Dia Mundial do Livro – uma proposta de leitura

Leonor Coelho*

O Senhor Kraus e a política (2005), constituído por trinta e nove crónicas, é um livro híbrido que dá voz e corpo a um dos volumes da série “O Bairro” de Gonçalo M. Tavares. Escritor reconhecido no panorama nacional e internacional, distinguido, por exemplo, em 2011, com o Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, foi-lhe atribuído, em 2018, o Prémio Literário Vergílio Ferreira. Traduzida em várias línguas, a sua produção prima pela versatilidade, cuja escrita percorre territórios de fronteira em termos de classificação genológica. Escritor contemporâneo de uma cultura-mundo, a dimensão da sua obra permite múltiplas possibilidades de leitura. Porém, neste Dia Mundial do Livro, focar-me-ei num artefacto compósito já que dele emergem outras vozes, outros livros e outras linguagens artísticas.

As crónicas do Sr. Kraus (simultaneamente escritor e personagem do livro) são acompanhadas por breves conversas com outros residentes do bairro ou por observações que, por vezes, o autor-cronista redige num caderno à mesa de um café (recuperando-se, assim, uma memória cultural e literária). O traço minimalista das ilustrações de Rachel Caiano realça subtilmente o mapa deste “chiado literário”, designação utilizada por Enrique Vila-Matas. Neste bairro ficcional, as personagens fictícias remetem, na verdade, para intelectuais reconhecidos.

Relembremos o projeto publicado na editora Caminho. O primeiro volume é constituído por cinco livros: O Senhor Valéry e a lógica, O Senhor Henri e a enciclopédia, O Senhor Juarrez e o pensamento, O Senhor Breton e o pensamento, o Senhor Kraus e a política. Um segundo volume contem, de igual modo, cinco propostas: O Senhor Calvino e o passeio, O Senhor Brecht e o sucesso, O Senhor Eliot e as conferências, O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas, O Senhor Walser e a floresta. Estes livros não são meros mecanismos de vizinhança. São apanhados breves de uma paisagem humana e comportamental que convidam a um momento de fruição leitora.

Este caleidoscópio citadino é, de certa forma, uma biblioteca itinerante: um tecido literário em construção que já permitiu adaptações a outras linguagens artísticas. Peças de teatro, vídeos, exposições, entre outras recriações, resultam da(s) releitura(s) da série de Gonçalo M. Tavares. Realço, a título de exemplo, o ciclo radiofónico dirigido por Teresa Sobral, com música e sonoplastia de Miguel Curado. No Teatro da Trindade, “As vozes do Bairro” recuperaram a tradição do teatro radiofónico. Vários nomes conhecidos do público foram convidados a emprestar a voz aos Senhores de Gonçalo M. Tavares: José Raposo (Sr. Valéry), Filipe Duarte (Sr. Henri), Miguel Loureiro (Sr. Brecht), Álvaro Correia (Sr. Calvino), Bruno Nogueira (Sr. Breton) e André Gago (Sr. Eliot). São leituras e interpretações que o espectador na Madeira gostaria certamente de acompanhar.

Os volumes que constituem “O Bairro” são passeios e encontros lúdicos entre os vários moradores. Não deixam por isso de ser criações analíticas das vivências de um bairro, onde, numa construção interdisciplinar e intercultural, os vários intelectuais refletem e espelham a nossa contemporaneidade. Neles o autor oferece ao leitor uma escrita capaz de evitar a imobilidade mental. Pela sua plasticidade, a escrita (aparentemente simples) deste escritor convida à reflexão de tempos e cartografias, mas também ao deleite e fruição que um livro pode e deve proporcionar.

Pelas modernidades assim arquitetadas, múltiplos leitores das mais variadas faixas etárias são convidados a entrar nestes “cadernos” de Gonçalo M. Tavares. Cada grupo-leitor fará a sua análise e apreciação. Atlas de uma cidade utópica ou viagens humorísticas e críticas por tempos e espaços sempre atuais? Pode ser um trilho turístico por referenciais artísticos e literários diversos; pode ser um percurso ideológico pela sátira à hodiernidade disfórica; pode ser uma viagem que levará qualquer leitor a acompanhar o exercício da criatividade de Gonçalo M. Tavares.

Vejamos a situação do Sr. Kraus. Ao sair bem-disposto do jornal que o contratou, ele sabe que escrever crónicas é “a única forma objectiva de comentar a política era a sátira” (p. 7).  A escolha deste subgénero literário dialoga com a escrita satírica, denunciadora e, não raras vezes, panfletária. Se olharmos para o subtítulo do livro, depreendemos que uma análise política (e naturalmente social e cultural) levará o leitor a percorrer várias situações e meandros não raras vezes dissonantes. Não são lugares de “negrura” como, de certo modo, podemos encontrar na tetralogia de Tavares subordinada ao ciclo “O Reino” (Um Homem: Klaus Klump, A Máquina de Joseph Walser, Jerusalém, Aprender a rezar na Era da Técnica). Antes pelo contrário. Por via de uma fina candura, as observações de Kraus acentuam a ironia, mas também a paródia das atualidades marcantes do país.

