25 de Abril, sempre!

rui_nepumoceno_icon

Quarenta e dois anos depois dos briosos militares do Movimento das Forças Armadas terem desencadeado a heroica Revolução do 25 de Abril de 1974, ainda me comovo ao evocar esses primeiros dias luminosos e redentores, em que Portugal foi de facto uma terra da fraternidade, que a todos prometia um futuro risonho de Liberdade, Desenvolvimento, Paz, e Justiça Social.

Retenho ainda desse tempo a épica figura de Salgueiro Maia, no Largo do Carmo, ao comando dos seus blindados; as lágrimas de alegria e os abraços trocados entre camaradas e companheiros de lutas antigas; os cravos vermelhos florindo nos canos das espingardas dos soldados, e erguidos nos punhos dos homens, das mulheres e dos jovens do meu País; as «chaimites» emolduradas com cachos humanos que tinham vencido o medo entranhado por dezenas de anos de silêncios forçados; os comboios e aviões que dos quatro cantos do Mundo traziam de volta os exilados políticos recebidos com amor e explosões de esperança; Mário Soares assumindo às janelas de Santa Apolónia, acenando para a multidão, e Álvaro Cunhal, de pé, em cima duma «chaimite», falando ao povo e para os seus heroicos camaradas do Partido que tinham resistido às injustiças, à fome, às torturas e às prisões; a comovente libertação dos presos políticos de Caxias e Peniche; e as multidões ondulantes, que ao som da «Grândola Vila Morena» e das cantigas de Adriano Correia de Oliveira e de Zeca Afonso, soltavam vivas à Liberdade, à Democracia e ao Socialismo, apregoando que “o povo unido jamais será vencido”.

Ficavam para trás cinquenta anos de ignomínia e dum regime ditatorial e desumano; uma censura boçal e castradora; milhares de bufos, legionários e informadores da polícia política; assassinatos nas ruas, nas masmorras, e no campo de morte do Tarrafal; a PIDE entrando de madrugada, de pistola em punho, nas casas dos que lutavam pela liberdade, pela justiça e pelo pão, levando-os para as «gavetas» do Aljube, donde saíam para os interrogatórios, os espancamentos e a «estátua» na António Maria Cardoso, acabando por serem julgados pelos juízes do Tribunal Plenário, que assinavam de cruz as longas penas propostas pela polícia política, que muitas vezes eram prolongadas por tantos períodos de três anos quantos os algozes fascistas ordenavam.

Olhando mais de perto, lembro a televisão a preto e branco, alijando a propaganda do regime, mostrando que no Mundo sucediam-se as guerras, os crimes, as revoluções, e os desastres, mas que tudo isso passava-se lá fora, porque cá dentro, protegia-nos a paz do nada.

Recordo que nos campos e nas aldeias de Portugal, a vida escoava-se longe e devagar. Tomava-se banho numa bacia de lata com água vinda das fontes, à cabeça das esposas; e nas glebas, labutavam de manhã até à noite homens e mulheres tisnados pelo sol, enquanto em casa, as mães cozinhavam, lavavam, passavam a ferro, remendavam e bordavam.

 A função da mulher era servir o marido, e se refilhavam, muitas vezes eram espancadas sem ninguém as poder valer, porque entre “marido e mulher ninguém meta a colher”.

As ruas das aldeias eram de lama; e a ida às feiras, aos mercados, ou às finanças para pagar a décima, fazia-se a pé descalço, e muitas vezes a fome rondava as cabanas e as barracas dos mais pobres. Famílias inteiras poupavam a lenha no Inverno e enganavam a miséria repartindo uma sardinha ou comendo figos secos, castanhas e bolotas; enquanto as grandes carências obrigavam os velhos a calcorrear os caminhos de mão estendida, balbuciando o Pai-Nosso.

Sobravam os iletrados e os analfabetos. No ensino primário a régua e a cana de vimes eram instrumentos de trabalho, tais como o quadro, a ardósia, ou a pena de molhar no tinteiro. Em muitas aldeias e vilas, para obter o ensino médio recorria-se aos corredores dos Seminários; e o ensino superior era para os filhos dos ricos e das classes altas, e poucas mulheres lá chegavam.

Naqueles dias, para muitos, a única saída era emigrar para a África, para o Brasil ou para a Venezuela; e na década de sessenta rebentaram as guerras coloniais e muitos fugiram para a França e a Inglaterra, enquanto os nossos mortos começaram a chegar numa caixa de pinho.

Até que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, por vontade própria e desobedecendo aos altos comandos, capitães, tenentes, sargentos e soldados saíram dos quartéis, ocuparam os aeroportos, a televisão, as rádios, as bases, e os aquartelamentos, acabando por prender o Chefe do Governo e o Presidente da República, que foram enviados para a Madeira.

Pediram ao povo para não saírem das suas casas, mas milhares de homens, mulheres, e jovens desobedeceram, e em grupos cada vez mais numerosos, gritando e explodindo de alegria, rodearam as tropas libertadoras, fazendo de escudo aos soldados que os libertavam de 50 anos de tirania; ao mesmo tempo que outros, expondo a vida às balas disparadas pela PIDE, ocuparam a sede da António Maria Cardoso, onde penavam presos na tortura do sono, avançando depois para Caxias e Peniche com o intuito de libertar todos os políticos aprisionados nas masmorras da ditadura.

