A Europa resistirá?

No passado dia 9 do mês em curso completaram-se 69 anos sobre a data em que o ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Robert Schuman, propôs a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, precursora do que hoje conhecemos como União Europeia. E estamos a escassos dias dos 427 milhões de eleitores europeus começarem a votar (entre 23 a 26 de Maio corrente) para eleger os 751 deputados ao hemiciclo de Bruxelas, numas eleições que os presidentes das 21 repúblicas da UE  (num total de 28 estados-membros), num texto publicado em vários jornais, classificam como de “especial importância”. Porque, sublinham, “a Europa é a melhor ideia que alguma vez tivemos”.

Longe vão os tempos em que o sonho de Schuman entusiasmava os cidadãos europeus. A prová-lo está a própria participação eleitoral que, sendo díspar, já conheceu melhores dias. E em que os portugueses também não têm fugido à regra – em 2014 (último acto eleitoral para o Parlamento Europeu), mais de 66 % dos eleitores inscritos ficaram em casa. E a avaliar pelas últimas sondagens não se antevêem grandes mudanças no próximo dia 26: segundo o Eurobarómetro, 61% dos portugueses inquiridos admitem que as europeias não lhe interessam e só 17 % (a terceira percentagem mais baixa de toda a UE) dizem ser elevada a probabilidade de irem votar.

As razões invocadas para esta manifesta indiferença são várias: desde a assumpção de que o seu voto (o de cada eleitor) não conta, a
desconfiança no sistema político e o desconhecimento do papel do parlamento europeu.

Uma indiferença preocupante se atendermos ao peso crescente das decisões, das directrizes europeias na política nacional.
Mas, para a qual contribuem negativamente os próprios partidos e políticos ao misturarem as questões nacionais com a campanha para as europeias, como se está a verificar, uma vez mais, com a campanha em
curso.
Mas, é também óbvio que esta indiferença pelos actos eleitorais está intimamente ligada à constatação por muitos cidadãos de que os seus problemas reais não são resolvidos, nem as suas carências e necessidades satisfeitas.

Num texto de opinião publicado no Portal Sapo 24, na passada 2.ª feira, dia 13 de Maio corrente, o jornalista Sena Santos cita o
economista francês Thomas Piketty, autor do livro “O capitalismo no século XXI”, que refere que “a Europa andava há muito a brincar com o fogo e tudo ficou em chamas com a péssima gestão da crise de 2008, a mais grave desde a II Grande Guerra; os dirigentes europeus focaram tudo na rápida redução do défice sem terem em conta que isso mataria o desenvolvimento, o que avivou o ressentimento das classes populares e levou a reacções irracionais à base de xenofobia e estigmatização”.

Sena Santos cita de novo Piketty, numa crónica no jornal francês “Le Monde”, em que admite que o mal europeu vem mais atrás: “Desde 1992, as classes populares na Europa estão a exprimir desacordo face às propostas de construção europeia, enquanto as classes mais ricas e mais favorecidas as apoiam”. E numa entrevista ao também francês “Libération”, Piketty explica  que nas classes populares está instalada a noção de que “o actual sistema mundializado beneficia quem tem melhores rendimentos e prejudica os outros”. Contas feitas Piketty conclui que as distorções da fiscalidade europeia penalizam as classes mais baixas.

Em resultado deste desencanto e consequente revolta emergiram os nacionalismos e as forças políticas populistas. Forças populistas essas que têm vindo a ocupar o espaço que, na sequência da II Guerra Mundial, era hegemonizado por forças políticas mais conservadoras, integrantes do partido Popular Europeu e pelos socialistas e democratas, de centro-esquerda do S&D.

