A eterna solteirice da culpa

joao-abel-torres

Depois de repetir que “a postura se vai manter de colaboração e busca da verdade do que aconteceu no BES”, Francisco Proença de Carvalho garantiu que “não aceita julgamentos sumários de ninguém”.

No final das suas declarações aos jornalistas, ficou a frase: “As coisas não são como começam, mas como acabam”, adiantando: “Já vi muitos casos assim”. Ou seja, para “variar”, dita-lhe a riquíssima experiência de advogado de anjos, santos, mártires e vítimas de cabalas que a culpa só terá um de dois desfechos: ou morrerá solteira, ou morrerá solteira. Até digo mais, como acrescentariam os irmãos Dupond, morrerá solteira. Basicamente, mais recurso, menos recurso, tudo não passará de mais um inconsequente exemplo do “business as usual”.

Como era expectável, depois de declarar que não ia fazer “grandes comentários”, o advogado disse que, no seu entendimento, esta medida de coação é “bastante desproporcional”, seguindo-se o “clássico”: “Com todo o respeito pelo Estado de Direito e pelas regras, vamos apresentar recurso”.

E, de recurso em recurso, adivinhamos, mesmo sem consultar a Maya, de recurso em recurso até à impunidade final.

Segundo o causídico de muitos “homens de bem”, ou melhor, de homens de muitos bens, a postura de Ricardo Salgado foi sempre a de colaborar com a justiça, posto que “mais uma vez prestou declarações e deu os esclarecimentos que entende que deve dar, sempre com uma postura cooperante, voluntária e de estar presente perante a justiça”. Curiosamente, adverte o magistrado Helder Fráguas, “Para cumprir a decisão judicial, não é preciso mobilizar dezenas de agentes fiscalizando constantemente se o homem está a escavar um túnel a partir do jardim ou se vai escapar, disfarçado de mulher. Aliás, se Ricardo Salgado decidisse ir ao exterior, os polícias nada poderiam fazer. Não haveria lugar a detenção, pois crime nenhum seria cometido.”

No mínimo, digo eu, é moralmente condenável não permitir que Ricardo Salgado vá à Sé de Lisboa pedir a Deus que misericordiosamente perdoe o meritíssimo juiz Carlos Alexandre pelo inominável pecado de mandar prendê-lo na sua modestíssima mansão, com tão poucos hectares para esticar as pernas ou pôr o golfe, o ténis e a natação em dia, com a agravante de não lhe permitir fazer férias no estrangeiro, por exemplo, na “prisão domiciliária” de Dias Loureiro, um tal de fabuloso Resort algures em Cabo Verde.

Dizia o filósofo grego Sócrates: “Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente”.

Não obstante, a julgar pelos numerosíssimos processos investigados até à data e comparando o número de absolvições, arquivamentos, prescrições e penas simbólicas com os irrisórios números de cumprimento efetivo de penas de prisão, quando se trata de gente graúda da área política ou da finança, é objetivamente de crer que este regime continua a ser o deles, ou seja, o das castas políticas e trupes financeiras intocáveis.

Entretanto, cautela e caldos de galinha… Não vá o diabo tecê-las, e Ricardo Salgado lembrar-se de desatar a contar umas verdades, abrir o livro de pagamentos e citar nomes sonantes de corruptos e corrompidos: políticos do arco da corrupção, porventura “impolutos magistrados”, “insígnes empresários”, entre outras “castas e elites”, incluindo alguém das bandas de Belém. Tivéssemos uma justiça “à séria”, e não o inócuo “mito urbano” que temos, e muitos “donos”, arrendatários e avençados “disto tudo” andariam a coçar a cabeça, sob o risco real de irem fazer companhia a José Sócrates na cadeia de Évora. Entre quem já governou e ainda governa o que não falta é gente merecedora de trocar fatiota e colarinho branco pelo pijaminha às riscas dos seus congéneres Metralhas.


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