Fotos: Rui Marote
O histórico socialista Emanuel Jardim Fernandes considera que as eleições europeias que se realizarão em Maio não devem ser menosprezadas pelo PS-Madeira. Admite que a leitura dos possíveis resultados neste acto eleitoral para o parlamento europeu possa ser interpretada em jeito de “balão de ensaio” para as regionais de Setembro, que considera uma oportunidade fulcral para o PS-M finalmente destronar o PSD do poder no arquipélago da Madeira. Por isso, declara que se estivesse na direcção do PS-Madeira, empenhar-se-ia nestas próximas europeias “como se fosse uma eleição para a Região”.
“As pessoas pensam na Europa e acham que isso fica lá longe, é um parlamento de grande dimensão… Mas eu acho que devemos ter um empenhamento no sentido de termos o melhor resultado na Madeira, nas europeias, neste momento. Esse é um desafio para o Partido Socialista, e não apenas para os socialistas – para quem quer uma mudança na Madeira”, salienta. A tendência de voto para as europeias indicaria, logo à partida, uma tendência de voto que pode até ser ilusória, considera, mas cuja influência no eleitorado deve ser tomada a sério. É importante, defende, que o PS saiba “construir soluções para os problemas da Madeira no plano europeu”, capazes de convencer a população.
Emanuel Jardim Fernandes confessa não conhecer a candidata Sara Cerdas, a escolha do PS-M que substitui Liliana Rodrigues. Espera que seja capaz de ir ao encontro das opiniões que acima transcrevemos. “O partido escolheu assim, e portanto vou votar nela, como é evidente”, refere. “Se é ou não a melhor candidata, não comento”. Quanto a Liliana Rodrigues, considera que “fez um bom mandato”. Conhece-a bem, sabe da sua competência académica e não só, e entende que “soube vestir a camisola de defensora dos interesses da Madeira”. Se por acaso não fez melhor, comenta, é porque os resultados que um eurodeputado consegue obter para quem representa depende muitas vezes não apenas do seu trabalho, por melhor que seja, mas também “das falhas dos nossos adversários”.
Eurodeputado entre os anos de 2004 e 2009, o nosso interlocutor conhece bem a dificuldade de fazer valer, face aos “grandes”, como a França, que possui regiões ultramarinas, os interesses das regiões autónomas de um país pequeno como Portugal. Considera que muito foi feito, por si e pelos outros eurodeputados madeirenses, para fazer valer as reivindicações da Madeira e do Porto Santo, mas reconhece que há ainda que combater uma certa situação de afastamento dos grandes centros, de ultraperiferia, de descontinuidade territorial em relação ao território português e ao próprio espaço europeu. Isto para não falar das dificuldades que sentem, presentemente, os madeirenses da diáspora, especialmente em países como a Venezuela, e que começam a regressar à Região face à grave crise política, social, económica e financeira daquele país que os acolheu. Tudo aspectos que contribuem para complicar os problemas de um espaço regional fortemente afectado pela crise financeira internacional e pelo PAEF a que foi submetido pelo governo de Passos Coelho. Quanto as coisas começam a melhorar um pouco, verificam-se estes imprevistos. Tudo vem agravar as já naturais dificuldades da RAM, pequena e distanciada dos grandes centros de decisão. Pelo que o desempenho dos eurodeputados se torna tão mais importante.
Tendo ocupado cargos em comissões dedicadas ao desenvolvimento regional e ao turismo, entre outras matérias, o político madeirense natural do Seixal sabe que os parlamentares europeus agem de forma articulada mas que competem entre si na defesa dos respectivos interesses. “Nunca se pode pensar que fizemos o suficiente. Nesse sentido, uma região autónoma como a nossa tem de manter sempre uma mecânica, uma dinâmica de tudo fazer para na Europa defender o posicionamento madeirense, em coordenação com os Açores, e com as estruturas governativas de ambos os arquipélagos, junto das instâncias europeias”.
Com uma forte ligação aos Açores, até por motivos familiares, Jardim Fernandes defende que posição destes dois arquipélagos atlânticos portugueses deve ser sempre concertada, porque assim é mais forte e influente na Europa.
