Mário Soares foi mesmo Fixe?

icon-gabriel-pita-opiniao-forum-fnA morte de Mário Soares, ocorrida há dois dias atrás, tem suscitado nos meios de comunicação social muitos depoimentos, favoráveis uns, demolidores outros, o que é sinal, à partida, da grandeza desta figura política pois, como diz o velho ditado popular, “dos fracos não reza a História”. A política ou a gestão da coisa pública (res publica) é a arte do possível e implica aceitar a diferença de interesses e de objectivos, saber negociar e ceder muitas vezes no acidental para salvar o essencial.

Com um passado de luta contra a Ditadura do Estado Novo, com a previsível consequência das prisões e exílio que teve de sofrer, quando poderia ter optado por uma estabilidade acomodada como professor ou advogado – era licenciado em Histórico-Filosóficas e em Direito – , desde que não incomodasse o regime, Mário Soares assume, a partir de Abril de 1974, um papel relevante na implementação da Democracia em Portugal, prometida e cumprida pelo Movimento das Forças Armadas.

Assumindo-se como “socialista, republicano e laico”, definiu com clareza que o socialismo democrático que propunha para Portugal tinha de ser implementado de acordo com a vontade popular e no respeito pela liberdade e teve a inteligência de não suscitar uma questão religiosa que nos tempos idos da I República foi tão prejudicial e factor importante para a pouca duração do regime político de então. Concorde-se ou não com o seu percurso político, durante o PREC – 1974-76, Período Revolucionário em Curso – foi o homem certo no lugar certo, aglutinando à sua volta todos aqueles que se opunham ao aventureirismo fora de tempo dos que sonhavam com uma revolução soviética em Portugal.

O debate entre Soares e Cunhal, a 6 de Dezembro de 1975, foi muito esclarecedor. Em Junho deste mesmo ano, Álvaro Cunhal afirmava em entrevista à jornalista italiana Oriana Fallaci: “talvez venhamos a ter de novo um Portugal fascista (…) Mas jamais teremos um Portugal social-democrata” (Vide Jornal da Madeira 6 de Julho de 1975).

Tem sido muito criticado o seu alinhamento com os Estados Unidos nesse período, o que aliás está ainda está por esclarecer, tão estranho porque alguns meses antes do 25 de Abril de 1974, precisamente a 11 de Setembro de 1973, aquele país preparou e financiou o golpe militar de Pinochet que derrubou uma experiência de socialismo democrático no Chile, liderada pelo presidente Salvador Allende, a que se seguiu uma ditadura feroz que assassinou muitos dos seus opositores.

No entanto, coloca-se também a questão de saber se a amizade pessoal de Soares com o embaixador americano em Portugal Frank Carluci e a confiança que os americanos depositavam no líder do Partido Socialista, partido mais votado em duas eleições sucessivas, não terá impedido a intervenção americana em Portugal, para além do comportamento prudentemente não interventor da União Soviética. A História faz-se com documentos e com muita reflexão sobre os mesmos mas já vai sendo tempo de ir descortinando o período do PREC.

Chefe do Governo num período de grandes dificuldades económicas, causadas pela perda dos territórios coloniais, pelo período revolucionário e pela conjuntura internacional, o socialismo foi posto na gaveta, ele próprio o afirmou, originando consensos à Direita, primeiro com o CDS e depois com o então PPD, que acabaram por ser sol de pouca dura e prejudiciais para a vida do PS.

O Partido Socialista, nos Governos presididos por Mário Soares e pelos líderes socialistas seguintes, não se empenhou na defesa da liberdade económica e social, da justiça social, como o fez em relação à liberdade política e esse foi, a meu ver, um erro grave. A animosidade do Partido Comunista que durante muito tempo quase converteu o PS no seu adversário principal também contribuiu para isso.

A convergência entre o PS e o PC na Câmara Municipal de Lisboa, em 1989 e no Governo a partir de 2015, poderão ajudar a corrigir a trajectória, mais de acordo com os ideais do Partido Socialista e dos que apostam numa alternativa democrática ao capitalismo explorador, desregulado, selvagem e injusto que teima em comandar o Mundo actual.

Por fim, a questão da Descolonização. Têm sido atribuídas muitas responsabilidades a Mário Soares, sobretudo por sectores da Direita e Extrema-Direita, pelos retornados das ex-colónias e por emigrantes na África do Sul, no processo de descolonização que acusam de ter sido rápido demais e não tendo salvaguardado os interesses da população branca. Há que ter em conta três factores.

Primeiro, o processo de descolonização foi orientado de início por Spínola e depois pelos militares e Mário Soares, embora concordando com o reconhecimento imediato do direito à independência, cumpriu as ordens que foi recebendo; em segundo lugar, a posição militar de Portugal estava num impasse, a guerra na Guiné estava perdida e a independência deste país já era reconhecida em 1974 por 80 países; em terceiro lugar, ao fim de 13 anos de guerra, nem os Movimentos de Libertação das colónias nem os militares portugueses admitiam demoras em acabar com a guerra e a agitação revolucionária em Portugal caminhava também nesse sentido. Se a descolonização não foi exemplar, é a Salazar e Marcelo Caetano que têm de ser atribuídas as culpas.