A sedução das águas

Escrevi um dia um poema sobre a água que acabei por perder. Talvez, quando menos espere, o encontre entre as páginas de um qualquer livro. É nos livros que guardo essas impressões vindas de uma instância fora da nossa topografia, que precisam de um espaço analógico onde se abriguem e possam ter sentido. Resguardam-se assim, por algum receio que a poesia detenha em revelar-se a um olhar impúdico, ou apenas pela necessidade de fazer perdurar em lugar próprio esse bem confesso da nossa interioridade.

A vida da água é uma história apaixonante de mutações, anelos e realizações espantosas; contemporânea da idade do planeta ela é a mais extensa e volumosa substância activa que movimenta a terra, poderosa matriz do primitivo ictus, responsável pela nossa vida. Lembro-me de que esse poema, escrito em data incerta, começava assim: «Água, disseste, e à beira d´água os meus olhos partiram como um barco – longo processo das minhas ansiedades». Um barco pode ser, sim, um longo processo de ansiedades, vogando sobre as grandes extensões líquidas que envolvem os países. O pequeno apontamento poético que aqui deixo torna-se oportuno no momento em que trago à memória viagens passadas, ou apenas estados sentidos à beira dos cais das ilhas.

A ilhas são inegáveis testemunhas da índole que agita as grandes águas, na sua tumultuosa existência: ondulações, marés, crispações e remoinhos, tempestades e calmarias. São poderosas metáforas, lugares onde será mais fácil encontrar uma definição de Paraíso, contradição entre a beleza e o abismo, entre a felicidade e a melancolia. Este certificado é-lhes passado pelos mares. Os  mares que as cercam, que as limitam e pressionam e, ao mesmo tempo lhes oferecem um caminho de fuga e liberdade. Esta dualidade é o grande drama que torna as ilhas lugares especiais, simultaneamente tão desejados e tão temidos; tão celebrados e tão sofridos. E um barco contém em si um idêntico sortilégio. Ele é a grande ilha movediça que se desloca rasgando as ondas, carregando um peso de alegrias e angústias, sucessos e derrotas, povo que vai e volta, ou não volta, que persegue um sonho ou se desfaz dum pesadelo, ou simplesmente vive um destino anfíbio de marinheiro. Ele é, também, uma espécie de ponte flutuante, lançada à deriva dos vastos oceanos, cumprindo a lenta e temerária rotina de partir e chegar e de novo partir.

Sentada junto ao cais de Ponta Delgada, na vizinha ilha açoriana, onde os grandes navios se confundem com os prédios  altos da marginal, ou na varanda da minha casa da Madeira, com vista sobre a baía, ou ainda acenando à emoção duma desejada viagem, no cais Zettere, em Veneza, é sobre essa paisagem líquida que incide o meu olhar; sobre a peculiaridade do nosso envolvimento aquoso;  sobre a concha das ilhas que se deixam banhar por largas águas e por elas recebem o mundo, com a voracidade dos operadores de sonhos que conhecem todas as amplitudes, até a do abraço. O abraço, ele mesmo portador duma amálgama de sentimentos que precisa de se extravasar, que, independentemente de haver ou não barcos, é o veículo menos contingente, mais espontâneo e autêntico contra o embate das nossas ansiedades.

Um dia, no cais de Zettere, em presença de uma dessas naves flutuantes, que desafiava pela monumentalidade a pequenez do bairro de Dorseduro, numa Veneza de braços estendidos à laguna, recordo-me do leve abalo de coração que saudosamente me prendeu a todos os mares, como se as pontes  da «Serenísima» me pudessem ligar a todas as ilhas e cais do mundo, incluindo os do meu país. E reafirmo: Dessa espécie de encanto doloroso que paira sobre as águas pode nascer, então, o mais  puro, autêntico e duradouro abraço que aproxima horizontes e derruba distâncias.

A exemplo de Álvaro de Campos na sua Ode Marítima, eis finalmente o mais ansioso dos abraços:  «Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos / queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer ! / E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho / componde em mim a minha vida interior.»