Padre Cecílio faz 100 anos: segredo da longa vida é a alimentação regrada e não temer a morte

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100 anos sem perder o jeito para o órgão e o canto ao Senhor. FOTOS: Rui Marote

São 100 anos de vida que se completam no dia 20 do corrente mês. O aniversariante é um discretíssimo e afável padre da Ordem dos Carmelitos Descalços, da Igreja do Carmo no Funchal, que dá pelo nome de Padre Cecílio.

Na próxima sexta feira, pelas 18 horas, na Sé Catedral, os amigos do padre Cecílio agendaram uma celebração de ação de graças, com a presença do Bispo do Funchal, D. António Carrilho.

O segredo para tamanha longevidade? Ao FN, este espanhol de origem e homem de fé acima de tudo, admite que não há receitas mas, do alto da sua experiência, atreve-se a sugerir: “Ter uma alimentação muito cuidada, pondo inquestionavelmente de parte o álcool e outros excessos, e não ter medo da morte. Ter sempre ânimo para aceitar o que Deus nos manda. Ter fé e a certeza de que a vida não acaba após esta, porque outra melhor está ainda para vir. Mas é preciso ganhá-la”.

Na Igreja do Carmo, os acordãos do órgão vibram forte. A Eucarista tem outro encanto quando o padre Cecílio, muito apoiado pelos leigos, celebra a Palavra de Deus com hinos de louvor, saídos das suas mãos agora inseguras. Sempre adorou tocar. Não essas músicas modernas mas um som profundo “e sonoro”, como diria Camões, suficientemente forte para louvar uma figura igualmente proeminente: Deus. Por isso, apesar da idade avançada, este sacerdote continua a tocar, a cantar e a concelebrar a missa com os seus pares no Carmo.

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Uma presença na missa, na Igreja do Carmo, no Funchal.

Natural de Bilbau, enveredou pelo sacerdócio porque o pai assim o quis. Tem dois irmãos frades e uma irmã freira, hoje a residirem na América. Opções familiares de um tempo bem diferente do nosso, onde escasseiam vocações para o Seminário. Cecílio Astondoa Gortázar, assim é o seu nome completo, já tinha mais de 70 anos quando veio para o Funchal e aqui permaneceu.

Aceitar com confiança

Aos nossos jovens, o padre Cecílio olha-os com muita esperança. “É preciso aceitar tudo o que acontece na vida, sem inquietação, mas com confiança. Preocupar-se é deixar entrar as doenças. Não ter medo da morte”.

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Os amigos e o Carmelo estão a organizar um jantar comemorativo do seu aniversário, no dia 20 deste mês,

Mas a sua mensagem aos jovens ainda não terminou. “Se não encontraram ainda a felicidade, venham ao Carmelo buscá-la, como aconteceu comigo”. Um convite explícito à opção pela via sacerdotal como reencontro e paz.

Após a celebração litúrgica de sábado ao fim da tarde, são muitos os que querem cumprimentar o padre Cecílio. Os cristãos ganharam afeto a este espanhol de sorriso fácil e sempre pronto a fazer um gesto de carinho a quem o escuta. Nem sempre está bem para o diálogo, o que é logicamente compreensível. Por vezes, faltam as palavras, tremem as mãos, mas é impressionante a firmeza do raciocínio nas afirmações que faz, nomeadamente em torno de assuntos estruturantes como “Deus que é uno e imortal”, como a “Fé, alimento para a paz” ou a “confiança na vida para a libertação”.

Os irmãos do Carmo veem-no como uma figura patriarcal, sorriem-lhe, espicaçam-no para o levar a partilhar connosco a sua rica experiência de vida. Sereno, de pele alva, olhar vivo, sorri. E despede-se de nós com a mesma serenidade com que nos acolheu para dois dedos de conversa.