Estes miúdos têm pais?

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnQuantas vezes, no nosso dia a dia, em casa, na rua, nos complexos balneares, nos cafés, nos restaurantes, nos espetáculos, enfim, em quase todo o lado, não nos interrogamos sobre se estes miúdos, muitos miúdos mesmo, têm realmente pais no verdadeiro sentido da palavra. Não digo que é a maioria porque pode ferir uma certa intelectualidade que se julga promotora de um suposto “modus operandi” moderno, tipo novo rico da conduta educativa, que mais não está a fazer do que conspurcar uma coisa que se chama Educação, não a do ensino oficial, mas aquela que já vem do berço…dos pais.

Funchal sujo Santa Catarina A Foto Luis Hilário
Imagens Luis Hilário

Funchal sujo Parque de Santa Catarina Foto Luis HilárioE já os meus pais diziam que quem não tem não pode dar. E, na verdade, há muita gente a não ter, logo há muita gente a não poder dar. É assim, simples, doa a quem doer, façam o “pino” se quiserem mas é assim. O estado de educação de muitas crianças/jovens está um caos. Daí até à geração rasca é um passo. E não se confunda geração rasca com saber menos, nada disso, até sabem mais do que gerações anteriores. Não é o saber por si só. É mesmo o saber ser e o saber estar, aí é que está a grande questão. E aí, sabem claramente menos. Se bem que o saber, por si só, também anda, em muitos casos, pela hora da amargura, há alguns que nem sabem quem é o Presidente da República, para mostrar, assim à mão de semear, um exemplo dos mais básicos. Mas pronto, é o que é e felizmente há quem saiba e muito.

Depois, surpreendem-se de termos um “cataclismo” durante os concertos, com o recinto completamente devastado de copos, papéis e tudo o que apanharam à frente, espalhados pelo chão, como aconteceu recentemente no Parque de Santa Catarina e que deu brado nas redes sociais. Ou como aconteceu, ouvi vários relatos nesse sentido, durante um torneio de futebol de praia no Porto Santo, onde no final, a organização “viu-se e desejou-se”, como diz o povo, para limpar a zona, “devastada” pela falta de civismo de quem foi ali assistir e fez do chão o caixote de lixo, não se sabendo bem onde é que aprenderam aquilo.

É claro que esta realidade não é exclusiva do Funchal nem do Porto Santo, para falar dos exemplos mencionados. Há em todo o lado, cá dentro, lá fora, é verdade. Mas que diabo, não podemos tentar inverter este estado de coisas educando os nossos filhos como deve ser e não como eles querem? Não podemos dizer-lhes que a nossa liberdade acaba quando começa a do outro? Vá, façam um esforço que, se calhar, com maior ou menor facilidade, chegam lá. E até lhes pode trazer, enquanto pais, alguma mais valia para eles próprios. Se não sabem, leiam alguma coisa. E verão que é outra coisa, é a diferença entre deitar o copo no chão e colocá-lo no recipiente de lixo, é a diferença entre dizer bom dia, agradecer, respeitar, e passar ao lado dos mais elementares registos, como que se a sociedade considerasse uma dádiva a existência desta falta de Educação.

Mas o que é ainda mais confrangedor é a reação das pessoas nas redes sociais, hoje por hoje um centro de discussão, mais relevante do que se pensa. E foi interessante, ou talvez não, assistirmos a um único foco de discussão à volta do que sucedeu no Parque de Santa Catarina, onde turistas e locais puderam observar o “tsunami” de lixo depois de um concerto, com várias imagens a circularem logo pela manhã. Só que a parte do civismo, ou a falta dele, parecia de somenos importância, o foco foi dado na limpeza, era a Câmara que tinha culpa porque não limpou, depois viu-se que era a empresa organizadora que deveria ter assumido, desde logo, essa operação, depois foi a empresa que tinha sido contratada para o efeito a não comparecer, obrigando a uma intervenção de última hora, necessariamente tardia, depois era ainda aquilo que deveria ter sido feito quando foi detetado o problema, fechar o Parque à população até estar completamente limpo. Foi tudo menos aquilo que constitui um grande problema de atualidade, a falta de civismo. Limpeza, sim, claro. Falta de civismo, sim, muita. Claríssimo.

É evidente que se torna necessário, independentemente da circunstância, proceder a uma operação de limpeza depois de qualquer espetáculo, mesmo sem ser vocacionado para jovens. Haverá sempre papéis e copos para o chão, até porque os recipientes estão colocados em determinados pontos e às vezes a deslocação para junto dos mesmos significa perder o lugar na frente. E além disso, a falta de civismo não é necessariamente igual a juventude, há felizmente muitos jovens conscientes e educados. Podemos inclusive assistir a comportamentos destes mesmo em pessoas de faixas etárias superiores. Nos arraiais, por exemplo. Mas o que está mesmo em equação prioritária e que deve ser debatido, prende-se com um determinado patamar comportamental, uma forma de ser que não tem nada a ver com as exceções que se admitem. É por exemplo deitar o copo para o chão simplesmente porque sim, o que acontece com alguma frequência. E é neste domínio que devemos ter a nossa atenção, compreendendo todos os contornos que rodeiam os espetáculos, os respetivos excessos da juventude, ainda mais em grupo onde uns seguem os outros, mas procurando, sempre, não perder de vista aquilo que é essencial, a prevenção, a Educação e o civismo.

Queremos uma sociedade moderna, civilizada. Mas depois, confundimos conceitos e a dada altura nem sabemos o que é moderna nem o que é civilizada. E se não soubermos, ensinar é uma miragem.

Claro que vamos continuar a limpar as áreas dos espetáculos. Mas talvez não fosse má ideia ir dizendo a esta gente que há uma outra forma de limpar, que é não sujar.

Se assim não for, vamos continuar a discutir os mesmos problemas e com mais anos em cima, o que é pior. Pior para os pais e pior para os filhos.