente e levar a Ribeira Brava para a frente, pois foi para isso que nos colocaram aqui, para a colocarmos sempre em primeiro lugar.

FN – A sua situação é mais confortável do que a de outros autarcas que se situam na oposição e que se queixam de um tratamento discriminatório por parte do Governo. Não está espartilhado por disciplinas partidárias, assume uma simpatia pelo PSD, mas prefere a diplomacia…

– Eu tenho simpatia mas, oiça, neste momento estou desvinculado de qualquer partido. Não vou estar aqui a defender nem partido A, nem partido B. Mas o que é positivo que tem sido feito na Ribeira Brava, isso tenho que elogiar e enaltecer. Tenho lutado pela localidade.

FN – Algo que tem afectado vários municípios aqui na Madeira, e que tem sido extensamente discutido, têm sido as grandes perdas de água em vários municípios da RAM, que atingem percentagens altamente preocupantes. Isto exige obviamente uma intervenção governamental. Qual é a sua perspectiva relativamente a esta matéria?

– A questão das águas é uma questão municipal. No caso da Ribeira Brava, este é um dos municípios que aderiu à Águas e Resíduos da Madeira.

FN – Há quem se queixe de tratamento discriminatório a quem não aderiu.

– A AMRAM esteve a desenvolver um projecto, por causa das perdas de água, de municípios que não estavam associados à ARM, para ir a fundos comunitários. O projecto foi rejeitado pelo facto de os municípios não terem o cadastro actualizado das redes. Há colegas que não concordam comigo. Mas eu acho que foi uma boa opção o município ter entrado na ARM. As perdas de água são consideráveis. E não sei como é que se vai tratar disto. Não é só chegar e fazer. Nos executivos em que estive, nós já estávamos na ARM. Mas, por exemplo, em 2009, 2010 e julgo que em 2011, a Ribeira Brava fez um grande investimento a nível de redes de água. Tínhamos zonas em que a rede de água era quase praticamente nova. Não se pode desprezar as redes, tem de se estar constantemente a fazer manutenção. Neste momento, com a situação como está, considero que esta não é uma questão de o Governo ajuda, ou não ajuda… Eu começo a pensar que esta poderá ser mesmo uma questão da nossa sobrevivência no futuro. É um assunto grave. Este ano, é um exemplo disso. A Ribeira Brava teve este ano talvez dois ou três dias de chuva decente. Temos pessoas que já há vários meses não têm água potável na rede durante a noite, em certas zonas, porque não há. A ARM está a levar água com camiões lá para cima, para que ao menos durante o dia as pessoas tenham água potável nas suas torneiras. E há outra questão. Acho que a agricultura tem que mudar o paradigma. A rega por alagamento não é para esta fase, com a falta de água que se verifica, porque o desperdício é muito grande. E há muito agricultor que continua a usar a rega por alagamento. O que os ambientalistas nos dizem é que o futuro que se aproxima será caracterizado por muita seca, alternada com períodos de muita chuva. Os outros municípios que não estão na ARM, queixam-se, mas não sei do relacionamento que têm tido com o Governo Regional sobre essas situações.

FN – As perdas na rede são muito significativas.

– Não quero ser preciso, mas no caso da própria ARM, situam-se perto dos 40 por cento.

FN – Relativamente à Ribeira Brava: houve um período em que muita gente se queixou da situação do comércio, que a Ribeira Brava tinha deixado de ser um ponto de paragem para se tornar apenas uma zona de passagem… Neste momento a situação está mais equilibrada?

– Eu vejo mais pessoas a visitarem a Ribeira Brava. A passarem aqui no domingo de manhã, mesmo no domingo à tarde… A passar cá nas manhãs durante a semana… Nota-se uma grande afluência de pessoas. Em termos de dinamização do concelho, andamos com despesas significativas em termos de eventos, em várias localidades, acima dos 700 mil euros anuais. Mas há uma questão. Não posso generalizar, mas os próprios estabelecimentos têm, alguns, de melhorar a qualidade do serviço. Que há gente a visitar a Ribeira Brava, há. Que as pessoas já não têm dinheiro para gastar como antes, isso também é verdade. Uma situação que dificilmente voltaremos a ter é a movimentação que existia durante a semana nas estradas. Isto, devido à alteração na rede viária. As pessoas vinham para a costa norte ou para a costa oeste em autocarros cheios, que paravam na Ribeira Brava, 15, 20 minutos, às vezes meia hora. Isso ajudava o comércio. Agora, isso não se verifica, com as vias rápidas e a nova dinâmica da Madeira.

FN – Mas mencionou a questão da qualidade dos serviços, que tem gerado algumas críticas.

