Insucesso em Matemática

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João Viveiros (Professor de Matemática)

O insucesso escolar na disciplina de Matemática é uma realidade reconhecida por todos e de alguma forma aceite, mas não pode ser abordada com uma atitude passiva. Quando se realizam exames nacionais surgem as estatísticas publicadas pelo ME dando conta do insucesso escolar na disciplina e apenas na perspetiva quantitativa. A Associação de Professores de Matemática tem apresentado diversas reflexões sobre este problema apontando possíveis causas assim como propostas para ultrapassar a situação.

Ponte (1994), numa reflexão que fez sobre o insucesso em Matemática, defende que a razão fundamental para que tal aconteça reside no facto de esta disciplina ser socialmente concebida para conduzir ao insucesso. Isto porque ela tem um papel fundamental no processo educativo que é o de instrumento de seleção dos alunos. Para este autor, o combate ao insucesso pressupõe “uma intervenção aos mais diversos níveis, incluindo as práticas pedagógicas, o currículo, o sistema educativo e a própria sociedade em geral — promovendo uma visão da Matemática como uma ciência em permanente evolução, que tanto procura responder aos grandes problemas de cada época como é capaz de gerar os seus problemas próprios” (ibid.:2)

Martins e Cabrita (1993), ao abordarem a problemática do insucesso educativo em Matemática no 3º ciclo do Ensino Básico, refletem sobre o processo de ensino e aprendizagem, que envolve naturalmente os programas da disciplina, o professor e o aluno. Aponta diversas causas que passam naturalmente pelos papéis do professor, do aluno e pelas metodologias de ensino e aprendizagem. Perante o problema, recomenda medidas urgentes de combate e que passam naturalmente pelas reformas da conjuntura sócio-político-cultural.

Oliveira (1996), no estudo quantitativo que fez sobre as atribuições causais e expectativas de controlo do desempenho na Matemática, utilizando questionários de resposta fechada, defende que as dificuldades de aprendizagem da Matemática têm muito a ver com as conceções pessoais dos alunos sobre as suas capacidades. Estas conceções, com origem na interação com o professor, nos seus pares e no seu desempenho nas tarefas Matemáticas, acabam por condicionar e estruturar as suas aprendizagens. Deste modo, o insucesso escolar em Matemática surge associado a bases insuficientes dos alunos, ao seu baixo autoconceito na aprendizagem e às dificuldades dos professores em materializar os conteúdos matemáticos ou em partir de situações quotidianas dos alunos.

De acordo com os resultados deste estudo constata-se que os professores devem dar uma maior ênfase ao valor que os alunos atribuem, assim como, “levar os alunos que concedem pouco valor ao sucesso na Matemática a ver o interesse e a utilidade desta disciplina no sistema de ensino, sobretudo no que respeita às opções vocacionais futuras” (Oliveira, 1996:195).

Lopes, Grilo e Graça (2003) realizaram um trabalho sobre a Matemática na transição do ensino básico para o ensino secundário. Pretendia-se estudar as dificuldades sentidas pelos alunos na aprendizagem da Matemática no início do ensino secundário, perceber as suas causas e pensar nalgumas medidas a implementar no sentido de minorar a situação. Assim, o trabalho constou de duas partes: uma de reflexão geral sobre os programas e sobre a relação dos alunos com os diferentes temas – Geometria, Funções ou Estatística; e a outra constou de entrevistas a alunos e professores e respetivas análises. O estudo envolveu duas escolas secundárias do centro de Lisboa – uma com ensino básico e outra só com ensino secundário – e 9 alunos, 5 de uma e 4 de outra, que tinham obtido bom aproveitamento no 9º ano (níveis 4 ou 5).

Trata-se de uma investigação qualitativa que pretendeu descrever o problema não para obter generalizações das conclusões obtidas, mas sim identificar razões que conduzem ao insucesso a Matemática no início do ensino secundário. O estudo aponta dificuldades em concretizar o programa, que se prendem com o pouco empenho, a falta de hábitos de trabalho e com a falta de autonomia e iniciativa que os alunos manifestam quando são envolvidos em novas situações de aprendizagem. Outro aspeto grave é o esquecimento recorrente de assuntos anteriormente lecionados.