Emanuel Jardim Fernandes foi colega, no parlamento europeu, do actual primeiro-ministro, António Costa, que recorda como um jovem deputado socialista competente e empenhado, politicamente competente e ainda hoje respeitado na Europa. Também tem as melhores referências de Ana Gomes, com quem lidou de perto. Uma socialista que tem desagradado bastante a diversos sectores da sociedade madeirense, para não dizer à generalidade dos partidos, já que não há praticamente quem não defenda o Centro Internacional de Negócios da Madeira (CINM) e a Zona Franca, sobre quem pesa no entanto e constantemente, na boca de Ana Gomes, o epíteto de “paraíso fiscal”. Ainda recentemente a mesma voltou à carga, como é sabido. No entanto, o nosso entrevistado reconhece-lhe alguma razão: “Se calhar, o CINM precisa de dar uma volta. Hoje, fala-se do dinheiro que vem para a Madeira, por via do CINM. Vem, mas se calhar é dinheiro que não entra na Madeira. Não só por causa do inflacionamento do PIB, que impede a RAM de receber outras verbas comunitárias, mas porque a maior parte das empresas que por ali passam não terem qualquer actividade na Madeira, e criarem muitos poucos empregos”.
“Acho que a Zona Franca da Madeira foi uma bela opção”, admite. “Acho que Francisco Costa fez um bom trabalho na gestão do CINM… Mas acho que aquilo precisa de levar uma volta gigantesca. Tem de ser de facto um Centro que sirva a Madeira, de outra forma, que sirva fundamentalmente a Região Autónoma da Madeira, e não só para obter algum dinheiro. Tem de haver outra orientação, outra estratégia, outra visão política, um melhor relacionamento do Governo Regional com quem é responsável pela gestão da Zona Franca, para que esta sirva melhor a Madeira e os madeirenses na sua globalidade, e não apenas as empresas que vêm à Madeira fazer uma “passagem”, para pagar menos impostos”.
O socialista recorda com alguma saudade os seus tempos no parlamento europeu. Para quem enfrentava na ocasião peso opressivo da máquina política jardinista, foi, admite, uma lufada de ar fresco, embora, mau grado os combates políticos e o facto de algumas vezes ter sido maltratado pelo estilo truculento de Alberto João Jardim, refira que os dois sempre foram amigos. Na Europa, era possível fazer política a outra escala, com outro grau de civilização (e também de burocracia). Em todo o caso, foi uma experiência democrática enriquecedora. Entre as comissões de desenvolvimento regional, de turismo e transportes, e da África, Caraíbas e Pacífico, conheceu muitas outras realidades. Deparou também com regiões menos desenvolvidas, mas a Madeira, entre 2004 e 2009, já não era a mesma dos tempos em que tantos, que recorda, viviam em grutas. Aliás, recorda acções que empreendeu com o antigo presidente da CMF e que também foi eurodeputado do PSD, Virgílio Pereira, no sentido de apoiar famílias que viviam em furnas acima do Campo da Barca, em pleno Funchal.
Na Europa, e particularmente perante a França, com as suas regiões ultramarinas da Martinica e outras, era difícil fazer valer os nossos interesses, mas não havia a pressão política que marcava o domínio incontestado dos sociais-democratas na Madeira. Lutar por interesses políticos nas instâncias da Europa não era propriamente simples, mas “a Madeira, sem dúvida, tinha razões para exigir equilíbrio e apoio à sua situação e simpatia para com as suas reivindicações”. Muitas das regiões dos outros países tinham “melhor qualidade de vida do que a nossa nessa altura”, constatava, ao conhecer realidades exteriores.
Voltando a António Costa, com quem privou entre os socialistas na Europa, o mesmo tem sido constantemente acusado pelo PSD-M e CDS de não estar sensibilizado para as necessidades da Madeira, e de dificultar sistematicamente, pela via burocrática, a resolução de uma série de situações que afectam a RAM, desde o ferry todo o ano ao andamento do novo hospital da Madeira ou à actualização do modelo de subsídio ao transporte aéreo. Porém, os socialistas regionais defendem-se acusando os sociais-democratas de terem a responsabilidade, por não terem negociado correctamente semelhantes dossiers, e Emanuel Jardim Fernandes acompanha-os nesta opinião: “É bem capaz de ser verdade”, frisa. Conhecendo Costa, não acredita que colocasse entraves voluntariamente. “Quem tem de ser interlocutor com o Governo da República”, sentencia, “é o Governo Regional”. O PS, o que tem de fazer, por seu lado, “é talvez colocar uma maior pressão” sobre o Governo central, sublinhando as necessidades da população local, enquanto “interlocutor partidário” das mesmas cores das do Governo nacional.
