Polícias descontentes gritam bem alto a sua revolta no centro do Funchal

Fotos: Rui Marote

As manifestações têm-se sucedido nas ruas do Funchal, a um ritmo a que os madeirenses desde há muito tempo não estavam habituados. Desta feita, foram os polícias os protagonistas de uma concentração que principiou na Praça do Município e que, juntando cerca de uns duzentos agentes, percorreu as principais artérias do centro da urbe, reclamando alto e bom som, de viva voz e com estridentes apitos, a concretização do que entendem ser os seus direitos.

A manifestação reuniu membros de diversas forças de segurança, que incluíram Polícia Marítima e GNR, e diferentes estruturas sindicais, mas os principais participantes foram agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), que exibiram os seus crachás de identificação de forma bem visível frente ao Palácio de São Lourenço, residência oficial do representante da República. Foi a primeira paragem depois de a manifestação percorrer a Rua dos Ferreiros, Largo do Chafariz, Rua do Aljube e placa central da Avenida Arriaga, descendo depois pela Avenida Zarco até à frente da porta principal do Palácio.

Curiosamente, o representante da República, Ireneu Barreto, chegou pouco depois de os polícias terem chegado à frente do portão, mas, ao aperceber-se da manifestação, optou por entrar não pela porta da frente, mas por uma porta lateral.

Ireneu Barreto entrou por uma porta lateral do Palácio.

Ao Funchal Notícias, o agente da PSP Eduardo Nóbrega, porta-voz da iniciativa e dirigente do Sindicato de Polícia pela Ordem e Liberdade (SPPOL) na Madeira, explicou que as principais reivindicações dos participantes na manifestação prendem-se com o congelamento das carreiras. “Até agora as mesmas não foram descongeladas, nem se verificou aumento de ordenados”, queixou-se. E estas medidas são consideradas fulcrais pelos polícias. A dualidade de critérios com que os profissionais das forças de segurança são tratados pelas estruturas governamentais também não agrada. “Umas vezes somos Função Pública, outras vezes somos regidos pelo Estatuto da Polícia. Nós pretendemos saber qual é, afinal, a nossa definição. E é isso que pretendemos ao estabelecer esta posição: definir a nossa situação”, declarou.

Para Eduardo Nóbrega, se são descongeladas as carreiras à Função Pública, e se se verificam aumentos de ordenados, porque é que o mesmo não se pode aplicar às forças de segurança. A insatisfação dos polícias deriva daí.

Os polícias queixam-se também de ser penalizados nos horários, ao cumprirem 40 horas semanais quando deviam fazer 36, quando em Dezembro de 2015 foi revogada, no artigo 57 do Estatuto, a situação de fazer essas quatro horas a mais. “Mas continuamos a fazê-las”, denunciou. “Isto é vergonhoso”, considerou, “uma vez que não há quem endireite estes casos irregulares.

“Temos pessoal aqui com três ou quatro escalões, que já deviam estar mais à frente, e que estão a perder muito dinheiro. O que pretendemos é que descongelem as nossas carreiras e que nos coloquem nos escalões correctos”, reivindicou.

O Estado tem tratado “pessimamente” a polícia, referiu. “É preciso ver que cada homem destes é um barril de pólvora, e o rastilho está cada vez mais curto. Estamos a chegar a uma situação de desgaste total e grande insatisfação para nós”.

Eduardo Nóbrega recordou as promessas de Miguel Macedo, ministro da Administração Interna de 2011 a 2014, mas “até hoje nada foi definido, foi o dito por não dito”.

Agora, o que os polícias querem é que a actual ministra do Governo de António Costa, Constança Urbano de Sousa, faça com as situações sejam de imediato regularizadas, aplicadas e publicas no Diário da República.

“Já não vamos em cantigas… delas já estamos fartos, e a nossa palavra é Basta, Basta, Basta! de continuarmos a ser injustiçados”.

E foi assim que os polícias tomaram as ruas da cidade, gritando slogans como “a luta continua, a polícia está na rua”, e gritando bem alto a sua insatisfação com a situação profissional, salarial e de progressão nas carreiras.