Um jovem deputado português, na Assembleia da República, representando um dos partidos de direita que aí têm assento, terá dito, em tempos não muito longínquos, e de forma pública, que se os políticos não mentirem, não ganham eleições, procurando justificar, e eventualmente legitimar, a mentira como procedimento normal e aceitável em democracia. Entre os meus, comentando, entendi que dificilmente se encontraria forma mais violenta de golpear a democracia, a cidadania e a liberdade do que esta que os portugueses, perplexos, terão testemunhado. Doméstico, embora, o arrojo do parlamentar parece corresponder a uma espécie de constatação daquele que é o entendimento maioritário dos cidadãos face à política, aos seus agentes e ao seu papel nas nossas vidas, logo, pacífico no evoluir mediático do quotidiano de todos nós e na disponibilidade reactiva que transportamos. De tal modo que… passou.
Como muitas outras coisas.
Apesar da sua importância e dos reflexos que podem ter na existência de cada um de nós, o que se diz, o que se faz e o que se apregoa, tem a duração do instante, a gravidade do inócuo, o peso do imponderável. Mas cumpre o seu papel: fragiliza a democracia, corrói a liberdade, generaliza a suspeição, mina os alicerces do Estado de direito. Rangendo, a democracia vai-se esboroando, tendo, de um lado, uma comunicação social cúmplice que prescinde, – opta, mesmo -, de identificar os elementos e factores tóxicos responsáveis pela degradação e descrédito da democracia no seu todo e, do outro, toda uma população que, em qualquer parte do Mundo, naturalmente, se deixa enredar e atrair pelo mais fácil, pelo que parece mais óbvio, pelo que exige menos atenção, pelo que não dá que pensar, pelo que facilita as razões das escolhas…
É assim que os populismos, designadamente os de direita, têm feito o seu percurso, – um pouco por toda a parte -, de sucesso adivinhável; foi assim que o “Brexit” ganhou o referendo e, menos de vinte e quatro horas depois, suscitava já a vontade dos eleitores de terem um novo referendo que lhes permitisse corrigir o tiro; foi assim que, sem pestanejar, se aceitou que a democracia era compatível com a inexistência de alternativas – a célebre, porque ofensiva, TINA (there’s no alternative); foi assim que, entre a indignação e o conformismo, assistimos ao vergonhoso espectáculo que rodeou o impeachment, no Brasil, da presidente Dilma; foi assim que permitimos que se interiorizasse a ideia de que as ideologias tinham morrido e que os princípios tinham deixado de o ser; foi assim que fomos aceitando a subversão dos valores e abdicando da exigência de monitorizar o respeito que os torna centrais, se respeitados, na edificação de sociedades em que dê gosto viver com tranquilidade e confiança no futuro.
O efémero tomou conta, manda, diminui, hostiliza, expande-se, ridiculariza, propagandeia, pactua, exige, oprime, obedece a quem o sustenta e a quem dele se aproveita, dita, impõe regras, escraviza.
E foi assim que François Fillon foi o escolhido, – de entre ele próprio, Alain Juppé e Nicolas Sarkozy -, nas primárias do Partido Republicano, em França, para ser o candidato da direita às próximas eleições presidenciais naquele país e tentar derrotar a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, a quem as sondagens conhecidas atribuem, já hoje, um significativo e esclarecedor favoritismo. Comentadores de opinião pronta apressaram-se a dá-lo, a François Fillon, como vencedor dessa importante escolha nacional paramentando-o com as vestes presidenciais e declarando-o, desde já, o próximo Presidente da República Francesa. O vencedor de uma “batalha” da direita contra a direita – sim, eu sei, são direitas diferentes, mas não deixam de o ser – onde a esquerda, sem surpresa, pelo modo como geriu, e assim concluirá, presumo, este último quinquenato, parece não ter lugar de representatividade condizente com a sua história e com a sua importância no processo
E foi assim que, ingénuo incurável e impassível de ser chamado à razão, não tendo nunca acreditado na possibilidade de Donald Trump sair vencedor da disputa eleitoral que o opunha a Hillary Clinton para a presidência dos Estados Unidos, fui surpreendido, na madrugada do dia 9 de Novembro, com a sua vitória no quadro da lei eleitoral em vigor nos Estados Unidos.
Teve, no entanto, o condão de me chamar à realidade nua e crua: ele tinha ganho; a democracia tinha viabilizado a eleição de alguém que vinha dando provas de a não apreciar particularmente e que prometia uma bravata sem tréguas ao que ela, a democracia, tinha, e tem, como definitivas marcas civilizacionais. Não é necessário, mesmo, retomar os rótulos que lhe foram sendo colocados; DT, mesmo sem eles, é identificável facilmente por se ter colocado nos antípodas dos valores identificativos da democracia, entre os quais, porventura os maiores, o respeito pelos direitos humanos e a tolerância.
A condução mediática do evoluir democrático dos países, – não sendo possível, nem desejável, enjeitar as responsabilidades que neste percurso os seus protagonistas foram assumindo e que têm de ser relevadas para que possam ser corrigidas -, deixa-nos aqui, mas temos a percepção de que não é a ultima paragem, de que há quem queira mais, de quem queira pior, de que há quem se sinta limitado pela democracia e lhe queira pôr fim.
A 1 de Abril de 2016, – a data é uma, pouco simpática, coincidência -, num texto que o FN publicou, da minha autoria, escrevia a dado passo: “… Desvalorizar a actividade política, menorizar os seus agentes, difundir a desconfiança que, propositadamente, sobre eles é instalada e reverberar o simplismo das classificações rotulares que os apoucam e diminuem aos olhos da opinião pública, do tipo, “são todos iguais”, é a actividade dilecta de todos os que, nostálgicos de outros tempos e de outros protagonismos, saudosos de censuráveis obediências e reverenciadores face aos seus mandantes, incansavelmente, cumprem agendas marcadas pela intolerância, pela desconfiança e pela incapacidade de conviverem com a liberdade…”
Passe a imodéstia, citando-me, penso concluir com uma síntese apropriada o texto em que as minhas preocupações se expressaram, avolumaram e, procurando a pedagogia possível, ficaram livres para fazerem o seu caminho.
Nota:
O autor deste texto, por vontade própria, escreve de acordo com a antiga ortografia.
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