O meu testemunho no Hospital: cirurgião João Manuel Rodrigues e equipa sabem cuidar do nosso coração

Não gosto de falar na primeira pessoa porque o jornalismo me tem ensinado a dar esse “palco” merecido a quem faz o favor de me fazer chegar as notícias ao longo dos anos. Mas abri uma exceção nesta caminhada de discrição, em nome do sentido de uma gratidão que quero dar público testemunho.
Ao longo de muitos anos, nomeadamente na última década, o assunto “hospital” tem sido um filão de notícias, na maioria das vezes pela negativa: nomeações, despedimentos, renomeações, faltas de medicamentos, dívidas, greves, parque caríssimo e ruturas e mais ruturas. Ninguém entende o Hospital e o caldeirão de problemas e ligações é de tal ordem que talvez fosse bom vir Cristo à terra para arrumar esta casa.
Gostaria, no entanto, de dar testemunho de uma vivência pessoal, em contra-corrente a este ciclo de desvario que se tem apossado de uma instituição que só cuida da saúde de todos nós. No passado dia 21 de novembro, o meu pai fez uma cirurgia delicada ao coração. Com 76 anos de idade, quando precisava de ser operado a outra coisa, eis que os médicos, avisadamente, alertaram para a urgência de tratar do coração. Ficou entregue aos cuidados do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, no terceiro piso, nomeadamente aos médicos João Manuel Rodrigues, diretor do Serviço, Nuno Jardim e António Brazão.
Foi uma cirurgia longa e mais complexa do que prevista – os modernos exames de diagnóstico ainda não revelam tudo do doente – e o meu pai esteve na Unidade dos Cuidados Intensivos da Cirurgia Cardiotorácica durante uma semana, alguns dias em coma induzido, outros dias entubado. Foram momentos penosos e de muita proximidade com o Hospital Dr. Nélio Mendonça. Eis que o meu pai despertou lentamente e passou para a enfermaria do mesmo andar.
Ainda tenho em mim o cheiro a hospital e, também por isso, pede-me a consciência de dar público reconhecimento do médico João Manuel Rodrigues. Em primeiro lugar pela excelência do serviço que presta como médico aos seus doentes. E depois, talvez o mais importante porque escasseia nos tempos que correm, o trato humano, paciente e sereno com que segue os seus doentes e as respetivas famílias. Sem olhar ao relógio e respondendo a todas as perguntas com uma calma impressionante. Faço questão de sublinhar que não recorri a cunhas para velar melhor pelo meu pai, num hospital que diariamente dá nas vistas nem sempre pelas melhores razões.

Nos dias de nuvens cinzentas, que fazem parte da recuperação, passou-me pela cabeça que o deveria ter levado para o continente, para ser operado num hospital privado de referência, como faz a maioria dos nossos governantes e demais figuras públicas, embora digam para a fotografia que temos uma saúde superior e prefiram, retoricamente, ser tratados mais aqui do que no exterior. O meu pai estava bem entregue na sua terra. Vi diariamente neste serviço, por parte de médicos, enfermeiros e auxiliares um profissionalismo que importa assinalar. Sim, houve momentos pontuais de alguma falta de comunicação, quando o Serviço ficava lotado subitamente, mas tive a oportunidade de constatar que esta gente – técnicos auxiliares, enfermeiros, médicos… – trabalha além dos seus limites e que precisa de ter uma outra atenção pela abnegação visível ao serviço e aos doentes. Olhando para os demais serviços, numa casa tão grande e com a vida das pessoas nas mãos, interroguei-me, qual criança: por que não investir em força, do ponto de vista político neste projeto? Por que não recompensar, monetariamente e não só, quem aqui trabalha, desde os auxiliares, técnicos superiores, aos enfermeiros, médicos, diretores…? Já o terão feito alguma vez a sério, com uma gestão adequada? Um novo hospital apagará os delírios da saúde?

Durante cerca de um mês fui diariamente ao Hospital com a minha família. Abusámos no tempo dedicado à visita. Trocámos por isso os previsíveis mimos com algumas enfermeiras. Ainda por cima, corria notícia de uma suspeita de rapto de uma criança nas urgências… O mais importante: o meu pai foi melhorando e começámos a ver a luz ao fundo do túnel. Mais uma vez refiro a forma didática e paciente como o Dr. João Manuel Rodrigues acompanhava o caso, assim como o corpo clínico que dirige, em particular o Dr. Nuno Jardim. O Dr António Brazão acompanhou de início mas entrou de férias e deixei de ouvir aquela sua voz assertiva e explicativa de tenor, também ele com brios quanto baste como cirurgião cardiotorácico. Foco, como é óbvio, a minha atenção no médico que coube na “rifa” ao meu pai, o Dr João Manuel Rodrigues. Só me lembro de dizer que este médico faz parte de uma casta do antigamente, como conheci alguns, com um olhar mais focado no doente do que no status e no relógio.
Posso dizer que o hospital também ganhou comigo. Diariamente deixava uma pequena fortuna no escandaloso parque de estacionamento que o Governo Regional bem sabe que lesa os doentes e famílias.

O meu pai já regressou a casa, supostamente com um coração novo: três bypass e uma válvula aórtica nova, eis uma cirurgia típica do dois em um, num coração de 76 anos. Não está totalmente fora de perigo, como qualquer um de nós, e a medicina nunca foi uma ciência exata. É sabida a recuperação exigente que espera estes doentes. Mas está a resistir com garra e, sobretudo, com confiança no seu médico que teve a sorte de o seguir.
Reparei, nos dias passados nos corredores do Hospital, que o Serviço de Cirurgia Cardiotorácica tem a acreditação de qualidade de Bom (ver foto), por cinco anos, atribuída pelo Ministério da Saúde. No início, e associando às notícias de desordem hospitalar, ainda pensei, “pois… pois…” Hoje, acho que a placa peca pela nota modesta a todos os seus profissionais.
Além do meu “obrigado” ao Dr João Manuel Rodrigues e a toda a sua equipa, gostaria ainda de dizer algo que talvez nada vos interesse, em termos clínicos, ou sequer em termos da cientificidade da vossa prática. O Serviço de Cirurgia Cardiotorácica é um pedaço de céu na terra e felizes aqueles que têm o privilégio de serem tratados por certas “estrelas”, discretas, humildes, presentes e que fazem da defesa do doente a sua única coroa de louro. Não poderia ser de outra forma quando se fala de gente que se especializa em tratar do nosso coração, o centro da nossa vida.