A Ponta Delgada de ontem e a Ponta Delgada de hoje

Nos anos 50, Horácio Bento de Gouveia escreveu no Almanaque da Madeira,um artigo cujo título era ” O Funchal de ontem e o Funchal de hoje “.
Esse título tão sugestivo levou-me a escrever sobre a Ponta Delgada – São Vicente, recreando o passado longínquo da freguesia, como era na minha meninice e adolescência, e a Ponta Delgada dos nossos dias.
Dessa freguesia tão amada de meu pai, pouco ou nada resta; as pessoas desapareceram, outras mudaram-se e os hábitos também.
Lembro-me que perto da nossa casa, na  cruz do caminho o Ladrilho, havia uma casa modesta-rés-do chão e 1º andar -com uma grande fazenda e era ali que trabalhava um sapateiro ,conhecido pelo Manuel Gato, colega que fora de meu pai na escola primária do velho professor Brito.Era ali que vivia com  a velha Eduardinha, sua mãe, uma velhinha com cabelo cor de cenoura,sempre de preto, carregando um molho de feno para a vaquinha,descendo a nossa rua diariamente. Apesar da falta de dentes, andava sempre sorridente e por vezes entrava pela porta da cozinha para com minha avó dar dois dedos de conversa. Mais tarde vim a descobrir que tinha uma neta da  minha idade com quem nas férias vinha brincar comigo e fazíamos jantarinhos no quintal.
No Açougue havia um talho que todas as semanas matava um bezerro e havia carne; os pescadores da terra, depois de cuidar da fazenda iam para o mar e, à tardinha, lá regressavam eles trazendo cambolhadas de peixe fresquinho,como castanhetas, bodiões, chicharros, polvo, etc. , que vendiam aos senhores abastados; por vezes traziam também marisco, lapas, lagosta das furnas do calhau e esse “perfume ” do mar é ainda uma recordação.
Padaria também havia, embora na maioria das casas se amassasse com frequência, e a  azenha junto ao Engenho da Fonte-pertença que foi da família-todos os dias trabalhava moendo alqueires de milho, trigo cujo farelo era usado para o que hoje chamamos de pão integral; a moleira, a Maria Adelaide,só tinha um ou dois dentes e tapava a boca quando se ria Essas mulheres de antigamente andavam sempre envoltas em xailes negros e,quando vinham à missa lá de cima das Lombadas (não havia ainda outra igreja), de Inverno pareciam sombras negras. Só depois da 2ª Guerra Mundial, quando começaram a chegar da América grandes sacos com leite em pó enlatado,manteiga e roupas, muitas  roupas e sapatos, é que a gente da aldeia começou a vestir casacos e sapatos, pois a maioria dos pobres andava descalço e só aos domingos vestiam o fato surrado do casamento. Havia muita pobreza e a colonia imperava.
Não havia agências bancárias e os que tinham embarcados, passaram a mandar as primeiras economias às famílias pelo  correio o qual ficava situado numa casa no sítio dos Enxurros e onde o horário, vindo diariamente do Funchal, parava para as pessoas saírem e descarregarem as mercadorias. Uma escada de pedra em caracol levava-nos ao 1 º andar
onde a funcionária de bata cinzenta, a menina Beatriz, recebia na sua maioria correio, a distribuir pelas pessoas e lia em voz alta essa correspondência para os que não sabiam ler. O silêncio era completo, pois quase todos queriam ouvir o seu nome, erguendo o braço e esperando as notícias (lembrava uma descrição de Júlio Dinis). Por vezes iam comprar selos e quando não tinham com que pagar levavam ovos em troca.
Não havia atropelos e, de Inverno à noitinha, os jovens  quase todos familiares aí nos juntávamos debaixo dos plátanos no que é hoje o pequeno jardim, onde está o busto de meu pai, para rirmos, conversarmos e gritar sempre que os morcegos nos surpreendiam e assustavam; não havia ainda nem luz nem água instaladas. Era esta a Ponta Delgada de ontem!
Hoje tudo é diferente: o correio esteve para fechar, a padaria desapareceu, assim como Açougue e a azenha completamente destruída. Houve um banco durante uns anos, hoje há só um Multibanco, uma Farmácia e um Centro de Saúde e ambos fecham ao domingo; tudo vem de fora, há poucas vendas, do médico, apenas existe a casa há mais de 50 anos, a paz é constantemente quebrada pela velocidade louca dos carros que fazem da estrada regional , que passa à nossa porta, uma pista, já não veem das Lombadas as mulheres de xailes negros, o peixe vem em carrinhas do Funchal, os plátanos do Açougue mandados plantar pelo meu bisavô Norberto António de Ornellas Jr., foram “decapitados” por um vendeiro para fazer uma esplanada, dois ou três cafés servem, nas esplanadas e interior, bebidas e sandes, bicicletas e automóveis abundam: que saudades da outra freguesia em que quase todos nos conhecíamos e os familiares tinham as melhores casa, dessas famílias antigas há apenas meia dúzia, uns partiram e não voltaram para a freguesia, outros morreram, as novas moradias dos emigrantes pululam por todo o lado, mas os jovens são poucos e os idosos são mais …é a saudade.
Hoje,  turistas de todas as nacionalidades percorrem os caminhos e alojam-se nas casas de Turismo rural, nos hotéis, e alguns acabam por sitiar-se na freguesia; Ponta Delgada tem uma situação privilegiada, mar e serra, um excelente Lar de Idosos e,como dizia um querido parente meu, o Dr. Henrique de Freitas, é uma Vila agradável, onde nos sentimos bem: é a “Corte do Norte”, fixada no livro da grande amiga e escritora Agustina Bessa-Luís.


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