O Papa Francisco veio a Fátima. E agora?

  1. Muito bem. O Papa Francisco veio a Fátima e vamos ficar só naquilo que alguns têm dado conta, «foi bonito»? – É pobre se for apenas isto. Pois, se for, não era necessário terem gasto somas tão avultadas para lá se dirigirem, bastava ligar o televisor e assistir calmamente ao espetáculo.
  2. Esta pergunta – e agora? – impõe-se porque o Papa Francisco veio a Fátima colocar os pontos nos is, mesmo que alguns venham agora dizer que não foi bem assim. Foi sim senhor.

Por exemplo nestas perguntas: «Peregrinos com Maria… Qual Maria? Uma «Mestra de vida espiritual», a primeira que seguiu Cristo pelo caminho «estreito» da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora «inatingível» e, consequentemente, inimitável? A «Bendita por ter acreditado» (cf. Lc 1, 42.45) sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma «Santinha» a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjetivas que A veem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?» (BÊNÇÃO DAS VELAS SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE, Capelinha das Aparições, Fátima, Sexta-feira, 12 de maio de 2017).

Nada pode ser como dantes e à Igreja portuguesa compete refletir seriamente sobre estas perguntas e torná-las operacionais na sua pastoral. Fátima, não pode ser um lugar apenas para encher os olhos da cara, a troco da cegueira espiritual da alma, longe do mistério de Deus e da ação radicada na práxis do Evangelho de Jesus de Nazaré, que era prático e próximo sem que se saiba que necessitasse de andar em santuários para se encontrar com o Pai.

  1. Ainda nesta mesma saudação descobre-se uma eloquente chamada de atenção para que nos centremos na misericórdia de Deus. Diz assim: «Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 288). Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo» (BÊNÇÃO DAS VELAS SAUDAÇÃO DO SANTO PADRE, Capelinha das Aparições, Fátima, Sexta-feira, 12 de maio de 2017). Maria é a «educadora» da misericórdia de Deus, só pode, porque sim, ser esse luzeiro que nos conduz à misericórdia de um Deus que não sabe senão perdoar sempre. Por isso, precisamos de uma Igreja portuguesa que seja mais aberta a todas as dinâmicas humanas, que se livre do quentinho dos redutos que frequentemente cria para proteger-se da vida preconcebida e fugindo dos meandros do mundo de hoje como o diabo foge da cruz. O desafio do Papa Francisco de uma Igreja «em saída», continua de pé também para a nossa Igreja portuguesa.
  2. Outro dado sintomático veio da homilia do dia 13 de maio, que foi muito citado pelos meios católicos: «Queridos peregrinos, temos Mãe, temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus» (MISSA COM O RITO DA CANONIZAÇÃO  DOS BEATOS FRANCISCO MARTO E JACINTA MARTO, HOMILIA DO SANTO PADRE, Adro do Santuário de Fátima, Sábado, 13 de maio de 2017).

Quer dizer, «temos mãe», mas «agarrados a Ela», a esperança que nos anima vem de Jesus. Por aqui se percebe claramente que Maria é Mãe, Mãe de Jesus e nossa Mãe, mas com isso, só somos o que somos porque Jesus, o Filho de Deus, nascido de Maria, é o conteúdo máximo do acreditar. É esta pastoral que nos falta clarificar, para que o devocionismo tão exacerbado que nos rodeia, seja educado e canalizado para o centro da fé e da esperança.

  1. Finalmente ficou o apelo para que a Igreja se concentre de verdade no caminho da conversão à vida e ao mundo. Disse: «o Céu desencadeia aqui uma verdadeira mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar. Não queiramos ser uma esperança abortada! A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida» (MISSA COM O RITO DA CANONIZAÇÃO  DOS BEATOS FRANCISCO MARTO E JACINTA MARTO, HOMILIA DO SANTO PADRE, Adro do Santuário de Fátima, Sábado, 13 de maio de 2017).

Sim a uma Igreja neste espírito do Papa Francisco, inspirada na maternidade e dedicação de Maria ao Seu Filho, de joelhos diante de Deus, mas de pé diante dos homens, para que possa caminhar com a humanidade pelo caminho da fraternidade e da paz, sem que ninguém «fique para traz».

Uma Igreja que inclui, contra todas as formas de exclusão, uma Igreja em marcha com o seu povo, porque animada na luta contra a pobreza. Uma Igreja capaz de dizer não perante as injustiças, venham de onde vierem. Uma Igreja desinteressada dos património que não sabe gerir nem muito menos reutilizar. Uma Igreja livre do fundamentalismo e sempre iluminada pela sabedoria reinterpretada à luz do Evangelho para dar resposta à velocidade da vida dos tempos atuais…

As várias mensagens do Papa fizeram-me sonhar com uma Igreja capaz de ser Igreja, despida de todas as formas de poder, simples, humilde e fraterna, sem que deixe ninguém para trás. Uma Igreja que se converta todos os dias, porque todos os dias assume que falha.

Que a vinda do Papa a Fátima tenha feito soar os alertas e anime todos os cristãos católicos praticantes ou não, a beberem o cálice da paz e do amor que animou esta peregrinação do Papa Francisco ao santuário de Fátima e que tão bem ele expressou nas mensagens. Mau será se nos ficamos mais uma fez no «foi bonito» apenas até à próxima grande festa que alguém se lembre de promover e organizar.