Numa análise publicada na edição do jornal “Público” do pretérito dia 9 de Maio, a jornalista Teresa de Sousa evidenciou como essa ocupação foi ocorrendo sem que as instituições europeias e as forças políticas tradicionais tivessem reagido, face a essa nova realidade que se vinha impondo no panorama europeu. A comprová-lo Teresa de Sousa reproduz uma frase escrita no jornal britânico The Guardian de 25 de Maio de 2014, quando se conheceram os resultados das eleições para o Parlamento Europeu realizadas há 5 anos: ”Quase um terço do novo Parlamento Europeu, com uma nova espécie de políticos que vai dos fascistas gregos aos nacionalistas suecos, aos separatistas flamengos, aos novos esquerdistas de Espanha, será de um modo geral anti-europeia e contra a União Europeia”. Nessa altura, recorde-se, Nigel Farage, então líder do UKIP (hoje, criou um partido novo, o Brexit Party) venceu as eleições e os conservadores do primeiro-ministro David Cameron ficaram em terceiro lugar. Em França, a Frente Nacional de Marine Le Pen venceu as eleições com 25% e o PS francês com Hollande no Eliseu e uma sólida maioria na Assembleia Nacional ficou-se pelos 14%. Na Grécia, o Pasok praticamente desapareceu e na Dinamarca, o Partido Popular Dinamarquês, que empunhava a bandeira contra os imigrantes, venceu as eleições.

O já citado The Guardian descreve a reacção dos governos europeus deste modo: “A tentativa (dos governos) foi minimizar o impacte. A nova classe política foi descrita como barulhenta, rude, extremista, dividida e incapaz de se manter unida para prosseguir um caminho anti-europeu”. E acrescentava que a receita proposta “deve ser uma grande coligação idêntica à que funciona em Berlim entre democratas-cristãos e sociais-democratas, ignorando os sinais e impulsionando a sua agenda de ‘mais Europa’”.

Ora, na altura, somados, os dois grandes grupos políticos do PE – PPE, de centro direita, e Socialistas e Democratas, de centro-esquerda – mal chegavam aos 53%. Tinham obtido 61% em 2009. Em Espanha, os dois grandes partidos políticos – PP e PSOE – arrecadaram juntos 80% dos votos em 2009. Em 2014, ficaram ligeiramente acima dos 50%.

Face a uma crise que começou por ser financeira e que depois se tornou económica e social, partidos houve que, incapazes de as enfrentar e de lhes pôr cobro, decidiram empunhar algumas das bandeiras da extrema-direita e dos populistas, convictos de que dessa forma lhes retirariam peso e influência.

Como refere Teresa de Sousa, David Cameron “é, porventura, o exemplo mais paradigmático”, ao, em 2014, ter iniciado uma campanha contra a imigração, defendendo limites à liberdade de circulação na União Europeia e atacando os poderes de Bruxelas. Nasceu, assim, o referendo de Junho de 2016 que conduziu ao Brexit. E as sondagens, no Reino Unido, para as eleições para o PE que se avizinham apontam para a probabilidade do partido conservador britânico ficar em 6.º lugar!

Em Espanha, nas recentes eleições nacionais, algo de semelhante se passou. O PP que havia celebrado com o partido de extrema-direita VOX um acordo para governar na Andaluzia, perdeu mais de metade da sua representação parlamentar nas Cortes, ao mesmo tempo que o VOX passava de 0,2% nas anteriores eleições para mais de 10% agora e elegia 24 deputados.

Entretanto, os partidos populistas e nacionalistas reforçaram-se em quase todos os países europeus. Hoje, só não estão nos respectivos parlamentos nacionais em seis: Portugal, Irlanda, Luxemburgo, Malta, Roménia e Reino Unido. Sózinhos ou em coligação os partidos nacionalistas conseguiram ascender ao poder em 9 países europeus – Polónia, Hungria, Itália, República Chega, Áustria, Finlândia, Letónia, Eslováquia e Bulgária. E na Dinamarca, o Partido do Povo Dinamarquês dá apoio pontual ao partido do governo.

Por isso, não surpreende que todos os barómetros indiquem que, nestas eleições, vai acabar a maioria absoluta das duas famílias políticas dominantes nas últimas décadas, uma vez que, no total, os conservadores e social-democratas deverão perder uns 100 lugares no Parlamento Europeu.

