A sabedoria do vento

 

O frio e a chuva não me faziam desistir. De vez em quando o vento soprava forte, e eu desejava mais intensidade. Que mistério esconderia o pendão, atirado para o telhado por forte rajada?

A cor sugeria-me panos, que escondem altares no tempo da Quaresma. Mas era casa do Governo, e ninguém tinha notícias da realização de uma procissão dos Passos.

Recordei-me da minha escola primária, do Senhor Vento e do Senhor Sol, que, numa disputa, pretendiam saber qual era o mais forte. Tudo fizeram para que o viajante despisse o casaco. História que ouvi na Escola da Carreira e me fascinou.

Porto Santo. Foto: NV, Abril 2019

Em dia determinado e horário certo, que a minha classe ansiava, havia o programa da Rádio Escolar, transmitido pela Emissora Nacional. Na parede da sala, debaixo do crucifixo e entre as molduras empoeiradas com as fotografias do Presidente da República e do Presidente do Conselho, um altifalante, depois de uns ruídos esquisitos, tornava audível o programa elaborado pela Direcção-Geral do Ensino Primário. O silêncio imperava sob o olhar vigilante do professor. Por mais de uma vez, ouvi a história e a moral do Senhor Vento e do Senhor Sol, que depois li num livro emprestado pela Biblioteca Calouste Gulbenkian, instalada no edifício da Câmara Municipal do Funchal.

Nesse conto, vencera o sol, mas agora o que mais queria era vento, para que o pendão se desapegasse das telhas de canudo e voltasse a roçar de mansinho a fachada.

Não largava a máquina fotográfica. O momento mágico tardava. Impacientava-me.

Invocavam-se divindades e santos para acalmar o vento. Eu só o queria despertar naquele beiral. Já não havia deuses e os santos meus conhecidos aplacavam vendavais. Ulisses teve sorte – pensei – quando Éolo lhe presenteou com um saco de couro, «em que atou os caminhos dos ventos turbulentos». Mas logo me lembrei que os seus companheiros abriram o saco, «e para fora se precipitaram todos os ventos».

Quando recordava a fabulosa Odisseia – estranha coincidência –, uma rajada impetuosa arrancou do telhado o pendão. Podia agora ler: 600 / ANOS / MADEIRA / PORTO SANTO.

Quis o vento mostrar-me mais aquela fanfarronice duma Comissão, que não conhece, não respeita, nem honra a História do Porto Santo, com o apoio da Secretaria Regional do Turismo e Cultura.

De novo, se colocou diante de mim aquela Resolução do Conselho do Governo Regional, a n.º 243/2017, publicada no JORAM, n.º 71, I Série, de 18 abril de 2017, que criou «uma estrutura temporária designada por Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo, com o desígnio de planificar, organizar e monitorizar os eventos comemorativos dos 600 anos do descobrimento da Madeira e Porto Santo».

Sempre vi essa deliberação governamental como malformação congénita. Se quem a redigiu e subscreveu soubesse um pouco de História teria escrito Estrutura de Missão para as Comemorações dos 600 anos do descobrimento do Porto Santo e da Madeira. Bem, concluí então, nasceu torto.

Presumo que resultou assim, por falta de conhecimentos sobre rotas marítimas e História de Portugal, sobretudo do arquipélago da Madeira. Ou teria aquele diploma sido infestado pela velha e rançosa sobranceria elitista da Madeira em relação à ilha vizinha?

João Gonçalves Zarco e Tristão desembarcaram primeiro no Porto Santo. Contudo, a Comissão Executiva da Estrutura de Missão continua a inverter a ordem dos acontecimentos no pendão que o vento fincou, por algum tempo, no telhado da casa de sobrado.

Como me dizia um bem-humorado porto-santense: «a gente tem de virar o pano de pernas para o ar, para Porto Santo ficar por cima.» Que seja!

Surgiu depois o vento forte e aprisionou de novo o pendão. Incorporando o habitual desdém porto-santense por atrevimentos infelizes, metamorfoseou-o, com sabedoria, no protesto da primeira ilha que os portugueses descobriram e povoaram, distinção histórica que o ignominioso pano não reconhecia.