Muita animação na Ponta do Sol no Festival Aqui Acolá; etnografia, música, literatura, artes e tradição entrecruzam-se

Fotos: LR

A vila da Ponta do Sol encontrava-se hoje à tarde significativamente movimentada com as diversas realizações do Festival Aqui Acolá, uma iniciativa descentralizadora da arte e da tradição, que procura animar a localidade através dos esforços concertados das associações culturais do concelho, nomeadamente o Grupo de Folclore, a Associação Retoiça, a Casa do Povo, a Banda Municipal, a Associação Avesso, e a edilidade e a Escola Básica e Secundária local.

A movimentação era notória, com artistas presentes a trabalhar nos seus projectos culturais ou artísticos, com os intervenientes de grupos folclóricos a demonstrarem temáticas etnográficas e culturais ancestrais, com a música e a animação de rua, e com a presença de turistas e interessados vindos de outras localidades. Estacionar na Ponta do Sol era hoje quase tarefa impossível.

Presentes estiveram também diversas entidades, entre as quais o secretário regional da Agricultura e Pescas, Humberto Vasconcelos, e o presidente da Câmara Municipal, Rui Marques.

As actividades do certame dividiram-se entre diversos workshops, de cariz botânico-científico, histórico-cinematográfico, gastronómico, etc. A tuna ‘Estudantina da Madeira’, o grupo de folclore do Rochão e o seu homólogo da Ponta do Sol proporcionavam a animação musical e de rua, inclusive demonstrando técnicas ancestrais com a do fabrico de cestos através do recurso a vimes. Depois da actuação do músico Tim, dos Xutos & Pontapés, de Cristina Barbosa, do ballet da ADAM ‘Les Sylphides’, de teatro pelo grupo Peripécia e de animação jazzística pela Dixieland Jazz Band, em dias anteriores, ontem foi ocasião para o colaborador do Funchal Notícias, Zé Abreu, um homem do teatro, apresentar na capela de São Sebastião o seu livro de crónicas sobre temas culturais, publicadas nas nossas páginas.

Cortesia Foto Canhas

Esta colectânea intitula-se “Tempo de Cultura” e surge nas Edições Hórus, reunindo mais de duas dezenas de crónicas que têm sido um exercício de crítica construtiva e de reflexão sobre diversos aspectos relevantes do sector cultural na Região.

Foi também exibido um documentário sobre um acontecimento histórico relevante para a localidade, a Revolta do Leite.

Também um conhecido cidadão local apresentou o livro intitulado “Memórias de uma vida”, e o escritor e jornalista Mário Zambujal, presente na Madeira também para participar na Feira do Livro do Funchal, aproveitou para depois lá dar um salto, para uma conversa sobre temáticas literárias. Seguiu-se música pela noite dentro com Rouxinol Faduncho e Mafalda Arnauth, entre outros.

Amanhã, o último dia do evento, continua o festival com propostas diversificadas que vão desde a dança à música e ao lançamento de livros.

Imperdível deve ser a oportunidade para apreciar as intervenções de arte pública realizadas no local, entre as quais sobressai a obra da artista plástica Patrícia Sumares denominada “Parede de Memórias”, na qual esta criadora, cujo trabalho se caracteriza pela exploração do rosto humano a três dimensões, apresenta um enorme painel no qual reproduz centenas de caras de pessoas reais, cujos moldes foram por si elaborados e depois reproduzidos de propósito para obter este monumental efeito de conjunto. Perturbadora para uns, reflexiva e libertária para outros, este trabalho artístico destaca-se pela ambição e esforço da artista e pelo facto de, inquestionavelmente, não deixar ninguém indiferente: está carregado de significado, embora Patrícia Sumares a apresente como uma obra aberta à interpretação de cada um. Este trabalho assume ainda diferentes facetas, variando de forma assinalável entre o efeito produzido durante o dia e aquele obtido à noite, com iluminação artificial.

As obras de outros criadores exibidas no local têm, todavia, também mérito indubitável e vêm enriquecer visualmente o espaço da vila. Há mesmo quem se dedique a percorrer as artérias da mesma com uma exposição itinerante, na qual os quadros, à venda, são transportados por diversas pessoas, pendurados ao pescoço.

O Centro Cultural John Dos Passos, entretanto, apresenta uma mostra sobre o famoso escritor norte-americano cujos antepassados têm origens no concelho.