Pe. José Luís escreve “carta aberta” a Albuquerque sobre “baboseira” de se gastar “uma pipa de massa” numa réplica da capela das Babosas

O padre José Luís Rodrigues escreveu hoje no seu blogue “O Banquete da Palavra”, uma “Carta aberta sobre a Capela das Babosas”.

Na carta dirigida ao Presidente do Governo Regional da Madeira, Miguel Albuquerque, o sacerdote explica porque não se deve gastar cerca de 400 mil euros a reerguer o templo.

Eis o teor da carta:

“Exmo Senhor Presidente do Governo Regional da Madeira Miguel Albuquerque,

Escrevo-lhe nestes dias estivais de retempero de férias.
Obviamente que esta informação sobre férias não lhe interessa nada, muito mais lhe será inútil o que anda a fazer cada um nas suas férias. Só partilho consigo este intróito porque, suponho, que Va. Exa. já teve oportunidade de fazer as suas férias e que provavelmente estará de regresso ao trabalho por estes dias.
Antes de Va. Exa. partir deixou-nos com a notícia de que o Governo Regional, pretende custear na totalidade a reconstrução da Capela das Babosas, na freguesia do Monte e que até ao final do ano corrente se iniciarão as obras. Serão cerca de 400 mil Euros. Uma pipa de massa para um imóvel que não se vê qual a sua necessidade pastoral nos tempos que correm e mais ainda se nos recordamos dos tempos apertados da austeridade, que entre nós não parecem dar-nos tréguas.
Fundamentaram que a construção desta capela é uma aspiração e desejo da população da freguesia do Monte. Tenho dúvidas que assim seja? – Contudo, nada mais fácil de justificar, não se fazendo esta obra, tendo em conta as graves necessidades que existirão noutros domínios, por exemplo, saúde e educação. E a Igreja do Monte que acusa graves necessidades de restauro? O que pensará a chamada população do Monte sobre a sua/nossa emblemática Igreja de Nossa Senhora do Monte?
Os tempos que correm impõem uma grave e criteriosa gestão dos bens públicos, o Senhor sabe disso melhor do que eu.
A capela das Babosas até ao momento do aluvião, que a ceifou cerce em 2010, servia de capela mortuária quase exclusivamente. Se a necessidade que apresentam para erigir a capela neste momento é essa das cerimónias fúnebres, é preciso lembrar que a Câmara Municipal do Funchal resolveu o problema com a construção de uma capela mortuária nova de raiz junto ao cemitério do Monte e que está a funcionar em pleno. Por aqui, se vê mais uma razão para inutilidade de se reconstruir a capela das Babosas, só por causa da “baboseira” de alguns ou então só para que se faça mais um mausoléu inútil para degradar-se com o passar do tempo. E como são tantos nesta terra que nos agoniam imenso para os manter, que foram custeados “naquele tempo” pelo Governo Regional sem qualquer critério e sem freio nenhum quanto aos valores investidos em cada um. Uma desgraça que ajudou a sangrar ainda mais o pobre povo madeirense.
Assim sendo, pode ficar a ideia de que se vai fazer outra vez uma capela sem critério nenhum e sem necessidade pastoral absolutamente nenhuma, para pretexto de mais uma festa de inauguração com pompa e circunstância com fins eleitorais. Esta política para encher egos leva-nos ao porto seguro da banca rota e não haverá nenhuma capela ou Santa ou Santo que nos valha.
Acredito que não estou sozinho nesta consciência. Muitos mais haverá que pensam assim e como que me imploram que exponha este meu pedido.
Desejo-lhe um bom regresso ao trabalho, mas que pelo meio da montanha de assuntos que terá para resolver pense um pouco neste para reconsiderar e arrepiar caminho. Porque, quanto a capelas, é dito antigo na Madeira: “capelas, fogo com elas”. Sr. Presidente, este dito inflamado não encaixa só e unicamente às capelas religiosas…”