O primeiro de Maio foi como o princípio do Mundo. Ondas humanas saíram das suas casas e fundiram-se em regatos vindos de todas as partes, como se as pessoas brotassem do próprio chão, e juntando-se aos milhares no «Estádio do Primeiro de Maio» aos gritos de Viva a Liberdade e Viva a Democracia, reivindicavam o Socialismo e o fim da Guerra Colonial.

A dinâmica transformadora desta espontânea aliança do povo com o MFA determinou a imparável conquista das liberdades de reunião, de expressão e de associação; ao mesmo tempo Portugal mudou de rosto e foi anunciado o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação e à independência, ganhamos o respeito internacional, e estabelecemos relações com todos os Estados do Mundo.

Os Governos Provisórios e a Assembleia Constituinte que aprovou a Constituição mais progressista da Europa, legislaram a criação do Serviço Nacional de Saúde gratuito; o acesso universal e também gratuito ao Ensino de Qualidade; uma Segurança Social inclusiva; a igualdade entre os homens e as mulheres em todos os domínios; autarquias democráticas; poder local eleito; a conquista da Autonomia Política da Madeira e dos Açores; o salário mínimo, o subsídio de desemprego, reformas e pensões dignas, o controle operário, e os direitos à greve, e ao emprego.

Afirmou-se ainda o fim do latifúndio, realizaram a Reforma Agrária e a nacionalização dos sectores estratégicos da economia, deram início à construção do Estado Social de Direito, e à caminhada para o aumento da esperança média de vida, do bem-estar, e da felicidade das pessoas; como nunca houvera em Portugal.

Porém, comemorar hoje os dias fraternos de 25 de Abril de 1974, é ser possuído por um duplo sentimento. Por um lado, o intenso júbilo pelas conquistas alcançadas no campo económico e social, na educação, na justiça e nas ciências. Mas, por outro lado, e simultaneamente, ser invadido por um sentimento de pesar por sermos desgovernados por muitos burocratas, em cujos peitos nunca despontou um cravo vermelho, e que arvorados em donos de Portugal e dos portugueses trouxeram-nos o vexame da troika e uma penosa política de resgate, que num ritual satânico e em nome da austeridade, liberalizou despedimentos, cortou salários, pensões e reformas, provocou falências, insolvências e o desemprego galopante; decretou medidas de austeridade que apressam a morte dos velhos e fragilizam a vida dos jovens, condenados à emigração forçada, e a um retrocesso civilizacional no nível de vida, e no desmantelamento do estado de bem-estar social.

Hoje, após 25 de Novembro de 1975, aos poucos e poucos os retrocessos foram tomando conta da sociedade portuguesa, iniciando-se a um gradual retorno a antigos estados de exploração, de desigualdade e de pobreza próprios de um País do Terceiro Mundo, e que se presumia estarem definitivamente ultrapassados após as portas que Abril abriu.

 Hoje, em nome do neoliberalismo e da austeridade, desmantelam o estado social, saqueiam salários, pensões e reformas, decretam a maior carga fiscal de sempre, e infernizam a vida do povo e da classe média, lançando cerca de três milhões de portugueses para o limiar da pobreza.

Hoje, muitos governantes não respeitam a Constituição de Abril; violam-na quando lhes dá jeito, faltam sem pudor à palavra dada, e fazem letra morta do Contrato Social estabelecido entre o Estado e os cidadãos.

Hoje, há de novo portugueses que sentem vergonha dos seus dirigentes que privatizam ao desbarato os bens públicos, enquanto cresce desmedidamente a corrupção, os off-shores, a evasão, e a fraude fiscal dos que têm influência política e económica.

Hoje, quarenta e dois anos após a revolução de 25 de Abril, o poder financeiro escapa a qualquer controle democrático dos cidadãos, criando mecanismos de corrupção e domínio dos poderes políticos ditos democráticos, e dos agentes governativos.

Hoje, grande parte da classe dirigente arrasta o País para uma cada vez maior dependência do exterior, e envergonham-nos com as suas posturas subservientes perante os poderes estrangeiros e os grandes potentados económicos e financeiros.

Mas, apesar de todos estes atropelos, comemorar o 25 de Abril e exaltar o Dia da Liberdade, é também um ato de esperança e de libertação do pessimismo que desvaloriza a democracia e agrada a todos os que querem que tudo fique na mesma, contra os mesmos de sempre. Celebrar Abril é afirmar com confiança, que embora a situação seja difícil e complexa, o povo português que há quarenta e dois anos atrás teve a força combativa para derrubar a longa noite fascista, ainda mantém a força moral suficiente para romper com a política de austeridade e de empobrecimento, e para devolver a Portugal, e à Madeira, um futuro, e uma mudança política progressista e patriótica, que nos volte a conduzir aos caminhos e aos valores da Revolução de 25 de Abril de 1974.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.