100 anos de existência da República da Finlândia

In memoriam Hilkka Kauppila

Em Homenagem a Heikki kauppila

 

Cumprem-se, hoje, 100 anos de existência da República da Finlândia. Jovem, dinâmica e democrática, a Finlândia celebra este aniversário num quadro profundamente positivo nos planos interno e externo. É dessa dinâmica que resulta um equilíbrio político, geopolítico e geoestratégico que edifica este país.

A Finlândia passou a fazer parte do vocabulário mais comum dos portugueses, não só pela precedente notoriedade relativa à beleza feminina, mas também no que respeita ao seu tão comentado, porque sobejamente premiado, sistema educativo.

É em 1917, no âmbito de uma “complexíssima” conjuntura geopolítica, que se dá a separação entre a Rússia e o novo país.

Estas linhas não são, no entanto, uma reflexão histórica/académica mas tão só um modo de celebrar um país que aprendi a amar desde que, há exactamente trinta e seis anos, conheci, através do Dr. José Maria da Silva, no Cine-Fórum, uma cidadã finlandesa, Arja Kemppainen. Desta feliz conjugação e deste frutífero encontro, nasceram muitas actividades de promoção da Finlândia, na Madeira, eventos de natureza académica, cultural e artística, sempre com a colaboração visionária do Cine-Fórum, através do seu presidente e mentor. Foi, então, que Arja Kemppainen ficou responsável pelo primeiro Curso de língua finlandesa, na Madeira, curso que, infelizmente, fecharia três anos mais tarde por falta de alunos. A dificuldade de aprendizagem, as profundas diferenças entre as línguas latinas e a herança fino-úgrica do Finlandês, mais precisamente (e segundo alguns académicos) a herança urálica, tornaram a tarefa de aprender esta língua, desmotivante para muitos. Por essa altura, a cidade do Funchal era um destino turístico privilegiado para muitas famílias finlandesas. Recordo que o balanço semanal de voos chegou a ser de cinco/seis aviões, o que provocava, sobretudo nas pessoas ligadas à hotelaria e ao turismo, uma vontade genuína de colocar o finlandês no currículo. Através da generosa diligência de Arja Kemppainen, que o Turismo da Madeira já distinguiu com mérito turístico, foram muitas as personalidades, da cultura à política, passando pelas empresas, que ficaram a conhecer e a visitar a Madeira. Arja era, nesses anos, representante da Finnair, na Região e dirigia o escritório local do Agente de Viagens, Aurinkomatkat. Hoje aposentada, escolheu viver a maior parte do tempo entre nós, uma escolha natural segundo a própria.

É justa e merecida a homenagem que presto a esta Mulher que dedicou uma vida a contagiar os outros com amor ao seu país, reconhecendo e elevando a região que escolheu como sua segunda casa, convidando as mais diversas personalidades para visitarem esta sua segunda casa. Tal como eu, muitos foram os madeirenses que foram motivados a conhecer o que, até então, era um país distante e do qual existiam poucas referências.

[Os meus laços familiares com o país chegaram mais tarde]

A Finlândia foi, durante muito tempo, uma região integrante do Reino Sueco, razão pela qual ainda existe uma população (embora minoritária) de sueco-finlandeses e que fez com que o sueco seja, a par do finlandês, língua oficial. Mais tarde, e até Dezembro de 1917, a Finlândia era, do ponto de vista administrativo-político, uma região autónoma da Rússia. A sua população sofreu um aumento muito significativo desde a independência, mas estabilizou à volta dos 5 milhões e quinhentos mil cidadãos (à volta de dois milhões, no estrangeiro), muito marcada por uma herança de lutas pela sua independência (a Guerra com a Rússia, em 1917, e mais tarde, com a então já União Soviética, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, na que ficou conhecida como a “Guerra de Inverno”). Esta vocação para a independência, sobretudo em disputa directa com um poderoso vizinho (agora Rússia, novamente) com quem mantém uma fronteira de cerca de 1300 km, representa uma das características mais marcantes do século XX mas que, aos poucos, se dilui (como seria expectável) através de gerações que apenas conheceram a Paz.

É um país imenso, com uma população reservada, por natureza, expressando-se numa língua quase inacessível aos povos latinos, pelo intrincado sistema gramatical que torna “perversas” as regras, o que contribui para uma sensação de distância, também linguística. Desde a adesão à União europeia que o país se tornou mais disponível aos visitantes, mais cosmopolita, não tendo, no entanto, abdicado da herança urálica, do silencioso respeito, dessa reserva tão frequentemente confundida com “frieza”.

A melancolia dos lagos, as suaves neblinas e a infindável floresta representam um imaginário antes construído na Música, na Literatura e nos livros de viagens (em tempos pré-Internet). O grau de literacia entre adultos é elevadíssimo. Não me refiro apenas a uma literacia básica e/ou elementar. Refiro-me, igualmente, à Cultura (com maiúscula). Entre os habitantes mais remotos, o povo Saami (que se encontra protegido por legislação específica que lhe concede direitos especiais) habita a região mais a Norte, conhecida entre os ocidentais como Lapónia. É a “nação” de um povo que partilha três países e a quem o “progresso” vai retirando as características de nomadismo que sempre o definiu. As renas, animais resilientes e resistentes ao intenso frio do Norte, representam uma espécie de mito fundador que é interessante conhecer e respeitar: https://www.youtube.com/watch?v=ZZIU7KEis3w

Quando ecoa “Finlândia”, de Sibelius (https://www.youtube.com/watch?time_continue=1&v=F5zg_af9b8c), há um hino ao carácter que se define pela palavra “Sisu” (a força, a coragem, a determinação e a bravura, a resiliência) do qual a agreste paisagem de inverno, tempestuosa e lamacenta é evidência. Por outro lado, na sinfonia Sibeliana, encontra, igualmente, expressão a chegada a neve, a luz natural da paisagem que diz o silêncio ancestral deste lugar onde as auroras boreais nos ligam, de forma inusitada e inefável, à mãe-origem, Vila Láctea.

