Tem sido notícia, nos últimos dias, o caso do general Carlos Perestrelo, que se viu de repente no centro das atenções dos media nacionais, por causa de uma situação caricata: o disparo de munições de pólvora seca num canhão, no âmbito da presença militar em duas edições de torneios de golfe no Santo da Serra.
O Funchal Notícias procurou auscultar a sensibilidade de oficiais no activo e na reserva e, se bem que não identificando nenhum deles para não os prejudicar, formou uma opinião que vai ao encontro da nossa.
Disse-nos um oficial que já teve responsabilidades de destaque na RAM que também é golfista e a última coisa que desejaria, entre a calma dos campos verdes, seria ver/ouvir canhões a disparar e militares a tocar clarim. Mas por outro lado, considerou ridículo que as críticas ao general Carlos Perestrelo pelo acontecido, que nem sequer é recente, tenham recebido tanta condenação do Estado Maior General das Forças Armadas, que inclusive já exonerou Carlos Perestrelo do cargo de Comandante Operacional da Madeira, substituindo-o pelo contra-almirante Dores Aresta (que já tinha estado na Madeira em Maio aquando do exercício internacional de forças especiais SOFEC 2019).
Carlos Perestrelo permanece como comandante da Zona Militar da Madeira, mas na prática “vê as suas competências esvaziadas” e fica numa posição impossível, quando o Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, almirante Silva Ribeiro, “dá ordem a Dores Aresta para se meter num avião e vir para a Madeira”. A coexistência entre ambos, no mínimo, seria difícil, e Dores Aresta, ele mesmo, ver-se-ia sem dúvida numa situação desconfortável. [Entretanto, enquanto escrevíamos este artigo, confirmou-se a exoneração de Carlos Perestrelo de comandante da ZMM].
Não falta mesmo quem veja nesta situação a sombra de “lutas intestinas” entre a Marinha e o Exército, com um pretexto ao qual se está a dar uma importância totalmente absurda.
O torneio de golfe era da Zona Militar da Madeira, em parceria com o Clube de Golfe do Santo da Serra. No torneio mais recente, em Abril deste ano, além de Carlos Perestrelo, estiveram como golfistas o antigo comandante militar da Madeira, general Marco Serronha e o general Rocha Vieira, com extenso currículo. A nenhum deles terá causado escândalo o disparo dos obuses de pólvora seca, em canhões que já estão fora do activo. O acto de “puxar o cordão”, como o descrevem militares de artilharia, por um civil, como tanto tem sido criticado, nada tem de extraordinário nem de ilegalidade, antes sendo uma honra que em certos casos pode ser conferida a um civil, sem que daí venha mal ao mundo.
As notícias que inicialmente foram avançadas pelo DN-Madeira (sem nada que nisso contrariemos) multiplicaram-se porém pelo todo nacional com uma velocidade extraordinária, sendo noticiadas desde o Expresso ao Correio da Manhã, para não falar nas reacções que causaram nas redes sociais.
Ora, esta reacção à posteriori em relação a acontecimentos que já se passaram no ano passado e mais recentemente, há meses é completamente desproporcional e inusitada, referiram os militares por nós contactados. Mesmo que discordem do transporte dos canhões até ao Santo da Serra e ao golfe, não vêm nessa atitude mais do que o desejo de divulgar a instituição militar por todos os meios. Algo que o general Carlos Perestrelo se tem esforçado por fazer desde que chegou à Madeira.
Recordem-se, para refrescar memórias, iniciativas como o “Alista-te por um dia”, que tem levado alunos das escolas ao convívio com a as forças armadas e os valores que defendem; as múltiplas presenças de páraquedistas na Região, inclusive o grupo de saltadores de elite “Falcões Negros”, em iniciativas como torneios de páraquedismo de precisão, com aterragens na Praça do Povo e na Praça do Município; e os saltos “tandem” realizados pela primeira vez na Madeira (em que um elemento não treinado em páraquedismo militar salta auxiliado por um militar experiente). Para não falar de iniciativas como baptismos de voo a alunos de escolas da RAM.
Recorde-se também o aprontamento do contingente militar constituído quase todo por madeirenses, no RG3, e que serviu no Iraque juntamente com forças espanholas, ministrando treino de tiro às forças militares e de segurança iraquianas. E a visita que o general Carlos Perestrelo realizou a esse mesmo contingente, “in loco”.
Tudo isto de repente nada vale porque Carlos Perestrelo autorizou que um civil disparasse na abertura de um torneio de golfe militar uma munição de pólvora seca? De repente esta situação parece ter a dimensão do caso das armas de Tancos?
A situação causa perplexidade a muitos, militares e não militares, que recordam não só tudo o que Carlos Perestrelo fez para divulgar as forças armadas, como o empenhamento do general nas boas relações com as mais diferentes entidades na Madeira, desde governamentais e institucionais até pequenas associações de cariz artístico e à comunicação social.
Não falta quem veja nisto contornos de linchamento, por um lado, e de fenómeno de “bolha mediática”, por outro. Algo que tão depressa surge, a partir de algo relativamente insignificante, mas causa extensos danos a reputações, e que entretanto se extingue, mas deixando um rasto de destruição à passagem. Destruição na carreira de um general que, além do bom trato geral com as pessoas, é um militar com um longo e singular percurso, oriundo da arma de Infantaria, preparado em cursos de forças especiais como páraquedistas e Rangers.
Entretanto, e pela primeira vez, a Madeira tem um comandante operacional oriundo da arma da Marinha. Algo que não é, nem nunca foi, tradição na RAM. E, eventualmente, cujo protagonista, dadas as circunstâncias em que vê obrigado a assumir o cargo, provavelmente terá feito até de forma relutante… especulamos nós.
Que toda a situação é ridícula, afigura-se-nos que sim. Mas não pelas razões que parecem imediatamente evidentes.
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