Crónica Urbana: O ovo de Colombo

sem abrigo 003

Rui Marote

Com pompa e circunstância, a Câmara Municipal do Funchal apresentou ontem o seu ‘ovo de Colombo’ no Teatro Municipal. Cafôfo salientou que o ‘Funchal Card’ engloba o que de melhor a cidade tem para oferecer. Porém, não se trata de nada inédito: é um conceito que já existe noutras cidades do país e em muitos outros países do mundo. A própria capital portuguesa é disso exemplo, como poderão ver pelo cartaz patente no Palácio Foz, nos Restauradores. Mas um caixeiro-viajante veio ao Funchal e vendeu à CMF a ideia, e o edil funchalense aplaudiu. Múltiplos parceiros, entretanto, juntaram-se ao ‘esquema’ e prometem proporcionar aos utilizadores mais de setenta experiências nas mais variadas vertentes, desde o bordado ao vinho Madeira, desde os carros de cestos a muitas outras actividades. O presidente da edilidade funchalense irá lançar um novo posto turístico na cidade. E promove-se assim o cartão que custa 30 euros, mas promete uma poupança de 400. Ou seja, um autêntico ‘Telexfree’ ou, mais modernamente, ‘Pay Diamond’.

Mas é quando a esmola é muita que o pobre desconfia. Vejo nisto o querer transformar o município numa espécie de concorrência com a Associação de Promoção Turística da Madeira e com a Direcção Regional de Turismo.

Quem são os museus que aderiram ao cartão? O Museu do Açúcar, o Museu Municipal, o Museu Henrique e Francisco Franco e o Museu de Arte Sacra, os primeiros sob alçada da CMF e o último da Diocese… o qual faz um desconto de um euro no bilhete, aos portadores do cartão.

E voltando ao anunciado posto turístico… será mais uma barraca no centro do Funchal. A Câmara já tem uma, à entrada do cais da frente mar, numa zona sob alçada da APRAM, ao qual vai fechando os olhos e que só polui a paisagem. Quanto às quintas aderentes ao cartão, só a do Palheiro, do Sr. Blandy, e o teleférico, também sócio.

É dividir para reinar. Estamos a um ano de eleições autárquicas e é preciso apresentar trabalho de casa: toca a copiar o que caixeiros-viajantes nos vieram impingir. Entretanto, o Funchal, onde se urina a céu aberto, continua sem casas de banho públicas; os nossos jardins estão maltratados, as ruas conspurcadas. Esperamos ansiosamente uma chuva que venha lavar a sujidade. E o Funchal perdeu qualidade, enquanto destino turístico: os sem-abrigo constituem grande problema e a exposição diária da miséria e dos hábitos pouco higiénicos dos mesmos nas ruas da cidade e no ‘Golden Gate’, esquina do mundo, continua. Os cartazes publicitários dependurados por todo o lado, nas esquinas, nos edifícios, nas ruas, lembram-nos uma versão reles de Xangai.

Perante tudo isto, é caso para dizer que quem vier a seguir feche a porta. Estas coisas de apresentar cartão turístico e etc., não passam de mise-en-scènes.