No posfácio à edição francesa do livro, Monsieur Kraus et la politique, refere Alberto Manguel: “o Kraus que Tavares instala no Bairro é um Kraus paralelo, reinventado para o nosso espaço e o nosso tempo.” Assim, a dimensão conferida à cidade, em geral, e a este bairro, em particular, ganha leituras várias, mas, regra geral, são olhares irónicos sobre as atuações do chefe e dos subordinados: as bizarrias do Chefe e o seguidismo dos seus Auxiliares.

De facto, nesta itinerância pelo percurso de vida e obra do Sr. Kraus, através de uma escrita escorreita, a fluidez do discurso que se opõe, de certo modo, à escrita fragmentária ou à escrita do desencanto de Gonçalo M. Tavares, acompanha uma multiplicidade de interpretações de uma” ficção da ficção” ou da ficionalidade da realidade (repito: situações de uma atualidade constante…). É certo que a literatura não é realidade. Mas a literatura pode, de certo modo, espelhar a atualidade.

Na tessitura lúdica do projeto literário de Gonçalo M. Tavares, em geral, e em O Senhor Kraus e a política, em particular, surgem, em jeito de jogo, as vivências de uma cidade utópica. Porém, toda a utopia tem o seu reverso. E, por conseguinte, as disforias não estão camufladas nas crónicas que Kraus vai propondo ao jornal que o contratou.

Karl Kraus é, na realidade, um intelectual austríaco que nos deixa ensaios, aforismos, teatro e poesia. Todavia, é sobretudo um panfletário que conjuga a sátira e o tom cáustico. Não é, pois, de estranhar que Gonçalo M. Tavares convoque este outro escritor-mundo para a arquitetura de uma urbe em construção. Em O Senhor Kraus e a política, as crónicas revelam-nos (revelam aos próprios leitores do cronista, simultaneamente os Senhores deste “Bairro”, que com ele se vão cruzando nos vários espaços do lugar) uma atualidade distópica. A categorização política, social e cultural é de uma modernidade ajustada aos dias de hoje. A título de exemplo, transcrevo algumas passagens para reflexão:

  • “De manhã, ofereceram ao Chefe o mapa do país, todo dobradinho, a cores, para que o Chefe deixasse de confundir o Norte com o Sul, o Litoral com o Interior, uma cidade grande com uma aldeia pequena, um castelo com um centro comercial moderno, uma fonte de água com uma taberna.

Enfim, ofereceram o mapa do país ao Chefe para ele deixar de confundir tudo com o seu contrário.” (in “A constipação”, p. 17).

 

2) “Leituras profundas…- murmurou o senhor Kraus.

O político não lê livros, quando muito lê os seus títulos. Faz o mesmo com as pessoas.” (p. 89)


  • Professora na Universidade da Madeira

 

 

3)“E era sempre assim. Não dava apoio às pessoas que precisavam de apoio, não dava dinheiro às pessoas que lhe pediam dinheiro, não dava roupa às pessoas que precisavam de roupa, não dava casa às pessoas que precisavam de casa, não dava guarda-chuva às pessoas que estavam a apanhar chuva. Em suma: não dava alimentos, não dava água, não dava cobertores, não dava uma lâmpada, um bocado de sal, um parafuso, nada, não dava nada a ninguém, nada! Dava apenas o exemplo.” (in “O chefe que dava o exemplo”, p. 100)

 

 

O humor desta(s) escrita(s) não passará despercebido ao leitor. A superficialidade da era do vazio, a alienação do ser humano ou a cultura da deceção da sociedade estão patentes no texto. Através de uma inventividade de um real, Gonçalo M. Tavares acentua, sobretudo, a desmedida (ou a falta de medidas) do poder e o deslumbramento de seguidores passivos (leiam, por exemplo, “Uma arte na vida do Chefe (3)”). O rotativismo também é de uma acuidade crítica muito atual (não percam “O chefe que gostava de movimento (2)”). Qualquer predomínio pode ter um fim (vejam “A queda” e “Epilogo”).

Todavia, neste dia 23 de abril, celebrem, sobretudo, o Livro e a Leitura. Apreciem este projeto gráfico-literário em trânsito. Acompanhem as múltiplas zonas de interface que este artefacto proporciona. Celebrem a gramática da convivialidade leitora de uma Literatura-Mundo. Aguardemos, ainda, pela publicação de novas variações desta Biblioteca/Cidade.

 

(Gonçalo M. Tavares, O Senhor Kraus e a política [Capa e desenhos de Rachel Caiano], Alfragide, Editorial Caminho, 2005)