Denunciar é prevenir: Escola dos Louros debate violência doméstica

escola louros violência mulheresComo pode um só homem exercer violência durante anos seguidos sobre três gerações – a mulher, a filha e os netos? A história aconteceu no Funchal e foi um dos casos relatados por Luís Telo, o chefe da PSP que esteve esta manhã na escola dos Louros, no âmbito da iniciativa “Say No to violence against women”. Uma oportunidade para alertar quanto aos sinais de risco e formas de prevenção.

Em dia de efeméride, foi perante uma plateia de alunos, professores e encarregados de educação que se debateu a questão da violência, não apenas sobre as mulheres, mas sobretudo aquela que é exercida nos limites da esfera privada e no âmbito do namoro, entre adolescentes.

O exemplo referido pelo chefe da PSP Luís Telo é paradigmático de como as causas dos comportamentos abusivos em contexto familiar nem sempre têm uma explicação lógica, o que só por si torna a resolução do problema muito complexa, exigindo respostas multidisciplinares e a intervenção de vários serviços e técnicos. No entanto, há fatores que se repetem num quadro de violência doméstica e que contribuem para o perpetuar de um ciclo onde não há vencedores. O silêncio, o medo, a vergonha e os laços de dependência afetiva e económica entre vítima e agressor surgem no topo da lista.

Conforme fez questão de salientar, o fenómeno da violência doméstica, seja ela sobre crianças, mulheres ou idosos, constitui atualmente um dos focos de grande atenção no âmbito da intervenção das forças policiais, a par da prevenção rodoviária. Tal fica a dever-se ao facto de o fenómeno estar na origem da segunda maior causa de morte em Portugal, a seguir aos acidentes de viação. “Os números de 2015 apontam para uma mulher assassinada a cada semana”, frisou Luís Telo que afirmou estar a PSP particularmente atenta às situações dos agregados de fracos recursos económicos e de baixo nível sociocultural.

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A denúncia dos primeiros sinais é, na opinião do agente, uma das formas mais eficazes de prevenir que o problema evolua para patamares mais graves. Seja na escola ou em casa, entre namorados ou familiares, os comportamentos abusivos, físicos ou de ordem psicológica, não devem ser desvalorizados, desculpados ou silenciados. Infelizmente, a vergonha, o conformismo e o medo das vítimas continuam a ser as principais debilidades aproveitadas pelos agressores para manterem o fenómeno longe do conhecimento público e das autoridades, e assim fazerem perdurar ou até reforçar o controlo sobre a situação. A verdade é que quanto mais se adia a solução, maior o sofrimento e os riscos, inclusive em termos de segurança da própria vida.

Normalmente chamada a intervir em situações extremas, de emergência, a PSP procura agir de forma integrada com apoio de uma rede de parceiros, onde se incluem psicólogos, assistentes sociais e instituições de apoio à vítima. Respostas que, segundo o chefe da PSP, não sendo as ideais, constituem uma base de apoio importante com vista à segurança e reabilitação dos intervenientes, inclusive do agressor.

No seu entender, o fenómeno da violência doméstica deixou de estar limitado à esfera privada, não só por força da lei que o trata como crime público, ou seja, passível de ser denunciado por qualquer pessoa, como também pela mudança de mentalidades quanto às relações de igualdade entre géneros.

Com larga experiência no terreno, Luís Telo definiu a violência doméstica como sendo um crime que assenta na diferença de forças, podendo o agressor ser homem ou mulher. Se no caso do agressor masculino a violência física assume maior expressão, no caso do agressor feminino as queixas prendem-se maioritariamente com a pressão psicológica. Uma forma de agressão cuja prova jurídico-legal será sempre mais complexa, conforme sublinhou.

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A questão da violência entre jovens, sobretudo na fase do namoro, esteve também em destaque neste encontro. Carina Nunes, da equipa de apoio à vítima de violência doméstica, Tânia Freitas, técnica de educação social, e a psicóloga Elisabete Vieira deixaram algumas dicas de como identificar sinais de alerta e lidar com o problema, na escola e na família. Por seu turno, o jornalista Miguel Fernandes analisou o difícil desafio que se coloca à comunicação social na hora de relatar casos de violência doméstica, em que a excessiva exposição e pressão mediáticas nem sempre ajudam na sensibilização e formação da opinião pública quanto às causas e prevenção do fenómeno.

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No final da manhã, os alunos do WEnglish Club, projeto que organizou a ação de sensibilização em Dia Internacional da Mulher, procederam à largada de balões como mensagem de esperança num futuro sem discriminação de género. À tarde, foi a vez de efetuarem uma caminhada de protesto com destino à Praça do Povo, onde protagonizaram um juramento público subordinado ao tema “Eu denuncio a violência”.