João Alberto Bacelar da Rocha Páris foi embaixador junto da Santa Sé, cargo para o qual foi nomeado a 15 de Setembro de 2004.
Ficou em Roma até 2010, tendo tido um papel relevante na preparação da visita a Portugal do então Papa Bento XVI, em Maio de 2010.
Quando estamos a pouco menos de três meses da visita do Papa Francisco a Portugal, em Maio de 2017, Rocha Páris contou ao Funchal Notícias a sua experiência diplomática neste tipo de eventos:
“A visita de Sua Santidade o Papa Bento XVI a Portugal, em Maio de 2010, foi o último acontecimento que teve lugar na minha carreira diplomática, visto que, por ter atingido por essa altura a idade limite para o serviço no Quadro Externo, tinha necessariamente que deixar Roma e regressar definitivamente a Lisboa.
Foi uma visita cuidadosamente preparada tanto pela Igreja, nos seus vários aspectos pastorais, como pelas autoridades portuguesas. Centrou-se, naturalmente, na presidência por Sua Santidade das cerimónias religiosas que, em Fátima, integraram a peregrinação do dia 13 de Maio.
Como era de esperar, a afluência de peregrinos foi muito grande, o que se constatou especialmente na Procissão das Velas da noite do dia 12. A Cova da Iria, pejada de pontos luminosos, transmitia uma sensação de religiosidade muito forte, à qual dificilmente se poderia ficar alheio. O mesmo sucedeu, aliás, no dia seguinte, na cerimónia de encerramento da peregrinação, a que o Santo Padre Bento XVI presidiu.
Do local em que estávamos colocados, juntamente com a restante comitiva, a minha Mulher e eu podíamos ver a Cova da Iria impressionantemente cheia de peregrinos, tão cheia que dava a impressão de não existir nela qualquer espaço vazio em que pudesse caber mais alguém.
Do período que Sua Santidade permaneceu em Lisboa, recordo-me especialmente da Missa que foi celebrada no Terreiro do Paço, num cenário majestoso enquadrado pelo Tejo cheio de embarcações que, dos mais diversos tipos, tinham querido associar-se à recepção e à homenagem a Sua Santidade.
Também guardo uma muito boa recordação do encontro que o Papa Bento XVI teve com intelectuais portugueses, no Centro Cultural de Belém, muito especialmente a forma como recebeu e conversou com o cineasta Manoel de Oliveira, escolhido para, suponho que em nome dos presentes, o saudar e com ele se encontrar especialmente no decurso da cerimónia.
A última etapa da visita papal levou Sua Santidade ao Porto. A deslocação foi feita em helicópteros da Força Aérea, pelo que a aterragem de todos nós aconteceu na Serra do Pilar. Durante o percurso para a Avenida dos Aliados, o Santo Padre foi ininterruptamente acolhido e saudado com grande cordialidade pela população, que o aplaudiu sem cessar e com grande carinho.
Também na Missa que foi celebrada na esplanada da Câmara Municipal foi impressionante a moldura humana que a Avenida dos Aliados apresentou, da qual fazia parte, se a memória não me falha, um muito considerável número de entusiasmados jovens.
De acordo com o Protocolo que rege em detalhe estes acontecimentos, coube-me o privilégio de, enquanto Embaixador de Portugal junto da Santa Sé, ter sido convidado para regressar a Roma no avião papal e é por uma recordação do que então se passou que quero terminar este depoimento.
Pouco antes da aterragem, vieram dizer-me que o Santo Padre queria receber os jornalistas portugueses que acompanhavam a comitiva, assim como a tripulação do avião, que era da TAP. Mas queria, antes de deixar o avião e regressar ao Vaticano, falar em último lugar comigo.
Assim aconteceu. O Santo Padre teve palavras de muito apreço pela forma como se desenrolou a visita e, muito especialmente, pelo acolhimento que os portugueses tinham querido reservar-lhe, tanto em Lisboa como em Fátima e no Porto. Percebi que o tinham especialmente tocado as manifestações de fé e de profunda religiosidade a que tinha assistido em todas as cerimónias religiosas a que tinha presidido.
Mas da grande humanidade e simplicidade, embora muito profunda, do seu discurso, ficou-me sobretudo a impressão de que a Sua visita ao nosso País tinha constituído como que uma espécie de bálsamo num coração que, se nos quisermos recordar daqueles tempos de 2010, tão severa e injustamente atacado tinha sido por alguns sectores intelectuais, políticos e religiosos mais radicais a propósito de uma lição que então tinha proferido numa Universidade creio que alemã, ataques que a comunicação social daquela altura não deixou naturalmente de dar desproporcionado destaque.
Penso que esta visita de Sua Santidade Bento XVI a Portugal, em Maio de 2010, foi um sucesso, não apenas para a Igreja Católica portuguesa, mas também, provavelmente sobretudo, para uma Nação que, afinal de contas e apesar de todas as vicissitudes por que tem passado, continua com orgulho a considerar-se, como foi qualificada no passado, como uma “Nação Fidelíssima”.”
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