Apoiante de Carlos Pereira à liderança do PS-M, ao invés de Emanuel Câmara, Emanuel Jardim Fernandes enaltece as virtudes e o bom trabalho realizado por Carlos Pereira na Assembleia da República, na defesa intransigente dos interesses dos madeirenses. Vendo com muito bons olhos o labor deste último, lamenta que o mesmo não tenha tido a oportunidade – como o próprio Jardim Fernandes teve – de, enquanto líder legítimo do PS, apresentar-se como candidato à presidência do Governo Regional. Mas os socialistas madeirenses escolheram assim, e o nosso entrevistado respeita esta realidade. De resto, não vê mal em Emanuel Câmara, enquanto presidente do PS, candidatar-se a presidente do GR. “Isso não tem problema nenhum”.
No entanto, e dado que Paulo Cafôfo é actualmente o candidato a este cargo, e se apresenta como ponta de lança da investida socialista para a conquista do poder no executivo madeirense em 2019, veria com muito bons olhos que o mesmo ingressasse, definitivamente e sem rodeios, como militante no PS-Madeira. “Confesso ainda estar à espera que o faça”, declara, sem pruridos. Até porque não vê com bons olhos a actual tendência dos cidadãos para desconfiar dos partidos políticos e optarem por candidaturas encabeçadas por cidadãos ou movimentos de cidadãos (que frequentemente mais tarde acabam por se converter, de facto, em partidos).
Conhecendo a realidade dos Açores, admite que “lá eles estão melhor que nós”, mas atribui tal facto não a favorecimento de Costa a ao governo de Vasco Cordeiro, da mesma cor política, mas “a uma maior capacidade reivindicativa do PS-Açores e do Governo açoriano” do que aquela que existe actualmente na Madeira.
“Quem é responsável pela RAM é o PSD, e é sua a responsabilidade de não conseguir o que os madeirenses mais querem”, sentencia. O PSD-M, acusa, “mais do que defender os verdadeiros interesses dos madeirenses, opta por defender um âmbito de interesses que são os do PSD”, acusa, dando espaço para interpretação a estas declarações.
Os sociais-democratas, por outro lado, e na sua leitura, procuram sistematicamente ressuscitar hoje um “contencioso das autonomias”, procurando criticar Lisboa por tudo o que corre menos bem, mas o tiro está a sair pela culatra. “Acho que perdem tempo, em ir por essa via. Os cidadãos, os residentes na RAM”, entende, estão a ver que o Governo de Albuquerque não o está a fazer da maneira correcta.
Nesse sentido, reconhece, os governos de Jardim eram bem mais eficazes e hábeis na capacidade negocial. “Acho que ele por vezes exagerava, mas era sem dúvida mais eficaz. E em algumas das suas batalhas, eu próprio estive com ele, como na necessidade de mais apoios aos transportes aéreos e marítimos”, lacunas que ainda hoje em certa medida se fazem sentir. “Eu sempre tentei actuar nos lugares onde estive em representação do Partido Socialista actuando não exclusivamente na esfera partidária, mas também da generalidade dos madeirenses”, assegura.
Actualmente, e aos actuais protagonistas do PS-M, recomenda-lhes “uma actuação mais acutilante, por forma a captar a simpatia de madeirenses que, não sendo apoiantes do PS, são-no todavia de medidas que possam trazer resultados positivos às pretensões dos cidadãos do arquipélago”.
Ainda sobre Cafôfo, repudia as críticas de, a dada altura do caminho, desviar-se da promessa de servir os munícipes do Funchal num mandato cumprido até ao fim, para candidatar-se a presidente do Governo Regional. “Não vejo mal nisso. Eu, se estivesse no lugar dele, fazia o mesmo”, opina. Ele é ainda edil funchalense, mas, mais do que representar apenas os funchalenses, ele tem agora a oportunidade de representar todos os madeirenses. E continua a recomendar-lhe que se inscreva no PS: “Penso que ele não ganha mais votos se não se inscrever. Não conheço ninguém que chegue a presidente do Governo sem estar a representar um partido”.
Para finalizar, e voltando às Europeias, as primeiras eleições do ano, volta a recomendar aplicação e cuidado na estratégia socialista, cujos resultados podem ser lidos de diversos modos. Não têm esse propósito indicador para a tendência das regionais, e os resultados não são deterministas e podem ser ilusórios; mas, mais uma vez, convém levá-los a sério. E espera que o PS esteja a seguir efectivamente a melhor estratégia.
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