Eng. João Baptista avisa para ratos nas dunas do Porto Santo e para emagrecimento da praia

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Fotos: Rui Marote

O engenheiro geólogo João Baptista não tem dúvidas: há um problema de ratos na vegetação de tamargueira logo acima das dunas da praia do Porto Santo. Se tal assume já as dimensões de uma praga, não está em condições de afirmar; mas “que os ratos estão lá, estão”, disse ao Funchal Notícias. E a sua presença deve-se aos comportamentos inadequados das pessoas, que fazem as suas necessidades na tamargueira, por falta de civismo mas também por carecerem de infraestruturas de apoio ao banhista, nomeadamente casas de banho e balneários. Este é apenas um dos aspectos que o cientista, investigador do GEOBIOTEC, FCT, Universidade de Aveiro e membro da ProGEO – Portugal abordou hoje entre muitos outros, numa conferência intitulada ‘Influência antrópica na morfodinâmica do litoral da ilha do Porto Santo”.

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A alocução abriu hoje de manhã os trabalhos do XI Simpósio Ambiental promovido pelo Município do Porto Santo. Nele participaram também outros cientistas, nomeadamente Mário Cachão, do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e também membro da ProGEO, que se debruçou sobre ‘O Património Natural do Porto Santo – Estratégias de Valorização’; Sérgio Ávila, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, InBIO Laboratório Associado, Pólo dos Açores, Departamento de Biologia, Universidade dos Açores, que abordou a dinâmica entre ciência e turismo através do exemplo do património paleontológico de Santa Maria, nos Açores; e José Brilha, da Universidade do Minho, que discorreu sobre os Geoparques Mundiais da UNESCO, falando da nova classificação internacional para promover o uso sustentável da diversidade.

ratos e baratas
Os ratos resultam do lixo e da falta de higiene dos banhistas

A comunicação apresentada por João Baptista foi, basicamente, a mesma que apresentou juntamente com outros colegas cientistas num simpósio recente na Secretaria Regional do Ambiente, perante Susana Prada e toda a comunidade interessada, científica ou não. Nela procurou abordar as consequências que se fazem sentir em toda a estrutura da praia, causadas pela intervenção humana, ilustrando tal abordagem com fotografias que abarcam um período temporal vasto, de 1880 até ao dia de hoje. Essa perspectiva temporal é que permite ver como a praia realmente tem “emagrecido” nas últimas décadas, aspecto que tem apontado, gerando polémica, mas que foi corroborado pelas investigações de outros cientistas, que partilharam também perante Susana Prada as mesmas conclusões, de que a praia está, efectivamente, a ‘emagrecer’ na sua faixa de areia, perdendo areia e área útil para o banhista, isto apesar das alterações que realmente ocorrem sazonalmente, todos os anos, com as estações.

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João Baptista felicitou, na ocasião, o Governo Regional e Susana Prada, por, pela primeira vez, terem tido a coragem política de debater um assunto tão sério. Porém, a preocupação de Susana Prada não foi partilhada recentemente pelo presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, durante uma visita ao Porto Santo aquando do afundamento da corveta ‘Pereira d’Eça’, que criou um novo recife artificial nas águas da ‘Ilha Dourada’. Questionado, então, pelo FN sobre se não estava preocupado com a diminuição da praia do Porto Santo, Albuquerque respondeu que há muitos anos que ali se deslocava, com a sua família, e que a praia aumentava e diminuía todos os anos. Uma posição semelhante à assumida pelos governos jardinistas quando, ao longo dos anos, João Baptista foi lançando alertas sobre esta matéria. Porém, o geólogo está convicto de que Albuquerque não teria respondido daquela forma se estivesse mais informado.

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A sua intenção, volta a salvaguardar, é dar, conjuntamente com a sua equipa, o maior contributo possível para manter este enorme legado turístico e ambiental que é a praia do Porto Santo, oferecendo sugestões de possíveis soluções e, acima de tudo, evitando transformar o assunto numa questão política, algo que quer evitar a todo o custo. Trata-se, isso sim, conforme ressalva, de matéria de interesse científico, económico, ambiental e social.

