Joel Serrão: historiador e pedagogo madeirense ilustre homenageado em mostra na Biblioteca Nacional

Foto Nelson Veríssimo

Uma exposição patente na Biblioteca Nacional assinala o centenário do nascimento de um ilustre madeirense: o historiador Joel Serrão. Nascido na freguesia de Santo António, Funchal, a 12 de Dezembro de 1919, Joel Serrão faleceu em Sesimbra no dia 5 de Março de 2008. Trata-se de uma personalidade que ficou indelevelmente ligada ao panorama histórico-cultural português, com contribuições de altíssima qualidade. Leccionou no Liceu do Funchal, mas também nos de Viseu, Setúbal e Lisboa. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, manteve-se durante a sua vida académica ligado a grupos com tendências anti-fascistas; mais tarde docente do Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi também director do Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA) na Madeira, e integrou o Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian. Também ensinou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Desde 16 de Setembro que está patente ao público na capital portuguesa esta mostra que pode ser visitada até 16 de Novembro.

É comissariada por José Guedes de Sousa e apresenta o acervo do investigador e escritor, fortemente influenciado por António Sérgio. Homem multifacetado, desde a filosofia à literatura, cultivou sempre uma plêiade de interesses, afirmando-se sobretudo na historiografia, em obras como o incontornável Dicionário de História de Portugal, que orientou durante uma década. Debruçou-se sobre momentos-chave da História lusa, como a revolução de 1383-1385 ou a a Restauração da Independência em 1640.

“Logo no início dos anos 1950 delineia um programa metodológico e de pesquisas que o irão ocupar nas décadas seguintes. Influenciado pelos Annales (Lucien Febvre, sobretudo), pretendia trazer valores e práticas da investigação científica para uma época ainda em grande medida desconhecida. Uma tarefa hercúlea de desbravamento das mais variadas perspectivas da sociedade oitocentista portuguesa, traduzida em estudos, ensaios, sondagens, hipóteses, revelação de fontes inéditas”, descreveu a propósito José Guedes de Sousa.

Fotografias de Joel Serrão, da autoria de Eduardo Gageiro, patentes na exposição em Lisboa.

Na folha de sala da exposição Joel Serrão (1919-2008), refere o comissário da mostra: “Se no regime democrático não se interessou pela intervenção política e partidária, tal não implicou desvalorização da dimensão cívica do historiador, assumida desde o início, com referências a Herculano, Oliveira Martins, Jaime Cortesão e António Sérgio nas suas reflexões sobre as funções sociais da história. Dimensão necessária mas problemática, como experienciou polemicamente em torno de conflituantes perspectivas sobre o percurso de Antero e de Quental. E não revelavam alguns dos temas de investigação que privilegiou – industrialização, emigração, burguesia, sebastianismo, entre outros – um poliédrico questionamento do que entendia serem os problemas estruturais da sociedade portuguesa e da sua longa adaptação aos desafios da modernidade? A especialização em torno do século XIX não significou rejeição de uma visão conjunta do passado pátrio, nem de uma equação de história também a partir do presente. O passado não era uma lição do presente; o presente é que é lição do passado, como muitas vezes referia, citando Sampaio Bruno”.