Tempos futuros de incerteza

icon-joao-lucas

1 – A Pesada herança.

Em resultado das políticas dos anteriores governos, protelando, umas vezes sob o peso dos resultados eleitorais, outras, começando mas não concluindo a resolução dos constrangimentos estruturais da economia nacional, eis que os portugueses chegam ao final de 2016 com uma pesada herança nas mãos.

      2015 2016 2017
Défice público -4,4 -2,6 -2,3
Saldo primário 0,2 1,9 2,3
Divida pública 129 131 130
% do PIB
Fonte: Relatório FMI

É saudável e, claro, o nosso nível de confiança e autoestima melhora quando vemos que somos capazes de enfrentar com sucesso as dificuldades que herdámos. Infelizmente, não obstante as medidas tomadas pelos últimos Governos, o actual e o anterior de Passos Coelho, o país não consegue reduzir a evolução do endividamento anual para um nível próximo do equilíbrio e o stock da dívida permanece praticamente inalterado.

Fala-se muito por estes nossos tempos em renegociar a dívida. Mas algum credor, no seu perfeito juízo, admite-a, nem que seja apenas no plano teórico, quando o devedor continua a endividar-se?

Não deixa de ser verdade, com a trajectória de crescimento prevista para o PIB, Portugal dificilmente conseguirá pagar a sua dívida. Como se infere pela evolução do Saldo primário, o país suporta anualmente qualquer coisa como 8,3 mil milhões de euros de juros, ao nível do que gasta em saúde ou em educação.

2 – A Máquina que tarda em carburar.

Tudo seria diferente se a economia crescesse de modo robusto e sustentado. Mas como esse crescimento é o resultado de políticas macroeconómicas acertadas e do tempo necessário à respectiva maturação e eficácia, conclui-se pelo caminho ziguezagueante a que a nossa História de política económica nos habituou, com os resultados de todos nós conhecidos.

O abrandamento no ritmo de crescimento da economia não ajuda em nada ao equilíbrio das nossas contas, em particular, a melhor poder acomodar o valor da dívida. Para poder amortizá-la gradualmente a economia teria de crescer mais depressa, acima dos 2,5% e de modo sustentado, e não como se prevê

    2015 2016 2017
PIB real 1,6 1,3 1,3
Investimento bruto 4,5 -1,4 2,5
Contributo para o crescimento do PIB
Procura interna 2,6 1,2 1,4
Balança comercial -1 0,1 0
Em %
Fonte: Relatório FMI

Mas porque não somos capazes de por a economia a crescer mais robustamente? Em boa verdade, não depende somente da nossa vontade em aplicar as medidas adequadas, pois estamos dependentes das economias externas, em particular daquelas com quem mais nos relacionamos e, ainda, de outros importantes factores, tais como o comportamento do preço do petróleo.

Todavia, cabe-nos a nós fazer o trabalho de casa. Fundamentalmente a dois níveis. Internamente, promovendo estrategicamente o investimento, por exemplo com substituição de importações. Mas como quem investe são as empresas, o país tem de saber reunir as melhores condições para que consiga capturar as intenções de investimento, materializando-as, quer através de um quadro fiscal competitivo, como modernizando e adequando o enquadramento legal e concorrencial.

Externamente, aumentando sustentadamente as nossas exportações de modo a que o contributo da balança comercial para o crescimento da economia seja robusto, prosseguindo o bom trabalho conduzido pelo anterior governo.

Mas não é isso que está a acontecer nem o que se prevê, pelo menos no curto prazo!

Por outro lado, devemos enfatizar quão melhor estamos nos tempos actuais relativamente aos recentes anos de crise. Reconheçamos tudo o bom que fizemos, mas mesmo assim ainda insuficiente para a sustentabilidade do nosso país.

      2015 2016 2017
Emprego 1,1 1,4 1
Taxa de desemprego 12,4 11 10,6
Em %
Fonte: Relatório FMI

Um exemplo dessa melhoria prende-se com o emprego em resultado do crescimento económico verificado.

3 – Tempos futuros de incerteza.

Estão assim identificadas as variáveis que irão condicionar o futuro da economia portuguesa no curto prazo e, se nada fizermos em contrário, no médio prazo, a sua pujança e fraqueza. O que parece evidente é que viveremos um quadro de forte incerteza sobre o futuro, sem recursos financeiros públicos que possam animar a economia. Faltará saber se existirá o engenho para relançar o investimento privado e ganhar quota nos mercados externos, fundamental para o nosso futuro, fazendo a economia crescer robustamente, acomodando mais facilmente as exigências impostas pela gestão da dívida pública.

…e a Madeira?

A situação a nível nacional tem obviamente uma réplica, em muito menor escala claro, à dimensão da economia madeirense. Com problemas estruturais similares, sem capacidade de gerar receitas para financiar a despesa efectuada, estamos dependentes da nossa galinha de ouro, o Turismo, e completamente dependentes da solidariedade europeia e nacional. Todavia, no plano nacional, influenciamos uma verdadeira nulidade, como já publicamente e sobejamente provado nos casos das duas obras públicas fundamentais: o novo Hospital e a ampliação do cais Sul do Porto do Funchal, para não falar da linha marítima, do avião cargueiro e do incontornável modelo encontrado para os custos compensatórios às viagens aéreas dos residentes.

Curiosamente, assiste-se a uma forte animação no mercado imobiliário, em resultado das oportunidades geradas pelo turismo que, conjugada pela falta de transparência e irresponsabilidade observada no sistema financeiro, em particular bancário, fez com que muitos dos seus clientes optassem por investir no imobiliário.

O alojamento local foi e é assim uma importante mola de animação da economia, ancorado no crescimento robusto do turismo, a que também não é alheio o enquadramento internacional.

A reabilitação urbana assume-se também como uma área potencialmente pujante, pelos factores anteriormente enumerados, e ancorada em incentivos já em vigor.

Primando pela ausência de uma estratégia verdadeiramente coerente e integrada está o sector das comunicações electrónicas que, em nossa opinião, poderá alavancar fortemente a economia regional. Mas o Governo anda a dormir.

Claro que, não havendo mais os rios de dinheiro do passado, é um ribeiro de águas turvas o que se passa no Parlamento da Madeira por ocasião da discussão do Orçamento regional para 2017.

Feliz Natal para todos e, sobretudo, nunca esqueçamos que Natal é todos os dias.