Vale tudo…

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnLembro-me bem, como de resto muitos se lembram, de brincadeiras de juventude e de frases que ficaram, para sempre, gravadas na memória de todos nós, de uma determinada geração, mas que acabaram por ser transversais a outras gerações. Uma dessas frases, simples mas reveladora de um certo posicionamento aplicável em diferentes situações, estava relacionada, à época dessas diatribes de uma adolescência de certo modo anárquica, como costuma ser, ao futebol dos intervalos e dos “feriados” que os professores davam e que, não raras vezes, chegava a ser uma festa como uma grande nota de exame. Íamos para os campos da escola das Mercês, do Liceu ou da Escola Industrial, hoje Francisco Franco, só para darmos alguns exemplos no Funchal, mas sendo igual no resto da ilha e talvez no País.

O dono da bola jogava sempre. Quando não tinha, comprava na mercearia mais próxima, aquela bola de plástico riscada de vermelho ou azul, algumas vezes rebentando ao primeiro pontapé mais entusiasmado, outras vezes acabando num terreno de bananeiras quando o vento se encarregava de dar um caminho diferente que não a baliza. Belos tempos em que os “pontapés” custavam pouco.

Aquele “dono da bola” comprava e para jogar era ele e mais quatro. No futebol de cinco, está bom de ver. Jogava sempre, normalmente à baliza porque, naquele tempo, talvez ainda hoje, quem jogava à baliza era o que tinha menos habilidade com os pés.

E depois apareciam as regras do “vale tudo menos tirar olhos”. Todos já sabiam o que isso significava, as consequências representavam “ossos do ofício” de bem brincar ao futebol e às nódoas negras, que de vez em quando degeneravam num pé ou num braço partido, como se dizia entre pequenos para expressar o que é correto dizer, de forma mais pomposa, a fratura.

Com o tempo, fomos à descoberta do conhecimento e do mundo para chegarmos rapidamente à conclusão que há muitos donos da bola por aí e que, também em campos distintos, a regra mantém-se no vale tudo menos tirar olhos. No resto, tirar olhos à parte, já chegámos lá. As bolas já não se compram nas mercearias, guardam-se em casa, são mais passadas de geração em geração, são das boas dizem eles, não furam ao primeiro pontapé, duram tempo e o vento já não consegue transportá-las para muito longe do objetivo, ficam ali por perto naquele jogo de equipa, onde uns são sempre titulares e outros são sempre suplentes. E depois, há os outros que estão sempre de fora. Vale tudo, até isso.

Chegámos, por isso, num quadro de sentido figurado, ao ano do vale tudo. Sim, pode parecer que não, embora já poucos tenham dúvidas que sim. Estamos em 2019 e este é já o ano do tudo ou nada em termos da vida política, económica e social da Região, podemos mesmo dizer que já estamos a atravessar uma fase do “vale tudo menos tirar olhos”, a avaliar pelo que se vê. O conceito é o mesmo da nossa adolescência, mas a sua aplicação e os objetivos é que são muito mais sofisticados e diferentes do jogo da bola. O que se pretende alcançar, claro, não tem nada a ver. Esta brincadeira custa muito mais caro do que uma bola de plástico, cujo preço já nem me lembro de tanto tempo passado no tempo distante dessa brincadeira de jovem.

Não há forma de dar a volta à situação, todos os envolvidos neste ano de três eleições, uma delas já lá foi, mas duas importantíssimas estão para vir depois das férias de verão, sabem que 2019 vai decidir muito das vidas nacional e regional para os próximos anos, mas não só para os quatro anos de mandato, é para muito mais, o que for decidido em setembro e outubro vai pesar muito na próxima década, independentemente das escolhas que os eleitores venham a fazer. Os eleitores votantes conscientes, em menor número, os outros votantes inconscientes, que tantas vezes decidem vencedores e vencidos como se estivessem de olhos fechados, mas também os outros, ainda, cuja inconsciência está na decisão por omissão, os abstencionistas, acrescentando valor negativo à democracia e fazendo proliferar políticos do momento, que mais parecem aquela bola de plástico da adolescência, que “desaparece” ao primeiro “pontapé” mais ou menos empenhado.

Acontece que este “vale tudo menos tirar olhos”, transposto para o campo da política, e num quadro em que houve uma inversão do posicionamento dos poderes, com o económico a assumir claramente a liderança de uma hierarquização perigosa na sociedade, custa muito dinheiro, há valores envolvidos neste novo processo de “jogo de adultos”, que vão muito além do “dois muda, quatro ganha” do futebol dos tempos de escola ou mesmo do “meio pão com molho” do futebol que antigamente se praticava nos clubes e onde o Agostinho, grande homem do Marítimo e do Almirante Reis, que descobriu muitos miúdos com aptidão para o jogo, mandava os seus pupilos correrem meia hora de um lado a outro do campo. Depois, vão tomar banho, dizia, ainda tenho aquela imagem (no pouco tempo de contacto, porque não tinha futuro para aquilo), expressivamente rude de um homem simples, naturalmente simples, mas que era assim, era o que se via.

Hoje, perante esta “corrida” desenfreada de um lado a outro da ilha, perante este “pão com molho” que vai custando os olhos da cara, com os “milhos fritos” todos escritos para quem quiser ver, naquela que passou a ser uma imoralidade legal, vamos tendo a sensação, de forma progressiva, que anda tudo preocupado com um lugar qualquer, estão conscientes que nestas eleições não está em jogo apenas o vencedor, mas também outras realidades que podem conduzir a protagonismos diferentes. Por isso, é o tudo ou nada também noutras frentes, uns porque sempre fizeram isso e outros porque viram nessa “receita” uma caminho para o sucesso, mesmo sabendo que não vai dar para todos. A mesma receita, os mesmos fundos, a mesma estratégia em que, por exemplo, conforme as conveniências de cada um, a “boa” informação leva algum, para não dizer muito, e a “má” informação não deixa de levar, de tal modo que quase somos forçados aos testes das páginas de passatempos, na rubrica “descubra as diferenças”. Fica difícil… é mais fácil dizer que a desinformação vem da internet.

No meio desta corrida eleitoral, de um lado a outro do “campo”, qual treino do Almirante Reis antigo, podemos antecipar que, no final, depois deste “exercício” intensivo, que cada contribuinte paga sem dar por isso e nem dá por isso depois de pagar, alguns ficarão com os louros de vitória e vão respirar de alívio pelos resultados dessas aplicações com o dinheiro do povo.

Os outros, investidores na mesma sem meter um cêntimo, mas perdedores, fazem como também acontece se continuarmos nesta dialética futebolística: vão “tomar banho” mais cedo. Para saber quem, só lá para finais de setembro.

Bom treino, boa sorte e dinheiro para gastos…