Na semana em que o líder do PSD, maior partido da oposição em Portugal, Pedro Passos Coelho afirmou que o aumento do salário mínimo é “excessivo” é importante reflectir sobre o nosso salário mínimo e sobre a qualidade de vida em Portugal em comparação com o resto da Europa.
O nosso salário mínimo em 2015 era de 589,17€, considerando o pagamento de 14 mês. Este valor era 154,9% inferior ao salário mínimo da Bélgica no mesmo ano ou 226,4% inferior ao salário mínimo do Luxemburgo. Outras comparações podem ser feitas através dos dados no gráfico seguinte.

Por outro lado, frequentemente a justificação que nos dão para o baixo salário mínimo e salários médios é a nossa baixa produtividade. Bem, é aqui que os factos começam a desmentir os políticos, comentadores, etc.. No gráfico abaixo, pode-se constatar que a nossa produtividade por hora trabalhada é superior à produtividade dos trabalhadores de, por exemplo, Grécia ( com salário mínimo em 2015 de 683,76€), Bélgica (1.501,82€), Itália (sem salário mínimo), Luxemburgo (1.922,96€), Finlândia (sem salário mínimo), Reino Unido (1.378,87€), Noruega (sem salário mínimo) e Suíça (sem salário mínimo).
Os dados sobre a produtividade por hora trabalhada trazem-nos outros factos interessantes, tais como:
- O segundo país com maior produtividade por hora trabalhada, a Roménia, tem um salário mínimo de apenas 217,5€;
- Por outro lado, a Alemanha, normalmente o caso de sucesso apresentado na Europa em termos de produtividade, e que por isso justifica o seu salário mínimo de 1440€ (em 2015) tem uma produtividade 7,8% mais baixa que a Bulgária que tem o seu salário mínimo de 184,7€, ou seja, 679,7% inferior ao salário mínimo Alemão.

Ao contrário dos salários, Portugal em termos de preços está praticamente ao nível da média Europeia e em alguns sectores cruciais para os cidadãos está até acima, como por exemplo, na electricidade onde Portugal é o país da OCDE onde o custo com a electricidade tem maior peso no orçamento familiar, como comprova o gráfico seguinte da OCDE em 2014:

Também na alimentação, Portugal tem preços superiores aos preços de Espanha, quando em Espanha o salário mínimo é 28,4% superior ao Português. Adicionalmente a diferença de preços de alimentação entre Portugal e a Bélgica rondam os 15% mas os Belgas ganham 226,4% mais (comparação entre salários mínimos). Muitos outros exemplo se poderiam referir com a mesma mensagem.
Dito tudo isto, é verdade que algumas empresas nacionais têm dificuldade, neste momento, para comportar o aumento do salário mínimo nacional, mas a questão crucial aqui tem a ver com o tipo de economia que queremos. Portugal não deverá ter como desígnio nacional concorrer em termos de custos, mas sim em termos de qualidade. Qualidade dos seus recursos humanos, das suas infraestruturas, do seu ambiente propício para se fazer negócios, etc.. Se colocamos o objectivo na qualidade, vamos perceber que é necessário ajustar toda a nossa economia e os diversos sectores de actividade para esta visão e que, em breve, esta visão permitirá garantir que as nossas empresas estejam mais fortes e competitivas face aos seus concorrentes internacionais e que, assim sendo, estarão em condições de pagar melhores salários. Um exemplo de um sector em Portugal que já apostou nesta mudança de paradigma é o sector do calçado Português que fez uma enorme aposta no design e na qualidade e que, desta forma, se tornou mais capaz de concorrer no mercado internacional com preços superiores. Um par de sapatos Luis Onofre vendem-se facilmente a preços superiores a 250€. Este aumento de preços de venda permitem aumentos das margens de lucro para as empresas ficando estas em situação financeira mais favorável que permite maior capacidade de remunerar melhor o trabalho. Os Portugueses precisam desta atitude para que possam falar em qualidade de vida e não em qualidade de sobrevivência!
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