Uma perda que tenderá, sobretudo, a reforçar a presença no PE da aliança dos vários partidos ultra-nacionalistas europeus que poderão alcançar 30% e tornar-se a 3.ª força política em Estrasburgo. Uma meta assustadora, mas não irrealista.

Pese embora alguma mudança de estratégia, visível na circunstância de proclamarem querer mudar a Europa por dentro e não acabar com ela, não restam dúvidas de que o seu objectivo é pôr termo à Europa como espaço de liberdade, de tolerância, de diversidade e de solidariedade, tal como hoje a conhecemos. Isso mesmo fica claramente expresso  na proposta de unidade destas forças políticas defendida pelo líder da extrema-direita austríaca em torno do combate à cultura irresponsável “de braços abertos” prosseguida por Merkel, Macron e Juncker: “Não queremos ser uma minoria na nossa própria pátria e isso é legítimo, honesto e profundamente democrático” ou num gigantesco cartaz exibido em Praga, num comício do partido de extrema-direita checo, “a Europa pertence a Jesus Cristo”.

Como, também, não é por acaso que em muitos países como a Hungria e a Polónia, onde estes partidos dirigem os respectivos governos, o próprio Estado de Direito esteja a ser posto em causa, nomeadamente no âmbito da justiça e da informação. A Hungria alterou drasticamente a sua moldura constitucional, o mesmo tendo feito a Polónia. Viktor Orbán, o primeiro-ministro húngaro, não tem qualquer pudor, aliás, em assumir que defende a “democracia não liberal” e as instituições europeias que se mostraram tão céleres e exigentes quando se tratou de impor aos países incumpridores das metas do défice severas medidas de austeridade continuam a fazer de conta de que nada de profundamente grave se passa nesses países. A muito custo, há pouco tempo, o PPE
aplicou ao partido de Orbán uma sanção de suspensão que, certamente, será rapidamente retirada se os votos desse partido forem
determinantes para assegurar alguma hegemonia nessas mesmas instâncias europeias.

Entre nós, há quem, de resto, que como Nuno Melo, o eurodeputado do CDS/PP, não considera o VOX espanhol como um partido de extrema-direita e defenda até a sua integração no PPE. O que acaba por não surpreender por parte de quem, como Nuno Melo e o CDS, estão sempre disponíveis para cavalgar qualquer onda populista, desde que antevejam que possa dar votos. Não sendo por isso de estranhar que, se um dia o Chega de André Ventura (agora Basta) ganhasse expressão eleitoral, Nuno Melo e o CDS se mostrassem disponíveis para interceder por eles junto do PPE.

O surgimento e o crescimento destas forças políticas são consequência também e muito desta complacência e da própria tentativa de apropriação de algumas das suas bandeiras por parte das forças políticas tradicionais.

Neste quadro não admira que as previsões apontem para que o somatório de votos dos socialistas e democratas-cristãos não vai ser suficiente para aprovarem a legislação europeia e a escolha dos cargos políticos das instituições europeias. O que vai obrigá-los a ter de adoptar uma política de concertação designadamente com os liberais e os verdes, para que a Europa possa pelo menos funcionar.

E tudo pode-se complicar ainda mais por via da interferência externa, decorrente quer das mudanças do posicionamento dos EUA em relação à Europa, sob a batuta de Trump, quer do recurso às novas tecnologias por parte da Rússia de Putin para manipular a informação que chega aos cidadãos.

O presidente russo não esconde, de resto, a simpatia que dispensa à francesa Marine Le Pen, ao italiano Matteo Salvini e à extrema-direita austríaca. Sabe-se inclusive que financia directamente várias forças extremistas, de Le Pen à AfD alemã (o terceiro partido mais votado nas eleições de Setembro de 2017 para o Bundestag, o parlamento alemão). E esses partidos, em sinal de profundo agradecimento, mostram-se disponíveis para apoiar a pretensão russa de levantamento das sanções decretadas pela União Europeia depois da anexação da Crimeia. Nigel Farage, o líder da extrema-direita inglesa, que se prepara para ganhar as eleições europeias no Reino Unido, não tem sequer pejo em afirmar que Puttn é o líder mundial que mais admira.

