Primeiramente um introito.
O Miguel Nóbrega é um jovem promissor da nossa querida Camacha. É um rapaz bem parecido e ao que tudo indica é bom aluno, particularmente, em história. Escreveu uma longa carta aos senhores governantes (ao longo da carta percebe-se serem os governantes regionais). A missiva está recheada de várias informações históricas para os convencer a sério para não receberem refugiados. A carta foi publicada no Jornal informático «Funchal Notícias». Os responsáveis deste órgão de informação quiseram dar voz aos jovens sobre a questão deste drama horrível que estamos a viver hoje, os refugiados do Norte de África e do Médio Oriente que atravessam o Mediterrâneo à procura de melhores condições de vida na Europa. Foi feliz a ideia, mas logo no primeiro depoimento ficou minada a ideia pelo azedume que destila erroneamente contra pessoas diferentes de nós, com generalizações e exemplos absurdos, anacrónicos e descontextualizados.
Ao ler a infeliz carta do Miguel Nóbrega, saltava-me ao pensamento a pergunta, «como pode ser possível?» alguém se lembrar de escrever isto, ainda mais com uma quantidade tão grande de informação cada uma pior que a outra para justificar a recusa de seres humanos, irmãos nossos. No fim, pensei, isto não merece resposta nem muito menos merece que se dê destaque a tamanha barbaridade.
Porém, logo a seguir, saltou-me ao pensamento duas razões para responder a isto. A primeira é clara, esta é a voz daquele povo que me apresenta dezenas de razões para não ajudar os vizinhos desempregados mesmo que tenha filhos pequenos para alimentarem. A segunda foi esta, este jovem não pode continuar a crescer sem que lhe seja dito que a par das muitas razões que o convenceram para não ser solidário, existem outros valores que nos levam a sermos solidários sem medos e sem condições.
Feito o contexto, vamos a isto.
Caro Miguel,
Vou tentar escrever-te também em forma de missiva, dado que te expressaste também dessa forma, para combateres o corajoso pronunciamento do nosso Presidente do Governo Regional, Dr. Miguel Albuquerque, que de enfiada listou uma série de qualificativos sobre quem anda a despejar xenofobia, especialmente, a alimentar uma islamofobia absurda, ignorante. Disse claramente a esses, que estavam errados quanto à recusa de refugiados. Estou claramente de acordo com ele e não me senti ofendido, porque tais palavras em nada me ferem porque não tenho medo do diferente ainda mais se se trata de pessoas, venham de onde vierem.
Miguel, pareceu-me que tens uma quantidade enorme de informação história na memória e, obviamente, que o Google te ajudou a fazer copy paste quando precisavas de alguma citação ou de nomes, muitos nomes para florear a carta. Tudo isso foi permitindo fundamentar a tua convicção e a ideia de que se deve recusar refugiados, aliás, seres humanos, irmãos nossos. Não sei se tens tido, além da disciplina de História, Religião Moral e se andaste ou andas na catequese. Se tal aconteceu, fico ainda mais triste, porque algo anda a falhar redondamente.
Agora, dou-te conta que não gosto da expressão «refugiados», e depois de ler um texto belíssimo do grande Teólogo Leonardo Boff sobre esta questão ainda mais fiquei seguro desta ideia. O texto tem um título provocador, mas muito interessante: «Estes não são seres humanos, são nossos irmãos e irmãs». Já tens idade para saber que nisto de desastres naturais e dramas humanos hoje são eles amanhã podemos ser nós.
Ninguém duvida de que as sociedades de onde proveem estas pessoas em fuga não são sociedades perfeitas, como a nossa não é. Há desigualdade por todo o lado, há fome por todo o lado, há pessoas boas e más por todo o lado. O Papa Francisco denuncia e aponta a mais certa das razões que levam ao drama dos refugiados. Para Francisco, esta é a «ponta do icebergue» das consequências de um sistema socioeconómico «mau e injusto». Disse o Papa: «Esta pobre gente que escapa da guerra, que escapa da fome, é a ponta do icebergue». O Papa sustenta que o sistema económico dominante «descentrou a pessoa, colocando no centro o deus dinheiro, que é o ídolo da moda». No Google o Miguel escreve Papa Francisco, ali encontra uma enorme quantidade de frases e mensagens deste teor que te ajudarão a fazer a síntese junto com todas as outras referências que já tens.
