Família da Rua da tragédia confessa que vive com o medo e a alma doída

LIMPEZA PRINCIPAL
Ricardo Rodrigues e família consomem o domingo, como toda a semana, nas limpezas de prevenção. Fotos Rosário Martins

No número 27 da Rua Silvestre Quintino de Freitas permanece o medo e a dor. Apagaram-se os incêndios e, no rescaldo, permanece teimosamente e sobretudo “um medo inexplicável”. Num domingo escaldante, troca-se a ida a banhos ou o passeio habitual pela limpeza cuidada dos jardins, num trabalho de prevenção a futuros reacendimentos.

Na passada quarta-feira, Ricardo Rodrigues estava em casa com a família. Ao fim da tarde, as labaredas a galgarem a Ribeira de João Gomes assustava. O vento e o calor formaram uma simbiose explosiva: “Daí a 10 minutos, o lume já estava aqui, na Pena. Só tivemos tempo de fugir, sem levar nada connosco. Não se via bombeiros, não se conseguia respirar tal era a espessa nuvem de fumo a afetar-nos a visão e a clarividência”, recorda, num discurso visivelmente emocionado.

Depois, o cenário que o FN já deu conta: de fulminante destruição e de três mortos nesta mesma Rua.

LIMPEZA 1As imagens do fogo e do pânico dificilmente se apagarão da memória desta família, que se considera afortunada por manter a sua casa de pé. “Quando regressámos, todo o interior estava cheio de cinza mas a casa de pé e sem grandes estragos. Procedemos a uma limpeza geral e acompanhamos sempre as notícias. Permanece o medo”.

No pequeno quintal, as folhagens secas do jardim são removidas para um saco de lixo. São perigosas quando o calor aperta e as faúlhas andam à deriva. Por isso, luvas à mão, tesoura de jardim e braços familiares sempre prontos para erradicar possíveis perigos.

pena 2
Uma das várias casas destruídas na Rua Silvestre Quintino de Freitas.

Como esta família Fernandes, composta por três pessoas, outras tantas na mesma rua espreitam à cautela o perigo. Mais abaixo, o FN encontrou uma bela casa com vista sobre o Funchal destruída pelo fogo. Vivia lá uma idosa que conseguiu escapar a tempo. Hoje, os familiares acompanham a evolução da situação. Os técnicos do Governo Regional já estiveram no terreno, as fotografias já foram tiradas e agora resta aguardar. Não querem dar a cara ao nosso jornal. Preferem aguardar pelo evoluir dos acontecimentos, dando tempo razoável aos técnicos para resolver o problema, apesar da pressão da idosa que ali vivia no sentido de voltar a habitar o seu lar.

Na verdade, esta moradia destruída fica bem exposta à circulação do teleférico, imagem que choca os próprios turistas que usam este transporte turístico para chegar ao Monte.

O silêncio cobre toda a Rua Silvestre Quintino de Freitas e transversais. Enquanto a natureza sorri ironicamente para os homens, oferecendo o sol, estes guardam o silêncio da dor e do medo.