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João Baptista, à esquerda, no colóquio recente realizado na Secretaria Regional do Ambiente

“Houve essa coragem política [neste Governo] que nunca houve nos Governos anteriores, que taparam sempre o Sol com a peneira, ignoraram o assunto e achincalharam quem para ele alertava. Tal como há também agora essa coragem política por parte da própria Câmara Municipal”, salienta.

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A proliferação dos ratos, aspecto que escolhemos salientar agora nesta altura de Verão e de turismo na ilha, é apenas uma das questões que também afectam a praia. “Infelizmente ainda é colocado muito lixo na vegetação que cobre a duna”, refere João Baptista, que critica também a acção de quem ali faz as suas necessidades e por vezes nem tapa os dejectos com areia, atitude que “desencadeia a proliferação” dos roedores, “com todas as consequências nefastas para a saúde pública (pragas de pulgas, leptospirose, doenças dermatológicas)”. Isto, a par do acto comum de enterrar as beatas de cigarro na areia, também contribui para estragar a praia. Mas há outras questões que, inclusive, dizem respeito à diminuição da própria areia. João Baptista voltou hoje a enumerar uma série de causas para o emagrecimento da praia: a construção do Porto de Abrigo na actual localização, impedindo a circulação de areia levada pelo vento e pelas marés no sentido poente, e causando grande assoreamento do porto, prejudicando as condições de navegabilidade e manobras de atracagem e desatracagem das grandes embarcações (actualmente há uma altura de 1,9 m entre o fundo e o casco do navio Lobo Marinho, quando deveria existir pelo menos 3 m); a maré negra do petroleiro Aragon, que atingiu em Janeiro de 1990 o Porto Santo, e as muitas toneladas de areia que foram levadas juntamente com o crude retirado; a extracção de areias para a construção civil ou exportação; a remoção dos depósitos dos materiais de praia, que ocorrem, essencialmente, junto à base da duna durante determinados períodos do ano, designadamente pedras, remoção essa que, no entender de João Baptista, deveria ser proibida; a destruição e remoção do grés de praia ou lajedo; o modo como faltam lava-pés na praia (incontáveis partículas de areia somem-se todos os anos pelas banheiras e’ polibans’ abaixo, porque as pessoas não têm onde lavar os pés da areia à saída da praia; a construção de represas e diques que retêm a carga sólida que deixa de alimentar a praia; o abandono do cultivo agrícola e a falta de manutenção da vegetação no cordão dunar, que criaram condições favoráveis à migração de areia; as construções instaladas sobre o cordão dunar e zona de praia, nomeadamente as famigeradas ‘casas da lancha’; os passadiços criados para evitar o pisoteio da duna, mas que acabam por ser mal colocados e mantidos, uma vez que são instalados mesmo sobre a duna e não a distância suficiente da mesma; a falta de infraestruturas de apoio ao banhista; etc.

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A realidade, volta a acentuar João Baptista, é a de que é necessário efectuar recargas artificiais em certas zonas mais afectadas da praia do Porto Santo, tal como é necessário prosseguir com as campanhas de sensibilização ambiental; utilizar as zonas de depressão eólica criadas pela extracção de areias nos anos 60, 70 e 80 para construir infraestruturas de apoio à praia, passadeiras e pontes em madeira para evitar o pisoteio da duna; utilizar as areias provenientes das escavações, essencialmente, para a alimentação da praia e na reconstrução das depressões eólicas (blow-outs) que ocorrem no cordão dunar; introduzir espécies vegetais fixadoras adequadas; proibir a remoção de depósitos de materiais de praia que ocorrem periodicamente junto base da duna, como já foi dito; evitar a destruição do lajedo; incentivar ao cultivo agrícola; e continuar a apostar na sensibilização ambiental da população e dos banhistas.