O porquê do teatro nos dias de hoje?

Pelo menos desde o século V a.C. que a arte teatral acompanha ativamente a vida do homem, dando-lhe a possibilidade de novas invenções e novas leituras sobre o mundo.

Alguns dos textos da dramaturgia clássica e contemporânea são verdadeiras joias de reflexão e poesia, para os que realmente deixam-se abrir. A representação teatral desses textos “monumentais”, trabalha melhor que qualquer outra arte, os sentimentos e as emoções humanas que são sementes para a imaginação das pessoas. Pois  o teatro é uma arte que efetivamente aproxima mais as pessoas, do que afasta.

Por cá, penso mais sobre o presente do teatro na Madeira, que é bom, no meu entender, do que com o seu futuro, que esperemos que seja ainda melhor.

Na realidade, atualmente assistimos a uma grande diversidade de performances teatrais com alguma qualidade na nossa região, que vão desde o teatro amador (onde se destacam alguns grupos mais organizados; o teatro sénior que tem vindo a crescer, mas ainda tem muito para dar e o teatro educação que sobrevive como uma atividade extracurricular, à exceção do curso profissional de Artes do Espetáculo-Interpretação do Conservatório e da Escola Básica e Secundária da Ponta do Sol (pioneira e resistente) que disponibiliza à 15 anos a disciplina de Teatro no 3.º ciclo do ensino básico com oito turmas).

Na Madeira nos últimos anos têm surgido novos grupos, atores, artistas de teatro, que trabalham novas dramaturgias a partir de textos clássicos e contemporâneos, mostrando novas formas de criação, novas perspetivas artísticas, criando assim, públicos mais atentos, ativos e interessados. Para comprovar o que acabei de escrever, basta estarmos atentos às propostas teatrais que estarão ao nosso dispor ao longo deste mês de março, em diferentes palcos. Deixo só dois exemplos: o Festival AmoTeatro na Camacha, de 22 a 31 de março e o espetáculo “O Avarento” pela OFITE (Oficina de Teatro do Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos) de 29 de março a 7 de abril.

Julgo que os grupos de teatro da RAM, devem estabelecer relações cada vez mais próximas com as comunidades, envolvendo-as em projetos com sentido crítico e transformador. Só assim poderemos conquistar cada vez mais fazedores e consumidores de teatro.

O palco é uma poderosa caixa de sentidos para todos, que nos convoca para uma viagem enriquecedora, onde cabe todas as outras artes. Com o teatro questiona-se, afirma-se, satiriza-se, denuncia-se e propõe-se.  Os fazedores teatrais  devem, assim, agir com e pela dignidade e argumentar sempre com inteligência, para que esta arte tenha e faça sentido junto das pessoas. O teatro é a melhor arte de intervenção sobre o que rodeia a sociedade atual. É a arte que dá espaço à imaginação e que cria espaço e tempo real de comunhão com as pessoas.

Mas porquê o teatro nos dias de hoje? A verdadeira resposta está cravada no ser dos que aceitam experienciar momentos criativos e ativos, neste universo artístico. Sejam os atores, os criativos, sejam os espetadores. Por ser um terreno de experimentação criativa, de excelência, uma arte milenar que sempre acompanhou a evolução humana e que continua em constante evolução e construção. Pelo facto do teatro ser espaço de diálogo, de aproximação, de inquietação e de partilha.

Neste mês em que se celebra o Dia Mundial do Teatro (27 de março), há que ver esta arte como um ”mistério” que todos devem experimentar, no palco ou na plateia. Porque quando realizamos ou vamos ao teatro, fazemos uma experiência conjunta. Ir ao teatro é uma excelente forma de pensar e estar com os outros. Pensar de forma coletiva e não individualista, é urgente. Nomeadamente, nos tempos que correm, onde cada vez há menos tempo para estar e aprender com o outro. Por isso, é que é mesmo importante dar voz ao teatro. O Teatro estabelece uma relação no aqui e no agora, no meu entender inigualável com qualquer outra expressão artística, dando-nos ainda espaço, para o questionar, experienciar, manifestar e participar ativamente.

Gosto  do poder de intervenção desta arte de reflexão e ação sobre o que nos rodeia e, particularmente, do teatro interpretado de modo superior, em português, neste belo idioma de várias culturas.

Os gestores culturais não devem apostar somente na curadoria teatral centrada no gosto pessoal, mas devem sim, procurar propostas de qualidade dentro de diferentes linhas estéticas, que possam dar visibilidade a estilos e técnicas de teatro diferentes e todas válidas., satisfazendo desta forma, as espectativas dos diferentes públicos.

O teatro não é um luxo, é um bem comum, uma exigência humana. Por isso, deve ser servido e visto como a arte em forma de conhecimento, usando métodos ativos e vivências do saber estar, criar e ser, num espaço imaginativo como é o palco.

O teatro cresce com a congregação das pessoas, criando espaço e tempo de comunhão e isto não consegue ser reproduzido, tão bem, por mais nenhuma arte.

O Teatro nas suas múltiplas funcionalidades e valências, seja o entretenimento ou seja a reflexão, tal como qualquer outro género de arte está em constante transformação, reinventando-se e adaptando-se ao mundo e às pessoas.

Um bem-haja a todos os que usufruem, fazem, pensam e ensinam o teatro, como uma arte de resistência, do bem dizer-se, viver-se e imaginar-se um mundo melhor.