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“Now in sad autumn
as I take my
darkening path . . .
A solitary bird”
– Bashô
Por volta do século XVI, o Japão era relativamente desconhecido dos europeus. Desde o século XIII, vigorava um regime muito similar ao feudalismo ocidental o que significava, em consequência, a constituição de classes guerreiras fortes e de beligerâncias frequentes. Este facto, como daqui se depreende, originava uma oscilação da morfologia política de um território que, deste lado do mundo, poucos sabiam sequer existir. O regime feudal prosperou a partir do desenvolvimento de uma autêntica casta de guerreiros (bushi) que eram chamados samurai. Esta designação (servidor, em língua popular), aliás muito divulgada no Ocidente, fazia parte de uma rígida hierarquia de castas e de uma rede de dependências territoriais, políticas e militares. Yoritomo, que assumiu o poder em detrimento do imperador, obteve o título de shôgun, um general que tinha a seu cargo a responsabilidade de lutar contra os bárbaros. Daqui resultou um código de conduta guerreira (bushido) que determinava, com rigor de aço, os deveres dos guerreiros e dos servidores do referido shôgun. Sucederam-se, então, guerras privadas, as sanguinárias sucessões de líderes guerreiros que foram assumindo diversas designações mas às quais correspondiam, sempre, rituais muito estritos de fidelidade e submissão.
Já no século XVII, os shôguns Tokugawa fecharam completamente o território a qualquer influência estrangeira. Nenhum japonês podia sair do país e, dos estrangeiros que foram expulsos, restaram apenas alguns holandeses numa pequena ilha recôndita. Procedeu-se a uma brutal repressão do catolicismo, entendido como ameaça à pretendida estabilidade shôgun. No âmbito de massacres e de condenações à clandestinidade, o neoconfucionismo passou a ser a religião oficial.
O império “flutuante” retratava, assim, de forma politica e religiosamente paradoxal, uma generosa natureza, um arquipélago de pedaços de paraíso colocados sobre o mar.
Serão, posteriormente, variadas as tentativas de unificação política dos territórios, mas esta era a realidade quando, na senda dos antigos relatos de Marco Polo, em pleno século XVII – e desafiando as leis em vigor – um navio acosta no arquipélago. Era português.
Corria o ano de 1609. O jesuíta Cristóvão Ferreira aportava ao Japão. Da evangelização, da tortura e da renúncia, da apostasia e da fé. Da dúvida, sob o shogunato de Togugawa, à obcessão pelo Silêncio, livro, palavra e inquietação.
Em viagem ao Oriente. Algumas esparsas de Kurosawa, um haiku de Bashô e um melancólico eco de kokyu. Foi uma longa viagem de 28 anos, após a leitura de Silence, do católico Shusaku Endo. Uma imensa estepe acolhedora e agreste. Contraditório. A lentidão melancólica que percorre a câmara de Scorcese, quase excessiva, agiganta a experiência filosófica e metafísica, instaura uma incómoda sensação de monotonia que exaspera. Talvez seja necessário colocar-se no lugar de Deus para realizar um filme assim, desafiar a mais penosa fragilidade humana e confrontar-nos com um facto que nem todos aceitam: o de sermos criatura. A geografia, física e humana, deste poema filmado, questiona os fundamentos da religião, de toda a religião e encena a dúvida como ponto de partida para a busca de uma qualquer espiritualidade que nos des-conforte. Há uma atmosfera de Marguerite Duras na lente de Scorcese, uma rude contemplação que instaure, no silêncio, a soma de todos os murmúrios. A polifonia complexa e exangue de Silence intriga. Há uma gramática cinematográfica que não nos “deixa” mesmo que os olhos se fechem, uma convocatória permanente que nos desnuda até não restar senão pó. Ao longo do filme, as flutuações pronominais, tal como o arquipélago, imergem-nos, permanentemente, nas mais indefesas certezas. Talvez Scorcese faça da Teologia, Arte. A ambiguidade, afinal, é o ponto de ruptura do filme: entre o Bem e o Mal, o silêncio. Já não o de Deus, mas o nosso, humano: o da Cultura.
Relendo algumas críticas, é notória uma mais vincada adesão europeia e um certo desapreço norte-americano que se percebe mas que não se aceita, sobretudo por parte da Academia. Uma nomeação apenas é, afinal, uma declaração política muito mais do que uma avaliação cinematográfica.
Não sei se Scorcese assinou, com este filme, uma das suas obras-primas. Cada espectador, uma questão moral, ética, um fio cultural que percorra cada átomo de imagem. Em minha cinéfila opinião, este é grande Cinema, Arte na sua mais apurada forma. Scorcese é um cineasta. Isso diz tudo.
Ah … não contei a história. Pois não. É para ver o filme, afinal.
Ficha técnica:
Título: Silence
Género: Drama
Ano: 2016/ao público em 2017
Duração: 2h45m
Realizador: Martin Scorcese
Baseado na obra Silence de Shusaku Endo (1966)
Elenco (entre tantos):
Andrew Garfield: Sebastião Rodrigues
Adam Driver: Francisco Garupe
Liam Neeson: Cristóvão Ferreira
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