E, em simultâneo, Steve Bannon, antigo estratega de Trump, mentor de Bolsonaro e ideólogo da nova extrema-direita instalou-se em Itália, num mosteiro, onde dirige uma Escola de formação, designada por Academia para o Ocidente Judaico-Cristão, com o objectivo de ajudar a fortalecer os movimentos nacionalistas e populistas que se identificam com as ideias políticas de Trump em todos os seus aspectos – “do soberanismo ao proteccionismo, passando pela defesa dos chamados «valores tradicionais» contra o «politicamente correcto» e pela  destruição do projecto de integração europeia que os EUA impulsionaram desde o fim da II Guerra” (citação do já referido texto de Teresa de Sousa no “Público”).

Entusiasmada com esta conjugação de “interesses” entre Washington e Moscovo, Marine Le Pen assumiu: “Não podemos estar isolados, quando temos Puttin e Trump do nosso lado”. E Steve Bannon até já não tem qualquer prurido em aconselhar Matteo Salvini, o líder da Liga Norte, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior do governo italiano, a eleger o Papa Francisco como seu principal inimigo. Salvini que Orbán, primeiro-ministro húngaro, designa de “herói”, pela assumpção de políticas anti-imigração. As mesmas que levaram bem recentemente Trump a elogiar o líder húngaro.

No meio do que classifica do “3.º suicídio da Europa”, o controverso filósofo Bernard Henri-Lévy, de passagem por Portugal, assumiu que “é a primeira vez que temos um tempo sem esperança e isso é mortal”, mas ao mesmo tempo é peremptório: “Acredito que sem a Europa a vida das pessoas será pior. Creio que se a Europa explodir, o que é uma hipótese hoje, caminharemos para maior miséria, maior caos social, mais desemprego, uma vida pior para as pessoas.”

Não muito diferente é a leitura do historiador Fernando Rosas: “A nível europeu, o desaparecimento do centrão, das soluções ao centro herdadas da Segunda Guerra, está a transformar-se numa emergência de um novo tipo de autoritarismo anti-democrático cujo perfil ainda está em construção.”

Um cenário muito por culpa das forças-pró-europeias que continuam a mostrar-se incapazes de apresentar uma proposta convincente.

  * Por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

Post-Scriptum: 1) Risco de Pobreza: O responsável mor pela dívida “oculta” continua a tentar vender uma obra de governação exemplar que apelida de “desenvolvimento integral” e a insistir nas virtudes imaculadas do “betão” e do “asfalto”. Claro que, para quem proclamou que “o povo não come cultura”, 81 mil pessoas em risco de pobreza é tão somente um número sem importância. Que não vale nada ao pé das 4.850 inaugurações a que reclama estar associado. Ou seja, o “reles” não tem nada a ver com a criatura. É da responsabilidade da República, de Bruxelas, da oposição, da maçonaria, da comunicação social e, em última instância, da Maria Cachuxa e do Zé dos Anzóis que não querem trabalhar, antes, viver à custa de subsídios.
2) Pobretanas: Afinal, o (ainda) comendador Berardo é um teso, um pelintra como a maioria dos milhões de portugueses. Até renda de casa paga. Seu, possui apenas uma garagem na terra que o viu nascer. É, afinal, mais uma vítima da banca. Não tarda ainda se constitui em lesado. Muito embora não tenha problema nenhum em evidenciar que vive à grande e à francesa.

O amigo Miguel Sousa tinha, aliás, já dado o mote para a estratégia que iria adoptar. Os maus da fita são os banqueiros que lhe
emprestaram o dinheiro para jogar na bolsa porque Berardo é apenas um chico esperto.

Da antevisão de M. S. só faltou o “profundo arrependimento”. Coisa pouca, afinal. Berardo, “o herói madeirense”, na douta opinião do dito cujo, preferiu gozar com os deputados e com o país. Façam-lhe uma estátua, mas, pelo menos, tenham um pingo de vergonha e retirem-lhe as comendas.