Festival Literário abriu com Mia Couto

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Fotos Rui Marote

O Teatro Municipal Baltazar Dias praticamente encheu-se ontem para o ‘arranque’ do Festival Literário da Madeira, que contou com a presença do secretário regional da Economia, Turismo e Cultura, Eduardo Jesus. A ‘estrela’ do final de tarde era o escritor moçambicano Mia Couto, que seria entrevistado, no palco da velha sala de espectáculos madeirense, pelo jornalista Fernando Alves. Mas antes de permitir à assistência que o ouvisse, o director da editora Nova Delphi, a entidade privada que possibilita todo este Festival (que já vai na sua sexta edição) fez um discurso de abertura.

No mesmo, Francesco Valentini abordou a temática deste ano, falsidade e verdade na ficção literária. Algo que dá “pano para mangas” e o orador bem o provou, numa dissertação na qual citou as mais diversas personagens da ficção romanesca, das religiões e da história, desde Ana Karenina a Hitler e a Jesus Cristo. Tudo para explorar, em exercícios de lógica e dialéctica, os mundos possíveis da literatura, em que se pode tecer afirmações verdadeiras sobre personagens fictícios, ou vice-versa.

Francesco Valentini
Francesco Valentini

Manifestando orgulho em continuar a poder realizar este Festival, que já trouxe ao Funchal vultos de grande estatura cultural, como Naomi Wolf, Francesco Valentini enalteceu o apoio da CMF e do Governo Regional e prosseguiu para falar do escritor italiano Umberto Eco, recentemente falecido.

Garantindo que o famoso autor de ‘O Nome da Rosa’, ‘O Pêndulo de Foucault’ e outras obra notáveis foi seu professor na Universidade de Bolonha, o proprietário da Nova Delphi afirmou que o convidou a vir ao Festival Literário da Madeira, e que Eco declinou vir à quinta edição, mas disse que estaria na sexta, ou seja, a deste ano. Entretanto, como é sabido, faleceu.

Francesco Valentini garantiu que Eco mostrou interesse na Madeira, pois interessava-se por lugares lendários, e de facto, como se lê num seu livro dedicado a este mesmo tema recentemente editado em Portugal, Voltaire dizia que os restos ainda visíveis da antiga Atlântida, a ter existido de facto algum dia aquela ilha mitológica, teriam de ser o arquipélago da Madeira.

No seu discurso, Valentini comparou o pensamento científico ao das Humanidades, acusando a ciência de ter uma visão redutora da verdade, e atribuindo à literatura e à poesia essa suposta perspectiva mais abrangente. São domínios que são capazes de ir mais longe, auto-impõem-se menos fronteiras. Citando Nietzsche, alongou-se na exploração da diferença entre conceito e metáfora e discorreu longamente pelos meandros da abstracção. As verdades são ilusões, apostolou, por entre muitas considerações sobre linguagem e estética. Terminou citando o escritor peruano Mario Vargas Llosa: “A literatura ajuda-nos a orientar-nos no labirinto onde nascemos”.

Miguel Silva, da CMF
Miguel Silva, da CMF

Por seu turno, Miguel Silva Gouveia, em representação da CMF, fez imensas alusões elogiosas ao Festival, inclusive afirmando que os seus filhos “cresceram com ele” e sublinhando que o mesmo já se alcandorou à categoria de evento de referência a nível nacional e mesmo internacional. Cumpre, garantiu, o papel de aproximar a Cultura dos madeirenses e vice-versa.

Aproveitou para sublinhar o facto de que o ‘Baltazar Dias’ integra a partir de hoje a rede nacional Eunice, assim chamada em homenagem à actriz Eunice Muñoz e que permitirá parcerias efectivas com o Teatro Nacional D. Maria II, trazendo ao Funchal espectáculos desta referência do teatro português. Lembrando vários autores madeirenses de destaque do séc. XX, lamentou que na altura não tivessem tido a oportunidade de um Festival assim para os projectar, uma vez que considera que se trata de um certame que funciona “como uma boa montra para a literatura lusófona e não só”.

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Em nome da CMF, garantiu que, na perspectiva da autarquia, a Cultura “é um investimento, e não um custo”. E apelou à convergência entre entidades públicas e privadas, em nome da Cultura.

Por sua vez, o secretário regional da tutela, Eduardo Jesus, foi mais curto e conciso, caracterizando também o Festival como uma “referência obrigatória” no panorama cultural dos grandes eventos e saudou a Nova Delphi por privilegiar a Cultura na RAM. De resto, não poupou nas hipérboles quando considerou a Madeira “um berço de Cultura”. Defendeu que os cidadãos nacionais e estrangeiros que vêm à Madeira por causa do Festival tornam-se portadores de uma mensagem importante sobre o que se faz na Madeira na área cultural. “Uma terra com 600 anos tem muito para contar”, realçou.

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E finalmente a assistência teve a oportunidade de ver Mia Couto, que subiu ao palco para receber presentes da CMF e elogios de Eduardo de Jesus, que quase se degladiaram pelas suas atenções. O escritor foi praticamente apresentado como se tivesse vindo à Madeira pela primeira vez, quando na realidade já marcou presença cá há anos, aquando dos memoráveis eventos da Feira do Livro organizada por Maria Aurora.

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Finalmente, o jornalista Fernando Alves entrevistou Mia Couto sobre a natureza da sua personalidade, das suas opiniões e da sua obra. Uma parte que infelizmente não pudemos acompanhar.

O Festival Literário prossegue.