“A austeridade está ao serviço de poderes que pretendem quebrar a espinha ao Povo”

SONY DSC
Fotos Rui Marote

É o rosto português do Movimento Agir. Já esteve no Bloco de Esquerda, de onde saiu em Maio de 2014. Apoiou Mário Soares à presidência da República em 2006 . Participou em reuniões do ‘Juntos Podemos’ mas, em Março de 2015, abandonou o movimento para constituir o grupo político ‘Agir’, que fez uma aliança com o PTP para as próximas eleições Legislativas Nacionais. Está na Madeira e concedeu uma entrevista ao Funchal Notícias:

 Funchal Notíciais: Qual é a mais-valia do projecto Agir em juntar-se com o PTP?

Joana Amaral Dias: O Agir junta-se ao PTP por várias razões. Uma delas é que pretendemos ser uma resposta popular, o mais abrangente possível, àquilo que consideramos ser os problemas urgentes que o país atravessa. Não pretendemos ser D. Quixotes a lutar contra moinhos de vento mas uma plataforma aberta e dialogante com várias forças políticas, associações, movimentos. O denominador comum é muito simples. Estamos todos de acordo em três ou quatro eixos principais. Combate à corrupção, que tem minado as possibilidades de igualdade mínimas; possibilidade das pessoas poderem escolher o modelo económico em que querem viver, nomeadamente a defesa dos serviços e das funções sociais do Estado; o aprofundamento da Democracia, outras e mais formas das pessoas poderem participar. Estamos convencidos que uma imensa maioria de portugueses comungam deste denominador comum e acham que estas são as prioridades para o país.

FN.: São essas as grandes linhas mestras do projecto Agir/PTP?

J.A.D.: Temos esses três eixos principais. Queremos que esta plataforma seja o mais abrangente possível. O combate à corrupção passa por uma auditoria cidadã à dívida porque estamos em crer que uma parte da dívida é ilegítima. Há uma parte enorme que não temos de a pagar. Se houve dinheiro para resgatar seis bancos em seis anos, para fazer PPP absolutamente milionárias que criam excêntricos todos os dias, se houve dinheiro para swaps que é outro sorvedouro do erário público, os portugueses não têm de arcar com os prejuízos privados. Só o BPN custou sete mil milhões de euros ao erário público. Tantos anos depois da austeridade e de dar com o chicote no lombo do Povo português, conseguimos reduzir o défice em nove mil milhões, praticamente tanto quanto custou o BPN. Não posso aceitar que continuemos a pagar uma dívida que é a sangria total do PIB português. O produto da riqueza, do trabalho, do suor e das lágrimas de todos nós. A corrupção mina o sistema. Temos de atacar aquilo que a Assembleia da República se transformou que foi numa central de negócios. Veja o caso das privatizações. Tantas vezes são vendidos por um prato de tremoços os bens que foram construídos durante gerações e gerações de portugueses. Sendo que do lado do vendedor e do comprador estão, muitas vezes, as mesmas pessoas, deputados na Assembleia da República que são advogados. Não acho isso admissível. Vender por tuta e meia o que demorou tanto tempo a construir. Temos de parar com estas portas giratórias entre a Assembleia da República e as grandes empresas, os grandes escritórios de advogados. Depois temos de defender o SNS, a Justiça, a escola pública. Este modelo económico não foi escolhido por ninguém, não foi sufragado. Mesmo o memorando de entendimento, o que foi assinado e o que foi posto em prática é distinto. Há dezenas de coisas que não estavam no memorando inicial e que estão a ser aplicadas. Passos Coelho sempre quis ir além da troika. E outras que estavam no memorando e que não foram aplicadas. Por exemplo, o combate às rendas excessivas da energia. Outra negociata, outra renda garantida para os privados que não podemos consentir. Por fim, queremos aprofundar a Democracia porque entendemos que a classe política dominante não pode, com uma mão, carpir a abstenção e, com a outra mão, retirar todas as possibilidades de participar. Ainda agora, o movimento ‘não TAP os olhos’ quis fazer um referendo. São necessárias 75 mil assinaturas só para propor o referendo à Assembleia da República que as pode rejeitar liminarmente. Isto não é admissível. Tem de haver formas combinadas da Democracia parlamentar com a Democracia directa. O referendo é uma delas. Mas aquela que é muito cara ao Agir e ao PTP é o referendo revogatório. Os eleitos são para servir o Povo e não o contrário. Ou cumprem as promessas ou tem de haver a possibilidade de os pôr no olho da rua. Costumo dizer que esta malta da troika é tão liberal para os despedimentos, tanto se queixam que as leis laborais são muito rígidas, que deveriam começar a aplicar a eles próprios. O referendo revogatório já existe noutros países e deve ser instituído em Portugal. Se já existisse este Governo já estaria destituído, posto que Cavaco Silva não é capaz de cumprir as suas funções.

