Portefólio da cidade: Todos ao Monte e fé em Nossa Senhora

Hoje é véspera de Nossa Senhora do Monte, o maior arraial do Funchal. A uma semana de completar outro aniversário, a cidade sobe à freguesia mais romântica do concelho para cumprir a tradição da festa, da romagem, das promessas, dos círios e dos peregrinos. De hoje para amanhã, não se dorme em redor da igreja que acolhe a padroeira. À semelhança do que acontece um pouco por toda a ilha, os arraiais da cidade são a oportunidade esperada para reencontrar amigos, matar saudades de quem está embarcado e mostrar a verdadeira alma e sentir do povo madeirense.

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Testemunho da devoção genuína dos ilhéus, o arraial do Monte é a verdadeira festa de todos os madeirenses, dos que cá residem e dos milhares de emigrantes que regressam à terra nesta altura do ano. “É a festa do povo que chega a todas as parte do mundo”, assegura Giselo Andrade. O pároco do Monte explica que a solenidade é comemorada com a mesma força e devoção em várias comunidades da diáspora. A mais conhecida é a Festa de Nossa senhora do Monte, em Sydney. Todos os anos, a Diocese do Funchal envia um sacerdote para presidir às celebrações junto dos madeirenses a residir naquela cidade da Austrália. Este ano, não será diferente. Trata-se de uma forma de aproximar todos os naturais da Região no vivenciar da fé.

Após as novenas de preparação, que decorreram todos os dias de 5 a 13 de agosto, está tudo a postos para a noite de arraial mais forte do Funchal e da Madeira. São aguardadas milhares de pessoas no centro da freguesia do Monte, naquele que é um dos momentos mais marcantes da expressão popular do sagrado e do profano.

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À boa tradição madeirense, nada faltará, desde as tradicionais “espetadas” e bolo do caco, às bebidas regionais da ilha típicas de um arraial como este. Muitos quilos de carne de vaca e doses avantajadas de vinho e poncha aguardam os visitantes, além de outras iguarias de sabor regional, como a carne de vinho e alhos, a sopa de trigo e as maçarocas. Só na via pública, estão autorizados cerca de 60 espaços de venda ambulante.

Pelos caminhos e ruelas da freguesia, misturam-se ainda as cores garridas das barracas de brinquedos e dos colares de rebuçados. Ao longo de toda noite, grupos folclóricos, bandas e conjuntos musicais vão cantar e bailar, aliando, numa explosão de alegria, ritmos modernos e tradicionais.

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O cenário é também de cortar a respiração. Grinaldas de flores e milhares de lâmpadas ajudam igualmente a tornar a noite mais festiva. A Igreja do Monte, iluminada em todo o seu esplendor, será então o coração da cidade e da devoção durante os próximos dois dias.

 

A par da festa popular, o arraial destaca-se pelo forte pendor religioso. São muitos os devotos que acorrem ao Monte para pagar promessas e agradecer as graças obtidas pela proteção divina. A par da igreja, o Largo da Fonte é um dos pontos nevrálgicos de peregrinação ao longo do dia de hoje e pela madrugada fora.

Pelo meio dia, nesta sexta-feira, a pequena imagem de Nossa Senhora do Monte sai do nicho onde se encontra para estar presente entre os fiéis e participar na procissão do dia 15. Até amanhã à noite, será possível aceder à Virgem de uma forma mais direta, através da sua posição estratégica na zona do cruzeiro do templo. Curiosamente, uma das raras vezes ao ano em que a imagem sai do local onde se encontra. A próxima oportunidade de tocar o manto de Nossa Senhora será a 9 de outubro para a a Festa do Patrocínio, como padroeira da Diocese do Funchal.

Giselo Andrade

Giselo Andrade surpreende-se todos os anos com o fervor demonstrado pelos fiéis, mesmo em tempos que põem à prova a esperança e a capacidade de resiliência. “As pessoas rezam junto a Nossa Senhora, tocam o seu manto, trazem os filhos e pedem bençãos e proteção. São, de facto, momentos muito profundos e sentidos. Nota-se que as pessoas se sentem mais fortes na sua fé”.

O sacerdote, que todas as quintas-feiras dirige concorridas sessões de oração espontânea, na Igreja do Monte, nota uma evolução significativa em termos de consciencialização da dimensão sagrada, o que tem levado a um exercício cada vez mais pessoal da expressão de fé. “Há pessoas que não falham uma novena ano após ano”, conta. “Há, com efeito, uma maior consciência e participação, devido em grande parte à conjuntura social. As dificuldades atuais têm promovido essa reflexão interior e reforçado o espírito de oração e devoção”.

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Amanhã, 15 de agosto, é o dia da Assunção de Nossa Senhora, feriado mundial comemorado pela comunidade cristã. Na Madeira, associam-se a esta solenidade mariana as festividades em honra de Nossa Senhora do Monte. Pelas 11h00 de sábado, haverá missa presidida pelo Bispo da Diocese do Funchal, uma celebração que contará com a presença de autoridades civis e militares.

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Após a eucaristia, centenas de fiéis costumam acompanhar a procissão, que percorre parte da freguesia, para pagar as suas promessas. Muitos devotos fazem-se acompanhar de grandes círios ou partes do corpo, feitas em cera, para, assim, agradecerem as graças recebidas.

A Romaria de Nossa Senhora do Monte data dos primórdios da colonização da ilha e é o maior e mais concorrido arraial cristão da Madeira.

 

Prevendo a afluência de milhares de pessoas para celebrarem esta festa religiosa, a Câmara Municipal do Funchal volta a apelar à utilização dos transportes públicos. “Vá ao Monte de autocarro” é o slogan da campanha que funcionará hoje e amanhã, de forma a evitar problemas de congestionamento e dificuldades de estacionamento na zona dos festejos.

Para além do serviço regular de transporte público para o Monte (carreiras 20, 21, 21A e 22), a Horários do Funchal disponibiliza um serviço adicional, com início às 18 horas de hoje e término amanhã, até ao final das festividades. Os locais de partida são nas paragens junto à Empresa de Eletricidade da Madeira e no Largo da Fonte.

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