Esta particular ligação/veneração/respeito à/pela natureza parece-me o traço mais evidente de um povo que construiu um país-referência internacional em, pelo menos 17, domínios de análise credibilizada pelos mais diversos institutos e organizações. Desses domínios, refiro a Educação, a literacia, a segurança, a protecção das minorias e do meio ambiente, a igualdade de género, o cuidado com a infância, a inovação, o baixo índice de corrupção e o elevadíssimo índice de ética empresarial. Em todos estes componentes a Finlândia situa-se, na classificação, sempre entre os primeiros três, sendo que lidera a quase totalidade.

No intervalo entre a escuridão do inverno finlandês e a euforia da celebração do Sol da meia-noite, em Junho, situa-se a poética dedicação à luz e ao calor, uma e mesma emanação do fogo. Dos lagos gelados, no inverno dos cristais de neve, do despontar das primeiras plantas e flores, na primavera, as estações são, ainda, distintas e representam as diferentes fases de apreço e hino à natureza do país mais florestado da Europa, com maior reserva de água, com menor risco de desastres naturais e o terceiro, no mundo, com melhor qualidade do ar.

É imensa a valorização das artes manuais, do artesanato e do design industrial como emanação deste, da tecnologia como conceptualização de ambos. É deste respeito pelos primórdios e pelos bens naturais que se edificou uma grande, grande Nação.

“Sisu” é, igualmente, esta mágica ligação à ancestralidade, aos duendes protectores da Sauna, à epopeia heróica, Kalevala, compilada e organizada por Elias Lönrot (no século XIX) e cuja personagem principal, Väinämönen, representa o poder mágico e universal da música, através do qual é ganho poder sobre os seres vivos, assim como sobre os objectos:

“Cantos o frio recitou,

a chuva poemas me disse.

Canções os ventos trouxeram,

outras as ondas do mar.

O planar das aves,

palavras, frases as copas das árvores.

Com elas o novelo fiz,

arranjadas enrolei.

No trenó pus o novelo,

no trenel novelo meti;

no trenó para casa o levei,

no trenel para o celeiro,

a um canto ali o deixei,

numa caixinha de cobre.”

 

Kalevala, Canto I

 

Cumprem-se, hoje, 100 anos deste país que enfrentou duras batalhas para libertar-se de um vizinho opressor. Essa opção de bravura e de valentia produziu um dos países mais valiosos do mundo e essa vincada característica política demarca-o dos países que integraram a União soviética e que, ainda hoje, encaram múltiplas dificuldades não só de sobrevivência, mas de adaptação aos sistemas democráticos que a pertença à União europeia determinou. No entanto, e durante anos e por muitos mais, o papel desempenhado pela Finlândia como país neutro (sobretudo nos tempos da Guerra-fria) mantendo uma actividade comercial significativa com a União Soviética, tem sido prova da sua relevância geopolítica e geoestratégica, mas tem, igualmente, sido o país integrante da União europeia que mais foi penalizado com as sanções impostas por esta à (agora) Rússia. Actualmente, recupera de uma crise que conduziu a um difícil equilíbrio entre as suas políticas sociais e uma taxa de desemprego que antes não conhecera. As principais empresas que sustentavam a pujante economia finlandesa, quer nas suas repercussões externas, quer na dimensão da inovação, sobretudo tecnológica, faliram. É com muito esforço, muito “sisu” que os níveis de progresso e de crescimento vão, mesmo que lentamente, recuperando. O que é extraordinário é que, mesmo enfrentando a sua mais pesada crise, desde a independência, o país não deixou de ocupar os principais lugares dos mais diversos “rankings”, como acima referi. É num permanente espírito e atitude de reinvenção, de colocação em causa para melhorar e progredir que este país se institui como paradigma de tudo o que uma nação melhor pode oferecer aos seus habitantes.

 

Por todo o mundo, os principais monumentos de tantas capitais serão iluminados com as cores azul e branca. Em Lisboa, a Torre de Belém, também. Por iniciativa de Arja Kemppainen, no Funchal, ocorrerá um encontro entre finlandeses e amigos da Finlândia, sendo o lema das celebrações, ao nível internacional, “Yhdessӓ” (juntos).

 

Da inóspita paisagem, do valor da luz e do calor, do misticismo e da exaltação da natureza, a Finlândia conjuga o verbo enunciado por este “Romance” de Merinkanto https://www.youtube.com/watch?v=a1HZ3NYUTUk e que o hino do país “Maamme (a nossa terra) recorda a cada letra: https://www.youtube.com/watch?time_continue=2&v=PX7cPorwX5M. Sublinhe-se que este hino não contém qualquer apelo a guerras, armas, lutas ou contendas, mas apenas exalta a nação e a sua maravilhosa geografia, em todo o seu esplendor.

 

“ (…) O teu esplendor, da sua concha,

um dia florescerá,

Do nosso amor nascerá

a tua esperança, a gloriosa alegria,

e assim um dia, pátria,

o teu cântico mais alto ainda ecoará (…)”

 

Celebremos!

Feliz dia da Independência!