SONY DSC

F.N.: Para defender essas ideias é importante estar na Assembleia da República. É esse o objectivo já em Outubro?

J.A.D.: Não estamos a vender nada, estamos a propor ideias aos portugueses. Queremos adesão mas queremos que isso seja feito numa base de absoluta transparência. É importante eleger, é para isso que nos estamos a apresentar às Legislativas, mas o que nós queremos é ser poder, é ser governo. Não agora, temos um caminho a percorrer. Não queremos vir a ser uma mera força política de protesto ou de indignação. Queremos ser agentes de transformação social. Viemos para disputar a Democracia e para resgatar o poder.

FN: E porquê com o PTP e não com outro partido?

J.A.D.: Porque o PTP foi o primeiro partido a avançar e a mostrar que estava de acordo com estes princípios, que estava interessado em bater-se por eles e que assinou esse compromisso público com o Agir e com os portugueses.

FN: Não acha que esta fragmentação da esquerda seja dar trunfos à direita?

J.A.D.: Vejo isto como um jogo de soma. Falar de fragmentação da esquerda é dar uma conotação pejorativa que não tem que ter. O Agir e o PTP vieram para somar à Democracia portuguesa. Para encontrar outras respostas, outra forma de fazer política, outra intervenção social, de transformação da sociedade. Viemos somar e não estamos preocupados com a desunião da esquerda, estamos muito mais preocupados é com a desunião dos portugueses. Viemos para unir todos os que foram duramente castigados pela austeridade e não para unir a esquerda. As pessoas que foram violentadas, abusadas, extorquidas, humilhadas pela austeridade foram tanto os eleitores de esquerda como os de direita. Tanto foi roubado o pensionista que habitualmente vota CDS ou PSD como o pensionista que habitualmente é eleitor do PCP ou do PS. Essa velha leitura esquerda/direita não é, no mundo e no país, particularmente interessante. O que assistimos é a uma exclusão de 99% das pessoas do sistema, é uma sociedade com cada vez mais ‘muito ricos’ e ‘muito pobres’. Falar de esquerda e de direita não é a lente mais interessante para ler a realidade mas antes falar dos que estão ‘fora’ e dos que estão ‘dentro’ do sistema.

FN: Mas como é que se consolidam estes novos movimentos que surgem à esquerda. O Podemos, o Nós Cidadãos, o Agir. Movimentos que também apareceram na orla mediterânica europeia? Como é que se consolidam sem dar trunfos à direita?

J.A.D.: O Syriza venceu eleições e não deu trunfos à direita. E era uma força nova. O Podemos é uma força novíssima e não deu trunfos à direita. E mesmo o Cidadãos, que tem cerca de sete meses, não é justo que se diga que tenha dado trunfos à direita. Reduzir o combate pelo Povo, pelos nossos direitos, pelas nossas conquistas, pelo que construímos durante anos (serviço nacional de saúde, escola pública, etc). Reduzir isso à questão da fragmentação da esquerda é insultuoso para quem como o Agir e o PTP fizeram um trabalho sólido e firme nos bairros sociais, nos sindicatos, etc.

FN: Mas há alternativa de governação à esquerda sem o PS ou sem o PCP?

J.A.D.: O Syriza não precisou de fazer nenhuma aliança com o PASOK [socialistas] para chegar ao Governo. O Podemos não fará, certamente, nenhuma aliança com o PSOE para chegar ao Governo.

FN: Mas estamos em Portugal...

J.A.D.: Pois estamos. O caminho é duro, de pedras e que se faz. Se foi possível fazer na Grécia e na Espanha é possível fazer em Portugal. Não me vai dizer que acha que os portugueses são menos capazes do que os espanhóis ou do que os gregos. Os portugueses são igualmente capazes, igualmente resistentes. Passaram por provações muito difíceis como foi a luta contra o fascismo, contra o Estado Novo. Já passamos por momentos muito duros. Seremos também capazes de passar por estes. Certamente que não fazemos uma aliança com quem nos trouxe a esta situação.

SONY DSC

F.N.: A Joana fez um percurso político no Bloco de Esquerda, apoiou o fundador do PS, Mário Soares nas Presidenciais de 2006….

J.A.D.: As candidaturas presidenciais não são partidárias. Fui mandatária para a juventude da candidatura de Mário Soares.

F.N.: A minha pergunta é se o eleitorado sabe distinguir os vários momentos políticos da Joana Amaral Dias?

J.A.D.: As candidaturas presidenciais, por definição, não são partidárias. As pessoas são eleitas para serem o presidente de todos os portugueses, são supra-partidárias.

F.N.: São opções da vida política da Joana que fazem sentido em cada momento, como, agora, faz sentido estar no Agir?