Miguel, alerto-te para uma coisa que faz a diferença entre estas pessoas e nós. Vou por outras palavras repetir o Papa Francisco. Eles fogem da exploração, da violência, da guerra semeada por alguns países do Ocidente, nomeadamente a América e vários da Europa.
Caro Miguel, em circunstâncias de guerra e de perseguição, qualquer um põe-se a fugir. É humano que assim seja, é um impulso incontrolável para quem deseja alimentar-se, alimentar os seus filhos e coloca-los em segurança. Daí o bando de criminosos que aparecem como cogumelos para se aproveitarem dessas fragilidades. Miguel faz este exercício, já pensaste porque morrem tantas crianças e porque são tantos os jovens a formarem as intermináveis as multidões em fuga? – É por isso, Miguel, fogem da destruição dos seus países e da instabilidade que os rodeia, que os levou à fome, à pobreza, à miséria.
Está feito o quadro da realidade dos países de onde eles partiram. A comunicação social vai fazendo o retrato de toda a essa realidade. Por isso, não gasto mais massa cinzenta com isso.
Mas, gostaria Miguel, agora de pensar contigo um pouco sobre a nossa sociedade e a nossa civilização. Não sei se o Miguel é crente, pareceu-me que sim na sua missiva. Se é ou não pouco importa para o caso, mas é só para que eu tenha a ousadia de referir-lhe que ainda no domingo 13 de setembro, São Tiago ensinava que «ter fé sem obras, é ter uma fé morta». Neste sentido, podemos perceber que esta fé se trata de uma fé mais de acordo com um crente que vai à missa e reza todos os dias. Mas gosto de encarar esta ideia da fé num sentido mais lato, serve para acreditar em valores, na humanidade e na vida de todos os dias. Se dizemos acreditar nisso e se aceitamos o convívio quotidiano com isso mas não praticamos algo anda mal em nós…
Por isso, meu caro Miguel, o progresso de uma civilização mede-se pelo grau da sua capacidade em aceitar o diferente. Estes povos são diferentes de nós, ainda bem. Há no meio deles grupos armados, fundamentalistas que até dizem serem crentes e matam em nome da sua crença.
Miguel, importa agora que nós não sejamos como eles, que não correspondamos aos seus intentos com os nossos medos, as nossas recusas, a nossa violência, a nossa demissão à não solidariedade e com a nossa total indiferença…
Miguel entre nós quando começamos um trabalho mais sério de ajuda às nossas famílias mais pobres, o que se ouve de centenas de razões para não se ajudar ninguém, os nomes que se aplicam aos pobres, às vítimas do desemprego e tantos que nos últimos anos entre nós caíram na desgraça da exclusão, na pobreza, na miséria. Estes estão a ser lembrados agora por tanta gente, não porque estejam compadecidos com eles, mas porque são um argumento fácil para justificar os nossos medos e a nossa indiferença em relação a este drama dos refugiados que acorrem à Europa.
Miguel, mais duas coisas para terminar. Uma é de que tivemos a sorte de termos nascido nesta querida Ilha, a nossa Madeira, tivemos uns pais maravilhosos, uma família que nos acolheu, quiçá também passando imensas dificuldades, mas tivemos o melhor dentro do possível. Por isso, somos gratos, eu sou grato a Deus e à natureza que me presenteou com o melhor do mundo.
A outra, não me leves a mal em ter-te lembrado estes aspectos a par dos nomes terríveis e dos factos tenebrosos que nos lembrastes na tua carta. Vais perceber que sou padre da Diocese do Funchal e que gosto do debate de ideias, de reflectir com liberdade e que a minha luta é sempre em primeiro lugar pela dignidade da vida humana, pela felicidade das pessoas, apontando o alimento espiritual como uma mais valia libertadora e não opressora, porque tudo o que seja opressão neste mundo, mesmo que se apresente com a melhor e maior ostentação religiosa, se oprime, não presta, é lixo. O Deus de Jesus de Nazaré, repudia isso, eu, porque o sigo, com muitas falhas, é certo, também repudio com todas as minhas forças.
Não tomes esta minha missiva como um sermão para te pôr na linha. Mas antes como uma mensagem de um cidadão, que por acaso é padre, que deseja um mundo fraterno, onde ninguém é recusado por ser diferente, mas todos devem ter o mínimo para viverem com dignidade e, sobretudo, porque nunca falta o respeito de uns pelos outros.
Com os melhores cumprimentos
José Luís Rodrigues
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