Da perversa “TINA” à auspiciosa “TIA”

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A “TINA” afirmou-se com a perversidade com que foi criada e com a despropositada e ilegítima autoridade com que foi imposta, determinada e arremessada violentamente contra todos nós. A “TINA”, acrónimo de there’s no alternative, numa tradução não literal, significa fim da democracia; proibição de escolha, por parte dos cidadãos, entre programas políticos diferentes e orientações plurais; caminho único; escolha sem escolha; opção sem consequência. A “TINA” é um perigosíssimo axioma destinado a, pela sua vulgarização, banalização e acatamento, – que os cidadãos, e não só, um pouco por toda a Europa, parece terem decidido -, transformar um conjunto de ideias de natureza económica, financeira, social e política nas únicas, repito, únicas, ideias aceitáveis, recomendáveis, não escrutináveis, permitidas. Os subscritores, apoiantes, mentores e propagandistas da “TINA” transformam-se, assim, – muitas vezes legitimados pelo sufrágio a que se sujeitaram -, com o apoio de uma comunicação social e de um alargado leque de comentadores com eles, e com os seus interesses mais do que comprometida, nos donos da verdade, nos representantes supremos desse absolutismo, dessa sua inquestionável verdade, sob a imunidade que reivindicam, e que negligentemente lhes vai sendo concedida, face a tudo o que não se integre nessa “bitola” prepotente, antidemocrática e tendencialmente violadora de espaços soberanos, se atendermos ao que se vai passando por esta Europa que julgávamos ser a da União e na qual colocámos a fé da sua intrépida, determinada e inultrapassável defesa dos grandes valores da democracia, da liberdade e dos direitos do homem.

Suficiente para que a todos preocupasse, a “TINA”, foi fazendo, pasme-se, o seu percurso sem grandes conflitualidades ideológicas ou partidárias. Estupefactos, assistimos ao esvaziamento progressivo dos partidos da área da social-democracia, – partidos socialistas, trabalhistas e social-democratas -, quanto a estas perplexidades, à sua ausência do essencial do debate, ao seu apagamento num grupo político, – com pouco para mostrar do que se revela imprescindível -, dos “socialistas & democratas” e, até, com a sua colaboração, ajudando à formação de maiorias de direita, neoliberal, diz-se, entrincheiradas na “TINA”, nos seus procedimentos e nas suas arrogantes imposições.

E perguntámo-nos, incrédulos, por onde vagueiam as memórias de um SPD, na Alemanha, que, com fortes raízes no movimento sindical, nas organizações de trabalhadores, e que tem a História do seu lado no quanto, – e na qualidade com que o fez -, contribuiu para a modernização da Alemanha e para a criação do clima de paz e progresso que tem caracterizado, não só este país, como toda a Europa no pós-guerra, hoje, no governo com a direita da CDU, e, fiel à “TINA”, ao que se vai vendo, a cair fortemente nas sondagens não augurando, por isso, nada de bom num futuro próximo; se é que há um futuro não próximo adivinhável com os contornos desejáveis. E de que outros partidos nesta área ideológica (?), um pouco por toda a Europa, poderemos recolher algum contributo válido no combate à “TINA”, ao austeritarismo que ela impõe, à intransigência da atitude autoritária que exerce, aos ataques às soberanias que facilita, – muitas vezes muito para além do admissível e para lá do nojo?

Afigura-se-me, por isso, que é preciso destruir a “TINA”, retirar-lhe os instrumentos arrogantes de (falsa) verdade única, combate-la pelo contraditório, pela diferença, pela elevação, pela seriedade, pela persistência, pelo arrojo e pelo sentimento inabalável de que a verdade, a que conta, está no debate plural, no respeito pelas opiniões contrárias e na inevitável síntese que a democracia inspira, – ou procura inspirar -, e que a “TIA” pode representar.

Sim, a “TIA”, there’s alternative, é a orientação, é o factor de mobilização, é a razão de esperança. Em democracia, há sempre alternativas e, quando se procura alimentar a ideia de que assim não é, está-se a violar o elementar e a por em causa a vida livre e cívica de todos nós.

O presente e o futuro exigem a “TIA”.

E é da “TINA” para a “TIA” que devemos encetar esta caminhada, para a qual estão convocados, claro, os socialistas e os democratas que sentidamente o sejam.