J.A.D.: Fez tanto sentido que, se tivéssemos conseguido eleger outro presidente que não Cavaco Silva, tinha sido certamente melhor. Até porque, com todo o respeito que tenho a Mário Soares, tudo seria melhor do que Cavaco Silva. São 10 anos de Presidência que contribuírem, sobremaneira, para cavar a sepultura dos portugueses. Estou certa que, nessa altura, aquilo que deveria ter sido feito era eleger um presidente que não fosse Cavaco Silva. Não me arrependo dessa decisão.

F.N.: É psicóloga, os seus pais são psiquiatras, o que faz uma psicóloga na política?

J.A.D.: A política é uma coutada de alguém? É propriedade de alguém? Bem sei que a Democracia nos foi raptada mas é de todos.

F.N.: Mas onde é que se sente mais à vontade, na política ou na psicologia?

J.A.D.: Todos pertencem e devem poder fazer política, psicólogos, funcionários da Câmara, médicos, estivadores, pescadores, advogados. Uma Democracia saudável é aquela onde é fácil entrar e sair da actividade política. Uma Democracia onde é difícil entrar na actividade política ou sair dela e perpetuar-se durante muito tempo é um sinal de falta de saúde.

SONY DSC

F.N.: A Madeira entrou num novo ciclo político…

J.A.D.: Será?

F.N.: Pergunto eu se é mais do mesmo ou se é apenas um novo ciclo de pessoas?

J.A.D.: Haver novas pessoas não significa que há novas políticas. Este Governo mudou de secretários de Estado de algumas pastas ministeriais e nem por isso mudou de políticas. Do que conheço da realidade madeirense, ainda não vi nada de novo para os madeirense e que contribuísse para elevar a sua qualidade de vida, haver mais justiça, mais igualdade. Vamos visitar um bairro social altamente degradado em Câmara de Lobos e interrogo-me se o novo ciclo chegou a esse bairro que é uma miséria e uma vergonha nacionais. Aí está um bom barómetro, um bom indicador para verificar se as políticas mudaram ou não. Para mim, enquanto esse bairro se mantiver como está, numa situação degradante, humilhante, vexatória, não existe nenhum novo ciclo.

F.N.: José Manuel Coelho é importante mesmo neste novo ciclo político?

J.A.D.: José Manuel Coelho é um exemplo de coragem e de intervenção política. Numa Democracia que tem estado tão fechada sobre si própria, que tem tido tanta dificuldade em deixar entrar sangue novo no sistema e pessoas que não fazem parte da casta e da minoria egoísta, eis que José Manuel Coelho chega. Numa altura em que era preciso muita coragem para afrontar o jardinismo. Que era preciso ter a coluna bem direita e o queixo bem erguido para fazer frente a muitas situações podres e alvitantes para o Povo madeirense. Foi isso que fez e estou certa que é isso que irá continuar a fazer.

SONY DSC

F.N.: Qual a sua opinião sobre a visão que a Europa tem sobre a Grécia e a visão que a Grécia tem sobre a Europa? Há um esticar de corda?

J.A.D.: Não vi nenhum esticar de corda do lado do Governo grego. Tem uma posição negocial flexível e bastante sensata. É capaz de prescindir de uma série de coisas mas não os mínimos. Não vejo nenhuma razão pela qual não se pode cortar no orçamento militar ou taxar as grandes fortunas quando há vinte razões pelas quais não se deve cortar nas pensões e nas reformas. Sendo que, na Grécia, elas já sofreram cortes da ordem dos 40%. O que tenho assistido neste processo é uma posição bastante razoável, sensata da parte de Alexis Tsipras e uma posição absolutamente intransigente por parte da Europa. A Europa está a defender um poder centralizado e ao serviço de forças que não os dos povos europeus. Não lhe interessa um governo que defenda os interesses do seu Povo, da sua população. Fez bem o Governo grego em devolver a palavra ao Povo. Estou muito satisfeita que assim tenha sido. Ganhe quem ganhar, o caminho é devolver a voz ao Povo. Não posso deixar de notar que a propaganda e a lavagem cerebral a favor do ‘Sim’, com mentiras sobre o Povo grego, é absolutamente inacreditável. Estamos perante uma batalha duríssima dos povos europeus contra um poder gigante e que está unido e decidido é nos empobrecer. Na terça-feira vou viajar para Atenas. Uma coisa é certa, a austeridade não serviu para controlar as contas públicas como nos venderam. A dívida não pára de aumentar, aqui como na Grécia. O défice só foi reduzido marginalmente. O despesismo continua. A austeridade só serviu para empobrecer os povos europeus. A austeridade está ao serviço de poderes e de forças que pretendem quebrar a espinha ao Povo.

SONY DSC