Tudo em família…

Não há dúvida que ficámos muito mais descansados com a intervenção do Presidente da República, mas também do primeiro-ministro. Até passámos a ficar desprovidos de qualquer reserva que pudesse eventualmente existir, relativamente à nomeação de familiares de políticos, para cargos públicos, mas também para outros menos públicos, mas não menos bem remunerados. E, mais importante que isso, cargos para a vida. Ficámos tranquilos ao saber que Marcelo Rebelo de Sousa já sabe que, hoje, não se pode fazer política como antigamente, que era sempre a abrir e o povo nem sentia. Hoje, não, o povo está um pouco, não muito, diferente, mas está sobretudo mais cansado e acima de tudo as notícias correm mais rápido e não é possível travar a informação. Podem tapar uma “fuga” mas aparece outra.

E Marcelo disse mais, não façam como sempre porque isto agora é outra coisa, as informações correm mais depressa, não se pode nomear e pronto, fica por ali. Um bom conselho, que implicitamente significa dizer que “regabofe familiar” existia quando podia ser, mas agora já não pode. Quem meteu os filhos, a mulher e os genros, os primos e afins, que se ponha a pau porque já está ficando difícil para os netos. Nem mais.

Mas ficámos ainda mais “confortáveis” quando ouvimos o antigo presidente da República, Cavaco Silva, sair do seu recato pós presidencial, que os ex-Chefes de Estado têm por norma preservar e só interrompem por razões de Estado, para vir a público dizer que esta coisa dos “jobs for the boys” é um flagelo neste govermo. Uma questão de Estado a justificar intervenção. Realmente, é questão de Estado porque o Estado permite. Mas Cavaco vai ainda mais longe, sempre a surpreender no alto do seu cavaquismo, quando disse ter feito uma pesquisa e concluído que os membros dos seus governos não nomearam familiares. Pesquisa mal feita, está bom de ver. Nem parece de Cavaco, com o rigor que afirma ter. Foram só 15 nomeações, confirmou o comediante Ricardo Araújo Pereira. Mas mesmo que não confirmasse, Marques Mendes, ministro na altura, agora comentador, considerou um erro a nomeação da mulher. Ou seja, ficou, como se diz popularmente, “entre a espada e a parede”. Quer falar das nomeações do PS, mas tem medo o telhado não lhe caia em cima se alguém atirar uma pedra. Vida de comentador não é fácil.

Mas não é só ele, há mais. E ele também disse mais: nos governos onde participei, existiram excessos nas nomeações. Soube-se depois que Cavaco nomeou a cunhada para assessorar a mulher no Gabinete de Apoio ao Cônjuge. Percebem, agora, as razões que levam a que muita gente esteja, como diz o povo, “caladinha que nem um rato”? Mais inteligente do que Cavaco…

Não sei se já repararam mas os partidos vão empurrando a “bola” uns para os outros, alegando que se trata de uma questão mais ética do que outra coisa, criticam esta recente onda de nomeações de familiares, que deu na demissão do secretário de Estado por nomear o primo, mas fazem-no por razões partidárias e eleitoralistas, porque de resto não dão nem mais um passo. Fazer o quê e como? Questiona Rui Rio.

Uma questão ética. Nem poderíamos concordar mais com isso, na realidade é um problema ético. Também. Só que é preciso que a ética funcione. É preciso que haja ética. E foi com essa ética (ou a falta dela) que vivemos todos estes anos, com políticos e familiares nomeados, a torto e a direito, décadas a fio, fazendo carreira na Função Pública ou saltando de ministério em ministério ou de secretaria em secretaria, quando não é para empresas públicas e, de passagem, entra nas privadas, sempre contando que ninguém dava por isso e que resolvia a vidinha a muita gente. E na realidade, sempre foi assim, o povo assobiando para o lado e a vidinha resolvida do outro. Sempre foi assim com todos os partidos que desempenharam funções governativas, quer de âmbito nacional, quer regional, quer local. Poucos escapam. E por isso, se ficarmos pela ética, estamos bem arrumados. Que é aquilo que temos visto. Assim, poucos reclamam, muitos se safam.

Esta situação das nomeações é um problema antigo, escudando-se sempre num quadro muito específico da natureza do português, numa sociedade que se divorciou da política com o argumento mais fácil do mundo, de que é tudo igual, deixando assim o caminho aberto para os comportamentos mais desviantes do ponto de vista ético. Quando um sistema vive para uma sociedade pouco ou nada crítica, consumidora de outros mercados de mediatismo e populismo, estamos conversados quanto à qualidade e capacidade desse sistema na gestão de assuntos que têm a ver com a transparência.

É ver o roubo de armamento em Tancos, onde tudo foi encenado com a envolvência de altos responsáveis. Com depoimentos arrepiantes do ponto de vista da responsabilidade das estruturas militares, altas patentes. É ver o antigo ministro Álvaro Santos Pereira garantir que o governo português tentou retirar a palavra corrupção do relatório da OCDE, porque em Portugal até havia pouca. É ver o antigo presidente do conselho fiscal da Caixa Geral de Depósitos dizer que alertou a comissão executiva para os créditos sem garantias, envolvendo figuras públicas, sem que se registasse qualquer intervenção, considerando perante os deputados da Assembleia da República que os governos “teriam uma ideia de deixar correr a ver se se aguenta”. É ver o que aconteceu com o BES, com ligações a figuras ilustres que até receberam distinções de Belém. Com o Banco de Portugal, que andou tanto tempo supostamente a passar ao lado da fiscalização. É ver um deputado que diz “estão a trabalhar, estão a trabalhar…” quando confrontado com cinco meses de vencimentos em atraso, como se estando a trabalhar sem receber fosse normal, só compreensível num certo tipo de “escola”. Em tudo isto, da mesma forma que há falta de ética em muitos momentos da política, económica e social, também às vezes é acompanhada por falta de bom senso.

Todos estes acontecimentos fazem-nos refletir, pensar no que construímos e no que estamos a construir para o futuro. Se calhar, as televisões portuguesas até têm razão. Depois do “célebre” Big Brother, com réplicas seguintes que nunca mais acabavam, depois de Casados à primeira vista, divorciados à segunda, de “quem quer casar com o agricultor” e “quem quer casar com o meu filho”, numa exposição e exploração da mulher como nunca, mas que a sociedade aceita de ânimo leve, levezinho, como se nada tivessemos a ver com isso, numa mistura de terras e gado que não dá para perceber muito bem, já está em ação um outro programa na linha do quanto pior, melhor. Começar do zero, ou seja tudo nú. O que põe a “nú” muito do que somos.

Começar do zero não é mal pensado. Mais ou menos como Adão e Eva. Pelo menos tinhamos uma segunda oportunidade de fazer um mundo novo, mas já agora, comendo a maçã do outro lado. Era pecado na mesma, mas era outro pecado.


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