Suspender a democracia ou suspender a comemoração da Restauração da Independência

A 1 de Dezembro de 2016, data da Restauração da Independência e soberania nacionais, Marcelo Rebelo de Sousa, à época já Presidente da República, afirmou de modo inequívoco, sublinhe-se inequívoco, que o “feriado nunca deveria ter sido suspenso”.
Numa espécie de virose do verbo suspender, o governo anterior ia mesmo fazendo escola, com alguns dos seus partidários a ousarem mesmo atirar para o ar a sugestão (salazarenta, fáscia ou, igualmente, digna de ditaduras de esquerda como a Coreia do Norte ou a Venezuela) de “suspender a democracia”.
Palavras sábias de Manuela Ferreira Leite, na suposta ironia, de querer explicar por que falham os governos. No seu, chamemos-lhe visionário, entender mais valia suspender por uns 6 meses a democracia para se fazerem todas as reformas necessárias e só depois, então, repô-la.
Discursando como convidada na Câmara de Comércio Luso-Americana em Lisboa, Leite confessou ser pouco crédula no que toca a fazer reformas em democracia. Conforme regurgitou a ex-ministra das Finanças: “Eu não acredito em reformas quando se está em democracia”.
Um Fidel ou um Salazar de saias não o pensariam ou diriam melhor, estou certo.
Mesmo lendo as palavras de Leite em registo irónico, surgiram “em catadupa” reações de protesto sucessivas em todos os partidos, incluindo algumas do interior do próprio PSD, que não acharam graça alguma à infeliz piadola. Felizmente, ainda há gente que não suspendeu a atividade cerebral.
Da minha parte, não embarco na tese do azedo gracejo. Parece muito mais legível que o que realmente aconteceu foi ter-lhe fugido a boca para a verdade. Mais, para o indisfarçável substrato ideológico e para a mais profunda convicção.
“Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia”, adiantou com rigor aritmético. Afinal, eram só seis meses e entraria tudo nos eixos. Então, sim, é que seria ver Portugal a crescer como as farfalhudas barbas da moda.
Será Manuela Ferreira Leite um clone de Margareth Tatcher? Só Deus é que sabe.
Outro exemplo de suspensão da democracia foi, sem dúvida, a tentativa de abolição, entre outros, do feriado do 1º de dezembro pelo governo anterior.
Acerca da anulação da suspensão dessa conquista da democracia, o direito, ou melhor, o dever de celebrar a data da Restauração da Independência, Marcelo Rebelo de Sousa dizia: “A nossa pátria depende da nossa independência”.
E, por falar em pessoas presentes na cerimónia, embora sem surpresa, tomei nota de que estavam por ali aos magotes, sem um pingo de vergonha na cara, alguns daqueles que no anterior executivo assinaram sem pestanejar a suspensão do feriado, em nome de uma alegada maior produtividade, provando à saciedade o seu lambe-botismo militante à Deusa “Troika”.
Não nos atrevemos a incluir aqui os nomes desses “filhos da nação” (talvez de outro planeta ou galáxia) por uma singela razão: incorreríamos no risco de esquecer alguém, o que seria pouco democrático.
A “questão essencial” é que, para provar o seu fervor patriótico, alguns desses “portugueses de corpo inteiro”, fizeram questão de envergar na fatiota o mesmo “pin” com a bandeira nacional, exatamente aquele que exibiam quando suspenderam o feriado sem qualquer hesitação ou pudor. Imagine-se que foram capazes de manter-se, de pé, sem pio durante o hino, e até tiveram estômago para bater palminhas teatralizadas aos discursos patrióticos!!! Deve ter sido um sacrifício colossal… vá, uma via sacra, para sermos mais precisos.
Se calhar é a isto que chamam o “circo político”, já que tão hipocritamente há gente que se presta a estes jogos malabares. Mandá-los ir morar na Central Nuclear de Almaraz, até que venha o Diabo anunciado por Passos Coelho, (o “patriota” que mandava emigrar, tratando os genuínos portugueses pelo arrogante, sobranceiro e humilhante adjetivo “piegas”) quiçá não fosse mal pensado… Ao menos, a Pátria andaria mais bem frequentada.
Confesso que ainda rezei para que uma ou outra das cadeiras dessas e desses “patriotas” desabassem no palanque, mas as minhas preces, infelizmente, não foram atendidas. Talvez não tenha rezado com muita fé ou (quem sabe?) o número suficiente de Terços…
Não obstante, há que deixar neste espaço uma palavra de apreço a uma honrosa exceção, mais concretamente a do coordenador-geral do Movimento 1.º de Dezembro de 1640, José Ribeiro e Castro, antigo presidente do CDS-PP, que valorizou a reposição do feriado do 1.º de Dezembro, ao arrepio das posições de muitos dos membros do seu partido, incluindo Cristas, que já não estou certo se é Tuga ou do Togo…
Nada como as palavras do Presidente da República como “recado” para aquelas(es) que, em lugar de orgulhosos filhos da Pátria ou Mátria, (terra-mãe, como preferia Natália Correia) antes parecem ser “filhos das ervas”.
Terminamos, pois, com a lição de patriotismo do Chefe de Estado que esses sem-Pátria nunca aprenderam ou aprenderão: “para que se possa cumprir o que é para nós indiscutível, como foi para os bravos de 1640 — um Portugal verdadeiramente independente, que não é uma abstração, que é feito de milhões e milhões de portugueses e portuguesas ao longo dos séculos”.
Acredito que se fossem eles, os Miguéis de Vasconcelos ou as duquesas de Mântua a continuar a governar, por esta hora estaríamos a substituir o 1º de dezembro pelo “patriótico”, “Black friday” ou pelo muito tradicional, cultural e historicamente português “Halloween”.
Quem não concorda com o feriado, tem bom remédio: vá trabalhar, e ofereça o vencimento à “Ajuda de Berço” ou à “APAV”. Sempre faz algo de minimamente patriótico e produtivo.