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A expressão chegou, recentemente, ao património linguístico do cidadão mais comum e tem vindo a ser utilizada nos meios da política e das suas múltiplas vozes, os media. Foi eleita, na categoria de palavra, como a do ano de 2016 e esse facto outorgou-lhe uma (ainda) maior notoriedade. Mas o que o justificou? Duas realidades políticas que elevaram a política e a sua discussão a um elevado nível de participação e discussão populares: o Brexit e a campanha (e posterior eleição) de Donald Trump.
Na definição proposta pelo Dicionário de Oxford (responsável pela sua promoção a palavra do ano) pode ler-se: “Os factos objectivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e às crenças individuais”.
Numa entrevista recente, o Professor A.C. Grayling, que ficou conhecido, aliás, pelas suas posições contrárias ao Brexit referiu uma história antiga que aqui reproduzo: em 1952, aquando de uma das contendas eleitorais norte-americanas, foi garantido ao democrata Adlai Stevenson, o seguinte: “Todas as cabeças pensantes deste país votarão por si”, ao que ele terá retorquido “Muito bem, mas eu preciso de uma maioria”. Não venceu.
Nestes últimos dias, a palavra surgiu – de forma recorrente e, a meu ver, excessiva – no âmbito das quezílias entre partidos do governo e da oposição, em Portugal, carregando significados diversos, sendo aplicada a diferentes realidades e atitudes. As televisões armam-se de comentadores, representantes (não-declarados) de interesses económicos (logo, políticos). Os “antes” jornalistas são cada vez mais comentadores e os que parecem ainda exercer qualquer coisa que se assemelhe, afinal são apenas “animadores” de emissão… Nas redes sociais, os caciques contam “likes” e “dislikes” e contam, ainda, com os “lovers” e os “haters” pagos, pelos partidos, com os nossos impostos, para promover ou fazer estrago, fenómeno que é comum às múltiplas TVs que por aí emitem.
O cidadão comum (onde me incluo) fica, assim, sem fontes credíveis de decisão acerca das supostas notícias e o estado de desnorte justifica, da parte de cada um, a adesão afectiva a este ou aquele projecto, a este ou aquele partido, a esta ou aquela personalidade. Estamos, assim, no quadro do que até agora parecia jocoso “Maria-vai-com-as-outras”, processo que se caracteriza, em léxico mais assertivo, pela imitação da voz do dono. A mimese (latu sensu) exibe, deste modo, a face escancarada da globalização, servida pelos media e consubstanciando, nas palavras de Grayling, “ a corrupção da integridade intelectual” e um perigo quanto “ao edifício da Democracia”.
Daqui resulta um processo – intensamente tóxico – já não de argumentação (esta deveria ser sempre intelectualmente íntegra) mas de acusação mútua de uma e a mesma coisa como critério de validação de um comportamento dessa natureza. Explicando e recolocando quanto à realidade portuguesa a que me referi, não foram apresentados argumentos e contra-argumentos relativamente à “questão Centeno-CGD-Domingos”. As pessoas limitaram-se a validar a suposta mentira de uns com as anteriores mentiras de outros num quadro de infantilização da discussão política, sobrepondo-se à necessária e desejável credibilização da mesma. Numa enunciação do ridículo, poderíamos dizer que “Centeno mentiu porque é legítimo mentir dado que Portas mentiu e Passos ainda mais” ou “Centeno não mentiu mas mesmo que tivesse mentido poderia tê-lo feito porque já Portas mentira e Luísa Albuquerque também, de modo que não faria mal nenhum ter mentido até porque, mesmo tendo mentido, quem teria autoridade para evocar a verdade se todos mentem?”
Aqui chegados, devo confessar, com quase perplexa ingenuidade, que não faço a mais pequena ideia se Centeno terá mentido, ou não. Se Portas ou Passos mentiram mais do que ele etc. etc. etc.
No entanto, lamento e lamento profundamente, que a comunidade (dita) científica se coloque ao lado da escolha político-partidária (embora seja esse um seu direito, como é óbvio) e não do exercício crítico acerca dos fenómenos de manipulação dos factos e da contra-informação que subjazem ao “populismo” (latu sensu), por exemplo. É decepcionante quando, a qualquer tentativa de discussão de ideias, nos é oposto um imaginado ataque de carácter sendo que este passou, igualmente, a ser argumento usado contra o “fact-checking” (ou verificação da veracidade dos factos).
No relativismo (o filosófico, o jurídico, citando apenas estes) terá a “pós-verdade” encontrado o seu chão mais suave. No bullying das redes sociais, das TVs e dos jornais, os seus canais mais eficazes.
Em que lugar fica o cidadão? Em que lugar fica o eleitor? Muito sinceramente, não sei. Mas que Donald Trump foi eleito, é um facto. Que nos parlamentos dos países democráticos (?) da União europeia pululam representantes de partidos que advogam exactamente o contrário da Democracia, é um facto.
Por cá, tal como lá, gerem as redes sociais, as tvs e jornais os “petits” e os “grands” Salazar do nosso descontentamento.
Ninguém se queixe. São todos “bonzinhos”, são os … herdeiros.
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