E no dia 23… veremos

mota-torres-icon

Martin Schulz, alemão, social-democrata, militante do SPD e presidente do Parlamento Europeu, resolveu, e bem, há alguns dias, sugerir que a Europa, a da União, no momento em que aguarda pela decisão dos britânicos – o complicado e imprevisível referendo sobre o tema ocorrerá, já, a 23 deste mês de Junho de 2016 – de se manterem, ou não, neste espaço de propagandeada comunhão de interesses e de valores, aproveitasse a ocasião para reflectir sobre o estado da EU, sobre o seu presente, sobre o seu futuro e sobre tudo aquilo que pode interessar aos europeus, tendo em vista a sua, da União Europeia, manutenção, o encontrar das soluções necessárias para sair de uma crise em que ela própria se deixou afundar sem ter reagido, como se imporia, nos momentos politicamente mais sensíveis e marcantes, e encetar o caminho da recuperação da confiança, do reforço do espírito europeu, da revitalização dos valores que a enformam, da consolidação deste grande projecto colectivo que, pela sua natureza, deveria continuar a ser o norte de todos os seus estados-membros e objecto de interesse por parte de todos aqueles que, embora na Europa, – ou mesmo fora dela -, lhe não pertencem.

Impõem-se as perguntas: só agora? Não foram suficientes as campainhas de alarme que, de forma mais ou menos estridente, foram ouvidas por todos nós, sem que daí resultasse o mais pequeno assomo de preocupação, de alerta, de acção? Foram, porventura tímidas, as reacções desarticuladas, egoístas e desligadas de alguns dos seus países face ao evoluir de muitas das questões mais candentes que a têm vindo a fazer periclitar? Então, repito, porquê só agora? – “Elementar, meu caro Watson”, como diria Holmes, porque num repente nacionalista de eleitoralismo fácil, os ingleses encontraram argumentos fortes para questionarem a sua permanência na EU e, ao contrário do que seria de esperar, – adivinhava-se, pelo menos, que os europeístas tivessem vindo a terreiro, no momento certo, o das eleições britânicas, terçar armas pela Europa e pela sua continuidade -, foi na cedência, e não no combate, que se deixou minar um terreno que, fragilizado por erros sucessivos, indecisões, arrogâncias, incapacidade de leitura política dentro e para além dela, ingenuidade (?) ou desmazelo face à correlação de forças em presença e à sua avaliação, oportunismos, até, – e não se trata (apenas) da zona euro, a que o Reino Unido não pertence, mas sim dos 28 -, constituiu, e constitui, o caldo de cultura ideal ao aparecimento fortalecido dos seus detractores, dos seus adversários e, sem exagero, até dos seus mais enérgicos inimigos.

A EU de hoje, não tem grandeza política. É dirigida, aparentemente, por meros executantes de apócrifas instruções financistas e, pasme-se, perde-se no absurdo de pretender, obstinadamente, punir um estado-membro pelas consequências da concretização de orientações políticas que ela própria, a EU, ditou.

E, no dia 23… veremos.

Sim, é verdade, veremos; pode é ser tarde para tentar corrigir o tanto mal que com inimaginável leviandade se foi infringindo à sempre difícil construção europeia, à garantia dos seus indispensáveis equilíbrios, à superação partilhada dos antagonismos que com naturalidade nela se desenvolvem e ao reforço das condições de sustentabilidade de um ambicioso projecto que se pretendia de todos e para todos.

Se nos detivermos no que importa, quão ridícula será a elaboração em torno do desvio de duas décimas no défice de 2015… mas são estes os “pedagógicos” exemplos que a hierarquia europeia vai dando aos seus pares na União. Entretanto, escandalosamente, diria, as grandes e determinantes questões que a todos se nos colocam, não têm discussão, parecem não ser prioritárias e, por isso, remetidas à comodidade do silêncio. Da demografia nos estados-membros às políticas migratórias; dos conflitos armados e das suas consequências políticas, sociais e económicas na Europa dos 28; da crise dos refugiados; da recuperação dos padrões de crescimento económico, – tão necessária -, às medidas de contenção do desemprego e de promoção de novo emprego; da diplomacia; da segurança; dos direitos sociais; da defesa; da confiança que a zona euro deverá inspirar, urgentemente, ao conjunto da União; da desejável estabilidade e sustentabilidade das medidas adoptadas; das políticas ambientais e, em suma, de tudo o que pode ser vital para a sua sobrevivência, a EU parece não fazer caso, mergulhada que está na sua mesquinhez, ignorando, porventura, que será ela o seu algoz.

Haverá tempo, face à multiplicidade das ameaças que nos perturbam o caminho conjunto, em Budapeste ou em Varsóvia, em Paris ou em Viena, em Haia ou em Helsínquia, em Praga ou em Bratislava, na zona euro ou fora dela, na Europa para ela própria e da Europa para com o mundo, para abrir novos caminhos, para desbravar novas oportunidades, para suscitar renovadas e determinantes vontades, para reacender a esperança? – Quanto desejo que sim.

Haja coragem de despir as fatiotas da autossuficiência e dos egoísmos nacionais e reabraçar as ideias fundadoras para, então sim, em pé de igualdade e num claro e solidário espírito de coesão, assumindo as falhas, os erros, as irreflexões e as falsas perspectivas de análise, sermos capazes de recompor o desenho, engrandecermos o projecto, validarmos a sua execução e mobilizarmo-nos para o desafio dos desafios, o de, esgrimindo os grandes valores que nos identificam e que partilhamos, – a defesa da democracia, da liberdade e dos direitos do Homem -, salvar a União Europeia.

E, no dia 23… veremos; se ainda vamos a tempo.