Os professores apontam como lacuna grave a dificuldade que os alunos têm em utilizar técnicas básicas de cálculo que, supostamente, deveriam dominar quando chegam ao secundário, de tal modo que impede o avanço do programa. Na perspetiva do aluno, a Matemática do secundário é mais difícil do que a do básico e dizem que não sentem que haja continuidade entre as matérias dadas no 9º ano e as que estão a dar no 10º ano, o que não aconteceu ao longo do 3º ciclo. Referem também a falta de bases e o grande salto que representa a passagem para o 10º ano. Nestas condições, os alunos sentem que têm que trabalhar muito mais no 10º ano para ter o mesmo sucesso que no básico e têm dificuldades em gerir o tempo de forma diferente daquela a que se tinham habituado até ao 9º ano.

Deste modo, o estudo leva os autores a concluir que “as principais dificuldades que os alunos referem na passagem do 3º ciclo para o ensino secundário dizem respeito ao maior grau de exigência com que se depararam, quer no que refere o ritmo de trabalho quer à dificuldade dos temas” (Lopes, Grilo e Graça, 2003:79).

Filipe (2007) fez um estudo essencialmente quantitativo sobre o insucesso na Matemática no 3º ciclo em que identifica as principais causas e procura avaliar as estratégias de combate implementadas pela escola e pelos professores. Esta investigação adotou como objeto de estudo os alunos que frequentam o 3º ciclo do ensino básico, inquirindo-os, bem como inquirindo os professores que lecionam Matemática nas escolas do concelho de Esposende. Para além de identificar as causas e estratégias implementadas pela escola e pelos professores faz também uma série de sugestões que a escola e os professores devem ter presentes no combate ao insucesso escolar em Matemática.

Leandro (2006) fez um estudo sobre o Insucesso escolar na Matemática registando as perceções dos alunos do 6.º ano do ensino básico sobre o insucesso. Trata-se de um estudo em que foram utilizadas entrevistas semiestruturadas a 34 alunos, sendo 16 do sexo masculino e 18 do sexo feminino, as quais foram analisadas e tratadas com procedimentos qualitativos.

O seu estudo incidiu sobre o que é o insucesso, como se avalia, as suas causas, as suas consequências e o que fazer para o evitar e/ou combater. A análise dos dados permitiu considerar “que estes alunos, ao mesmo tempo que manifestam um conhecimento declarativo e condicional do insucesso escolar na Matemática, revelam um conhecimento procedimental deprimido. Centram-se no produto, embora, se mostrem incapazes de delinear o processo para o alcançar” (2006: iv).

Os indicadores que têm surgido no âmbito do insucesso escolar em Matemática impõem que se realizem mais estudos e que se tomem medidas de combate ao problema. As pesquisas que efetuámos denotam a existência de poucos estudos qualitativos no âmbito do insucesso em Matemática.

Em 1998 é editado um estudo realizado por um grupo de investigadores coordenado por Ponte, em que se faz um levantamento dos principais problemas que afetam o ensino da Matemática em Portugal e se apresenta um conjunto de propostas de intervenção para, a curto e a médio prazo, tentar resolver esses problemas. Nesse estudo, é defendido que “o sistema de transição de ciclos (do 1º ciclo para o 2º do ensino básico, do 2º para o 3º ciclo e do 3º para o ensino secundário) não contém processos adequados de transmissão de informação escolar dos alunos, não permitindo um acompanhamento imediato de casos problemáticos” (Ponte et al., 1998:26). Por outro lado, também se faz referência às dificuldades associadas à transição para o ensino secundário chegando a afirmar-se que “este problema é especialmente grave na transição do 9º ano para o 10º ano, em que muda radicalmente a filosofia da avaliação” (ibid.:26).

Por tudo o que foi referido anteriormente, e tendo em consideração os resultados pouco animadores que os alunos em geral obtiveram nos exames nacionais de Matemática A, urge identificar as múltiplas causas que determinam o insucesso na referida disciplina e implementar medidas de prevenção e combate do insucesso escolar para promover o sucesso, sobretudo no ensino secundário.

 


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