Um poema sobre o Natal, de João Morgado

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Com a devida autorização do autor, aqui deixamos um poema alusivo ao Natal, de João Morgado, o premiado autor de obras como ‘Índias’, ‘Vera Cruz’, ‘Diário dos Infiéis’, ‘Diário dos Imperfeitos’ e outros livros.

Foi em Dezembro. Por acaso foi em Dezembro.

Até podia ter sido no vento de Março, nas chuvas de Abril…

é indiferente o tempo a quem tomba no lancil.

Mas acontece que foi em Dezembro que caiu no chão… morto!

E Dezembro é um mês tão bom como qualquer outro para quem morre

invisível na rua do néon, do brilho, do corre-corre ,

invisível na beira da calçada em que tudo gira num virote

em torno da árvore enfeitada, de uma compra apressada, dum laçarote.

 

Dezembro é um mês tão bom como qualquer outro

para quem morre despojado, sem família que o abrace num retrato,

jogado na rua como sebo de unha, como um trapo.

 

Não parece, mas este homem sem rosto caído no chão de Dezembro,

já foi gente de mérito, teve cartão de crédito, nome doirado,

já foi jovem com futuro, homem entusiasmado de caminhar avante,

já foi um homem de filhos, de esposa, quem sabe até… de amante!

 

Só que um dia… perseguiu uma ilusão, uma fantasia chamada sucesso…

Perdeu então a poesia, tropeçou num verso, perdeu o pé, perdeu a mão,

e por efeito dos seus actos, acabou morto, ali, ao nível dos sapatos,

na indiferença de quem passa, caído na praça à beira-cão.

Já não tem contas no banco. Não. Só contas de um terço entre os dedos,

de quem reza para afugentar os medos, num “Ai, Jesus me valha”,

na sua inquebrantável fé num menino em berço de palha,

que foi filho de Deus, foi Salvador, foi rei d’um reino que ninguém viu,

foi a Virgem que o pariu e, se bem me lembro, também… foi em Dezembro!
in «Rio de Doze Águas», Ed: Coisas de Ler

http://www.joaomorgado.net


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