– O tipo de serviço às vezes tem de apostar também na qualidade. Mas temos atraído gente, com os vários eventos que temos feito. Com a questão do projecto “Brava Valley” temos malta nova que tem vindo trabalhar para a Ribeira Brava, e que acabam por sair e gastar algo aqui no comércio, vão tomar um café, não sei que mais. As facilidades que temos dado em termos de investimento, quer a nível do nosso regulamento de taxas, quer a nível dos projectos de interesse municipal… Captar investimento para o concelho, é captar movimento para o concelho. O negócio gera negócio. Até o facto de termos incentivado, com maior intensidade, os nossos pequenos agricultores virem expor os seus produtos no mercado ao domingo… Aquilo tem estado com uma dinâmica impressionante. Estas pequenas feiras têm sido uma mais valia. Por outro lado, a aposta que temos feito no desporto automóvel tem dado um dinamismo especial, não só cá em baixo mas a pequenos bares nas zonas altas que, se calhar, é naqueles dias que vendem mais. Isto é tudo uma questão de dinâmica, de publicidade que se multiplica… E obviamente, quanto melhor é o serviço, mais depressa as pessoas que passam por lá podem regressar. E há que ter a consciência disto. Por vezes, o serviço na Ribeira Brava não é o melhor.

FN – É professor. Quais são as suas preocupações culturais e educacionais para o concelho?

– A nível educacional, foi uma preocupação nossa central os casais que trabalham, tanto marido como mulher, e têm que pôr o filho na creche. Não se entende ter que andar a dispensar 200 euros mensais para ter a criança na creche para poder ir trabalhar, gerar impostos e dinamismo. Quando, em Janeiro do ano passado, tomámos a medida de apoiar em 25% os valores que se paga nas creches houve uma situação simultânea com o próprio Governo Regional, que também reduziu 40%. Quem tem filhos na creche está, portanto, menos preocupado com a despesa. Além disso, há a questão dos manuais do 1º Ciclo. Foi uma preocupação, tentámos ir à frente. Neste momento estamos com a entrega de manuais até ao 9º ano. Uns têm os manuais pela acção social, outros, agora no 5º ano, têm os manuais digitais que o Governo Regional está a assumir, nenhum pai tem despesas com manuais. Isto é uma grande ajuda, que retira aos pais uma grande pressão no arranque do ano escolar. Era muito difícil para quem tinha dois, três filhos. Estávamos preocupados com o esforço que as famílias faziam para ter os filhos na escola, e aí procurávamos bonificar, dar apoio. A nível da cultura, o que temos tentado fazer é criar diferentes eventos. Nos arraiais de São Pedro, há pormenores interessantes: são tipicamente à antiga. Nos últimos dois anos, voltámos a pôr os arcos que se usavam nos anos 60 nos arraiais. Temos as romagens, algo já de muito antigo, as marchas populares, que movimentamos com as Casas do Povo e que agora estão a bater recordes de ano para ano, com cerca de mil pessoas a desfilar na Ribeira Brava. Já foram organizadas, porque é importante conhecer os nossos antepassados, umas conversas sobre o visconde Herédia, um dos nossos co-fundadores, que não foi presidente da Câmara mas muito fez pela Ribeira Brava. O apoio que temos dado às Casas do Povo e associações tem sido muito significativo. Essa gente tem feito um trabalho impressionante a nível da cultura. A Banda Municipal, por exemplo: três quartos dela é constituída por gente jovem. Estamos a passar aqui entre gerações a cultura da animação das bandas. Há anos atrás, dizia-se que esta tradição iria acabar, que os jovens não ligam nada a isto. Mas não é o que se está a verificar. O que a Câmara faz é, essencialmente, embora movimente uma situação ou outra, deixar as associações locais a tratar das actividades culturais, com apoios. O ano passado atribuímos às associações do concelho uma verba na casa dos 230 mil euros. Este ano vamos reforçar com 250 mil, porque é um trabalho que se substitui à Câmara e que tem sido bastante positivo, englobando desde música a formações sobre artesanato. Estamos agora a fazer uma obra no edifício da antiga Junta de Freguesia de Campanário. Vamos convertê-lo na Loja do Artesão. Fizemos essa candidatura à ADRAM, aquilo é quase duzentos mil euros… Vamos gastar metade e receber a outra metade. Há já ali protocolos para dar formação sobre artesanato, fazer exposições para atrair o turismo. Queremos fazer sempre mais. Mas também temos que ter consciência das nossas limitações.

FN – Quer acrescentar mais alguma coisa que ache pertinente?

– Aproxima-se o Natal e gostava simplesmente de deixar umas palavras aos ribeirabravenses, os votos de um Feliz Natal e que aproveitem para pôr a conversa em dia com os seus familiares e amigos mais próximos, fugindo à correria do dia-a-dia.