Três apontamentos sobre Património

 

  1. Na semana passada, as escavações na Rua do Bom Jesus puseram a descoberto vestígios de antigas construções, o que não surpreende, por tratar-se de uma zona antiga da ocupação humana do Funchal. Verdadeiramente surpreendente é o facto de se continuar a intervir no casco urbano e, no caso concreto, na área de protecção de um edifício classificado sem acompanhamento arqueológico e em desrespeito da lei em vigor.

Mas ainda mais surpreendente é a falta de atenção prestada ao estado do Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, apesar de vários alertas na opinião pública (veja-se, por exemplo, o artigo de Rosário Martins no Funchal Notícias, em 13 de Março de 2017). Bem a propósito, escreveu José de Sainz-Trueva no passado dia 5, no Facebook: «Independentemente desta questão concreta, fundamental mesmo é procurar a recuperação do Recolhimento e Igreja do Bom Jesus. Este monumento encontra-se num lastimável estado de degradação e abandono. Uma vergonha para todos os madeirenses e para todas as entidades com responsabilidade na área da defesa do nosso Património Cultural. Aconselho a quem por ali passar, parar cinco minutos e observar a lamentável decadência do imóvel.»

A verdadeira questão é, sem dúvida, a necessária e urgente intervenção no Recolhimento do Bom Jesus da Ribeira, edifício classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira, onde é bem patente a ameaça de ruína de algumas das suas estruturas.

Fundado em meados do século XVII por Simão Gonçalves Cidrão, arcediago da Sé do Funchal, o recolhimento destinava-se a mulheres e moças pobres, desamparadas e em risco. Tinha capacidade para 30 recolhidas. Regia-se pelo Instituto das Terceiras. Nossa Senhora do Monte do Carmo era a padroeira do Recolhimento. Funcionou como Recolhimento até ao século XX.

Conjuntamente com o projecto de restauro deste imóvel, revela-se pertinente o apuramento do direito de propriedade do mesmo, tarefa que os serviços competentes do Governo Regional deveriam levar a cabo.

 

  1. Em artigo de opinião, publicado no Diário de Notícias (Funchal, 4 de Abril de 2018, p. 26), o Senhor Presidente da Câmara do Funchal afirmou:

«O Funchal foi o primeiro município da RAM a criar uma ARU [Área de Reabilitação Urbana], associada a um programa de amplos apoios e incentivos fiscais, denominado “Cidade ComVida”, que, a caminho dos quatro anos de vigência, possibilitou que 100 edifícios beneficiassem destas medidas. Os edifícios recuperados são, hoje em dia, uma realidade que se comprova facilmente ao circular nas ruas mais antigas da cidade, fruto do extensivo trabalho da CMF, que criou as condições para que a Reabilitação Urbana prosperasse através do investimento privado.»

Passeando pelo Funchal, constato tanta ruína, pelo que, sem, por agora, querer pôr em causa o citado número de edifícios reabilitados, interrogo-me se não seria útil a Câmara mandar publicar a lista dos tais 100 imóveis, para os munícipes ficarem devidamente esclarecidos. Da minha parte, ficam aqui antecipados agradecimentos por esse serviço público.

  1. Na semana passada, visitei a Igreja Paroquial da Fajã da Ovelha. O edifício apresenta-se bastante degradado. As muitas infiltrações causaram avultados prejuízos no acervo artístico.

O restauro da capela-mor avança com os parcos recursos disponíveis. Os paroquianos, desde 2012, empenham-se na consecução da obra de restauro da Igreja de São João Baptista, promovendo a angariação de verbas.

Segundo o Censos de 2011, residiam 895 pessoas na freguesia, isto é menos de um terço dos habitantes de 1911, o melhor ano em termos demográficos.

A divisão da freguesia em duas paróquias, o despovoamento, o envelhecimento da população, os seus fracos recursos económicos e o diminuto número de fiéis exigem um apoio especial a esta importante obra.