A geriatria nos gatos

Os gatos fazem cada vez mais parte das nossas vidas e têm cada vez mais uma maior longevidade. Uma nova realidade que aumenta os desafios para nós, médicos veterinários. A aposta na profilaxia e o crescimento da medicina felina permite ajustar as necessidades de gatos geriátricos contemplando o diagnóstico atempado, as novas terapias e a nutrição adequada. Considera-se um gato sénior a partir dos 7 anos de idade.

O envelhecimento nos gatos é mais rápido do que no Homem e é de extrema importância pois um animal sénior é um paciente particular e especial. É importante detetar com alguma antecipação determinadas doenças que podem surgir a partir desta idade. A insuficiência renal, as patologias do foro endócrino, como a diabetes e o hipertiroidismo, e as doenças oncológicas são as patologias mais frequentes nos gatos e que suscitam maior procura de consultas no médico veterinário. Mas alguns sintomas também preocupam os donos de felinos, como por exemplo a perda de apetite, a perda de peso, a condição corporal e a prostração.

Estas doenças caracterizam-se pelo aparecimento de determinados sinais que o proprietário deve de estar alerta:

  1. exista aumento do consumo de água (mais de 100ml/ kg)
    2. aumento na produção de urina
    3. perda de peso
    4. anorexia há mais de 2 dias
    5. apetite anormalmente aumentado
    6. vómitos persistentes
    7. diarreia há mais de 2 dias
    8. dificuldade em urinar e/ ou defecar
    9. alteração de hábitos
    10. claudicações com mais de 2 dias ou em mais de um membro
    11. perda súbita de visão ou pupilas que não contraem com a luz
    12. massas, úlceras ou feridas que levem mais de uma semana a desaparecer
    13. mau hálito ou perder saliva há mais de 2 dias
    14. abdómen dilatado
    15. aumento de atividade ou maior sonolência
    16. peladas especialmente se forem pruríticas
    17. engasgar-se frequentemente ou ter dificuldade em engolir
    18. alterações na respiração
    19. episódios de colapso/ desmaios ou fraqueza
    20. incapacidade de comer granulado
    21. convulsões/ ataques
    22. sentir-se confuso ou perdido dentro da própria casa.

Cuidados a ter com um animal geriatrico:

  1. Vacinas em dia;
    b. Escovagens regulares;
    c. Unhas cortadas;
    d. Água sempre à disposição e contabilizar o seu consumo;
    e. Manter os animais seniores dentro de casa particularmente em climas pouco temperados;
    f. Controlo de peso pelo menos cada 2 meses;
    g. Quando existem vários animais certificar-se do acesso à comida e à água;
    h. Devem ser consultados pelo menos semestralmente.

A deteção precoce de determinadas doenças permite-nos enquanto médicos veterinários atuar de uma forma bastante mais eficaz no tratamento. Aumentando assim a esperança média de vida. A ideia que os gatos envelhecem e ficam mais sossegados e dorminhocos é um erro comum à grande maioria dos proprietários de gatos geriátricos. O gato é um animal ativo, brincalhão e extremamente ágil durante toda a sua vida, desde que se encontre nas melhores condições de saúde. Para a medicina veterinária, o maior desafio é conseguir fazer com que cada um, em sua casa, observe o seu gato e consiga ver/perceber as mudanças comportamentais para que nós, clínicos, consigamos orientar-nos corretamente para o problema e atempadamente tentar a sua resolução.

Muitos animais vivem mais que a média, chegando até aos 20 anos; entretanto alguns fatores justificam essa longevidade: predisposição genética, tipo de ambiente em que vivem, alimentação e cuidados que receberá na geriatria.

Doenças mais comuns em gatos geriátricos:

1-Doenças articulares Estas doenças são muito comuns, principalmente em animais acima do peso. A doença articular mais comum é a artrose (desgaste articulação). Os sinais clínicos mais comuns dessas doenças são: claudicação, dificuldade de subir escadas/saltar, descoordenação motor, levantar com dificuldade e mudança nos locais de defecar ou urinar. As patologias articulares em gatos muitas vezes são de difícil diagnóstico, pois o gatinho em vez de conseguir saltar diretamente para cima da mesa, salta primeiro para uma cadeira para seguidamente saltar para a mesa. São pequeninas perdas de capacidades que muitas vezes podem ser desvalorizadas pelos donos.
2-Tumores/Neoplasias São frequentes; nas fêmeas o mais comum são os mamários que se manifestam como nódulos nas mamas. Todo nódulo que aparece no animal deve ser avaliado. O diagnóstico precoce pode salvar a vida de um animal com cancro.
3-Infecção uterina (piómetra) Outra doença frequente nas fêmeas. O útero do animal enche-se com secreção purulenta (pús). Sinais clínicos: apatia, vômitos, aumento de volume abdominal e corrimento vaginal. Deve ser imediatamente assistido por um médico veterinário.
4-Doença Periodontal Doença provocada pela acumulação de placa bacteriana e tártaro, levando a perda de dentes e doenças sistémicas (nos rins e coração) devido à migração dessas bactérias. Os animais devem ser avaliados anualmente. A prevenção consiste na remoção dessa placa periodicamente. Sinais clínicos mais comuns são mau hálito, dificuldade de mastigação e salivação. 5-Insuficiência Renal Quando os rins começam a perder a capacidade de filtrar e eliminar as impurezas/toxinas do organismo. Muito comum em felinos. Os sinais são emagrecimento, vómitos, ingestão exagerada de água, perda de apetite e anemia.
6-Diabetes Os sinais são ingestão acentuada de água, urina demais e pode estar associado ou não a catarata. Exames periódicos (glicemia) fornecem um diagnóstico precoce e um maior sucesso no tratamento.

 

*Andreia Araújo, médica veterinária na Clínica Veterinária Santa Teresinha