Crónica Urbana: uma praça com duas placas

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Rui Marote

Ninguém pode apagar o passado, embora estejamos na era da computorização, em que num breve movimento de dedos clicamos na palavra ‘delete’ e já está… Voltamos a Samora Machel (que o Senhor o tenha). Quando o velho guerrilheiro se instalou na Ponta Vermelha, ordenou que retirassem a estátua de Mouzinho de Albuquerque na rotunda em frente à Câmara Municipal, que tinha ao lado esquerdo a catedral e o edifício Funchal, propriedade da família Pestana.

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Samora ordenou que fosse retirada a estátua de Mouzinho a cavalo, que tinha em redor da base painéis elucidativos da batalha de Chaimite e de Gaza contra o chefe vátua Gungunhana. Era ver aos domingos a população negra rodeando a estátua e contemplando os painéis. A estátua e os painéis foram expostos no átrio da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, no centro da cidade de Maputo. Durante mais de 20 anos, naquela rotunda não foi colocado, em sua substituição, nenhum monumento.

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Desmantelamento da estátua de Mouzinho

Trezentos metros abaixo da rotunda que dá acesso à Avenida D. Luís, está o Jardim Vasco da Gama, e em frente à sua porta principal encontrava-se a estátua de Samora Machel, que anos depois da sua morte foi transferida para a rotunda onde estava Mouzinho.

Como referimos o prédio Funchal, um enorme edifício da família Pestana, foi nacionalizado e mais tarde deu origem ao hotel Rovuma, explorado por uma sociedade sul-africana e moçambicana. Em Maio de 1991, Alberto João Jardim visitou Moçambique, e levou na sua comitiva diversos empresários, entre eles Manuel Pestana e Dionísio Pestana, que estavam impedidos de entrar em território moçambicano. Houve um briefing dos empresários madeirenses com o ministro e membros do Governo ligados ao Turismo. Essa reunião não correu bem para a família Pestana, que levantou o problema do ex-prédio Funchal.

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Os painéis, vendo-se a prisão do chefe vátua Gungunhana.

Conclusão: a família Pestana ao final da tarde desse dia abandonou a comitiva da Madeira e regressou à África do Sul, não dando cavaco a Alberto João Jardim, que só o veio a saber ao início da noite, quando se preparava para ser recebido na Ponta Vermelha para um jantar oferecido pelo presidente Chissano. Isto criou um mal-estar e AJJ não gostou.

Anos mais tarde, o governo moçambicano devolveu o edifício Funchal a Pestana. Hoje, continua a chamar-se hotel Rovuma. A cadeia Pestana tem hoje um hotel na ilha da Inhaca (uma história a contar) e um hotel na ilha do Bazaruto. Mas esta crónica urbana é para dar a conhecer que a praça ainda tem dois nomes e duas placas em sítios diferentes.

Cinco anos depois de ser inaugurada por Alberto João Jardim a 7 de Outubro de 2011, com o nome de Praça do Mar, volta a ser inaugurada a 22 de Julho de 2016 com o nome Praça CR7. Resta saber se as placas anteriores irão para o Museu da Arqueologia na Fortaleza de São Tiago. A história não se apaga.


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