A arte do politicamente (in)correto

A cultura e as artes estão profundamente enraizadas na nossa sociedade e afetam, claramente, uma série de campos políticos. Existem certezas sobre o impacto da arte e da cultura na promoção de princípios democráticos, no bem-estar, coesão social, educação, emprego e inovação.

O tema central das crónicas que tenho escrito para o Funchal Notícias, anda, normalmente, sempre à volta do universo da arte, cultura e educação. Já a presente crónica tem como mote uma conversa que tive um certo dia, com um amigo, ligado à política ativa, que sugeriu-me que deveria escrever algumas crónicas sobre temas políticos e não somente, à volta da arte e cultura. A minha resposta foi, estupidamente (e sem ironia), um sorriso, seguido de um estranho momento de silêncio.

Não tenho dúvidas que a arte e a cultura são a melhor marca de um país, de uma região ou território. Para o funcionamento democrático de qualquer território também é necessário, evidentemente, um adequado sistema político. Pois não há democracia sem política e sem arte.

Tenho a firme convicção de que uma adequada política  cultural e artística é um pilar de sociedades sustentáveis. “A cultura é realmente aquilo que nos agrega e não as fronteiras políticas.” (Rodrigo Francisco).

Bem sei que para alguns – que são muitos – a maioria dos políticos são os profissionais na arte de mentir, isto é, são pessoas que chegam mesmo a acreditar nas suas mentiras. Mas não se pode, naturalmente, meter todos no mesmo saco. Temos também muitos políticos honestos e a trabalhar bem em prol do povo que os elegeu democraticamente.

Em todos os programas eleitorais dos partidos políticos, vê-se que prometem e reconhecem a necessidade de fazer muito na arte e na cultura ou, pelo menos, fazer mais do que se tem feito até agora. Esperemos que em 2019, seja mesmo uma realidade e não uma mera promessa, como tantas outras, que têm ficado por concretizar.

Tanto a arte como a política, corretamente, trabalham para termos uma sociedade cada vez melhor. E quer queiramos quer não, a arte e a política terão sempre o seu lugar na comunidade social e cultural de que fazemos parte. Em boa verdade, a política e a arte vivem – pelo menos deveriam – de convicções e de causas, em proveito de uma melhor sociedade.

É sabido que entre políticos – independentemente da cor partidária – e artistas há muitas divergências, mas, para bem de todos, poderiam ser muito mais as convergências. Digamos que o artista e o político são, de certa forma, lutadores de ideais deferentes, mas que também se tocam.

Vivemos numa época, em que é incontornável a importância do setor artístico e cultural na área económica, social e também na política. Julgo até que a arte é fundamental para ajudar a enquadrar e a entender os grandes e diversificados debates políticos do nosso tempo.

Alguns políticos têm sabido contribuir bem com a área cultural e outros porém, simplesmente ou matreiramente, têm usado a arte e a cultura como pretexto para atingirem determinados patamares ou fins. “A tentação de coroar o político pelo cultural nada tem de insólito: Kennedy, Johnson, como os ‘príncipes do Renascimento’, criaram memoriais com fins culturais, mas à custa deles”. (Eduardo Lourenço; in Jornal de Letras Artes e Ideias n.º 1247, p. 28).

Na nossa praça, alguns políticos simplesmente conspurcam a nobreza da arte de bem fazer política. Muitos acham que têm a magia ou o poder da arte de politicar, mas, por vezes, são uma autêntica farsa, tendo em conta a forma como vão usando e mudando o discurso ao longo dos mandatos. Digamos que são os chamados “Ziguezagues na Política” (Pedro Prostes da Fonseca).

Para andar na política é necessário ter estofo, e na área artística também, para poder-se sobreviver. Sobreviver-se com trabalho no terreno, junto com as pessoas. É verdade que os artistas precisam de público para disfrutarem e valorizarem os seus produtos ou objetos artísticos e os políticos também necessitam – como pão para a boca – da confiança das pessoas, para poderem existir.

Sou avesso aos lóbis políticos, que são autênticas máquinas de triturar pessoas e projetos artísticos, com os seus gostos dirigidos simplesmente para os espetáculos e festivais de artistas vindos de fora, subsidiando “a torto e a direito”, amigos e amigos dos amigos, que estão ligados a algumas associações culturais que pouco fazem no campo da verdadeira criação artística, pois são mais produtores de eventos importados.

É claramente uma opção política – errada na minha modesta opinião – apoiar mais, as associações, produtoras de eventos, do que as associações culturais, criadoras, que trabalham diretamente, de forma artística e ativa, com as pessoas de uma terra.

Quando encomendam um espetáculo artístico impondo o tema, estética, elenco, não estão a impor uma política rasca, em vez de liberdade artística?

Bem sabemos que há por aí umas ricas criaturas ligadas ao mundo da política – de todas a cores – que são exímias na “arte de vender banha de cobra, que estica mas não dobra”.

Precisamos de incentivar mais a criação de palestras, discussões sobre a liberdade artística e o papel da política cultural, local e nacional, de forma a identificar prioridades, definir estratégicas, conhecer a legislação e os diversos financiamentos. Há que continuar a proporcionar iniciativas onde todos os participantes, artistas e amigos das artes, partilhem as suas experiências, apresentem novas ideias, mostrem caminhos profícuos, para que se possa encontrar formas inovadoras, coerentes e contextualizadas para o bem da cultura artística. Todo o artista ou agente cultural deve aspirar colocar a arte e a cultura no centro do debate público e da tomada de decisões.  E todo o cidadão deve procurar ter uma opinião informada e entrar, sem receio, no debate sobre a política cultural e artística da sua região. Aprecio imenso o diálogo civilizacional que as artes estabelecem com a cultuara e a sociedade. As artes são para as pessoas uma matéria de reflexão e um meio de intervenção pública. Toda a vertente artística tem – quer queiramos ou não – uma forte dimensão política, por isso é que interessa-me muito a intervenção cívica através da arte.

A democracia só tem a ganhar com um forte setor político e artístico. Por isso, admiro os que têm um papel ativo na política e ou na arte, nunca pondo em causa os gostos, as opções e o modo de viver de cada cidadão. Pois, tanto a política como a cultura artística são fundamentais num mundo cada vez mais global e digital, onde surgem, quotidianamente, novos problemas e inesperadas intersecções que transformam e condicionam o desenvolvimento da Humanidade.

Em suma, uma certeza, eu tenho, é que sem uma política e arte fortes, mais fraca será a democracia e mais vacilante será a liberdade de cada um. Pois a política e arte fortalecem a nossa vivência coletiva e, simultaneamente, contribuem para transformar e acrescentar valor à sociedade.


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